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Grilo, um importante momento dos quadrinhos no Brasil
Por Marcelo Naranjo (10/02/2004)
Tumbleweeds, por Tom K. Ryan - Também conhecida como Kid Farofa. Heróis covardes e atrapalhados, apaches divertidos (quando não estúpidos), um bêbado impagável e outras figuras do Velho Oeste, em tiras engraçadas;
The Wizard of Id (O Mago de Id em português), por Brant Parker e Johnny Hart - O Reizinho querendo impor autoridade e nunca conseguindo, um mago e sua mulher mandona, o bobo da corte, o guerreiro preguiçoso, um prisioneiro há muito na masmorra e outros divertidos personagens, já publicados em diversos jornais; Horace & Buggy, por Don Edwing e Paul Coker - Uma prova que o mundo dos insetos pode ser muito engraçado, quando não complicado;Pogo, por Walt Kelly - Criado em 1948, trata de diversos animais em situações remetendo ao mundo de fábulas, com o autor refletindo sobre os valores da sociedade; Luther, por Brumsic Brandon Jr. - Um garotinho negro e sua turminha de amigos; Little No-No & Sniffy, por George Fett - O relacionamento entre pai e filho (cachorros) e muita confusão entre diversos animais; Miss Peach, por Mell Lazarus - Um grupo de crianças vivendo a problemática dos adultos; Valentina, por Guido Crepax - Uma grande estréia no número # 7 da revista. Pela primeira vez, a famosa criação do "papa" dos quadrinhos eróticos aparecia, com direito a uma introdução para o material que começava a ser publicado. Neste número, também teve inicio a seção de cartas;Jules Feiffer - Espaço dedicado ao artista que iniciou carreira trabalhando com Will Eisner, em The Spirit. Com estilo próprio, faz críticas à sociedade em geral e à classe política. Bristow, por Frank Dickens - Um homem filosofando em meio às minúcias do ambiente de trabalho; Andy Capp, por Reg Smythe - Mais conhecido como Zé do Boné, esse malandro, que quer mais é ficar num boteco tomando umas, voltando quase sempre bêbado para casa, para desespero da mulher - e vivendo às custas dela, faz sucesso por aqui há tempos. Aliás, difícil não simpatizar com ele. A segunda fase da revista começou a partir do número # 25 (dedicado exclusivamente a Charlie Brown e sua turma), com novo formato e mais páginas (36). Grilo apresentou novos personagens, e trouxe o underground americano ao Brasil.Além das séries, diversas histórias foram publicadas. Essa mudança pode ser conferida no estilo das capas adotadas a partir de então, com cores fortes predominando. E, falando em cores, o título, que era em preto-e-branco, passou a apresentar-se como "a cores" (nota do UHQ: o correto seria "em cores"), embora elas só existissem na capa e num pôster central. A seguir, o que foi apresentado nas edições: Robert Crumb - A revista foi a primeira a publicar no Brasil histórias do famoso artista, considerado o maior nome do quadrinho underground americano. Crumb chegou no número # 26, com Whiteman, seguido por Mr. Natural e outros personagens e histórias;Paulette, por Wolinski e G. Pichard - Uma deliciosa e voluptuosa garota que passa por grandes perigos após ser raptada, por ser herdeira de uma fortuna, em ritmo de art nouveau; Wolinski - Um artista europeu que quebrou regras, com conteúdo sarcástico, principalmente erótico e também abordando outros assuntos; Reiser (Jean-Marc Reiser) - Artista francês com charges e histórias de humor forte e, por vezes, cruel; Willem (Bernard Willem Holtrop) - Outro quadrinhista da Europa, nascido na Holanda, com bom humor crítico e erótico; Na Grilo # 27, a estréia de artistas nacionais. Começou com Cláudio Martins, de Minas Gerais, com a história SR. Outra mudança ocorreu neste número: as páginas internas, em vez do tom preto, passaram a ser impressas em azul. Nas edições seguintes, outras cores foram utilizadas.A edição # 35 trouxe mais um aumento no número de páginas (56 páginas). E dois números depois, mais um salto: 64 páginas e a inclusão de fotonovelas de humor, a seção As Dicas do Professor Choron (criação de Wolinski), com pérolas ensinando, por exemplo, como transformar uma cueca velha em camiseta; e HQs completas. Seguem algumas: Sonhos Cruzados, por Gore; Os Herdeiros da Terra, por Gore;O Karma de Gaargot, por Sérgio Macedo; Casarão de Harvey, o Horrível, por Gore; O Mensageiro, por Jim Osborne; Bonnie & Clyde, por Guido Crepax; Testicles o Tautologista, por Jaxon; O Perdedor, por Jim Osborne; O Segredo, por Jaxon; Freak Brothers, por Gilbert Shelton; As Aventuras de Zimmerman - Tony Hendra e Sean Kelly (roteiro) e Neal Adams (arte); O Espírito, por Will Eisner;A Queda da Casa de Usher, por Dino Battaglia; Como Howie achou a saída no mundo real, por Gore; Na Calada da Noite, por Jim Osborne; As Aventuras do Super-Morto - Henry Beard e Dick Giordano (roteiro) e Neal Adams (arte); Chapeuzinho Rasgado, por Max Bunker e Gianpaolo Chies; Cacete em Quadrinhos, por Robert Williams; Emma contra os Rebeldes, por Willem; Perseguição, por Archie Goodwin e Alex Toth; Conflito na Guerra, por Gore. Boa parte das histórias acima é assinada pelo artista Gore, pseudônimo utilizado pelo hoje mundialmente conhecido Richard Corben, que tem desenhado várias HQs de super-heróis nos últimos tempos, como Cage, que foi publicada aqui em Marvel MAX, da Panini Comics. Já a história O Karma de Gaargot traz o brasileiro Sérgio Macedo, que posteriormente iria trabalhar no exterior, na França, desenhando para a Métal Hurlant, Linus e para a Heavy Metal americana. Algumas das HQs, como as desenhadas por Neal Adams, foram publicadas originalmente na famosa revista americana de humor National Lampoon.Na edição # 39 houve mais uma estréia de peso, com Gilbert Shelton, criador dos Freak Brothers, na história Bem, eu não tenho ninguém. E, no número # 44, foi a vez de Don Martin, conhecido por seu trabalho na Mad. Em relação às HQs publicadas, autores como o quadrinhista Jaxon (Jack Jaxon), Jim Osborne, Jim Franklim, Larry Welz e Robert Williams fazem parte da escola do underground americano. Inclusive alguns consideram Jaxon com o primeiro artista do gênero. Merece destaque também A Queda da Casa de Usher, com belas ilustrações do grande artista italiano Dino Battaglia. Na derradeira edição da Grilo, a número # 48, uma ótima entrevista com o saudoso Henfil.Outro diferencial na trajetória da revista foi a publicação de contos curtos, geralmente de ficção e terror. Além disso, a partir da edição # 22, as seções Grilos e Super Grilos traziam informações sobre o que estava sendo publicado no exterior, os artistas, super-heróis, revistas estrangeiras, livros sobre quadrinhos e outros. Algumas liberdades foram tomadas pelos editores. Por exemplo, a edição # 1 formava um pôster, na contracapa, com Lucy (de Snoopy) grávida, gritando "Você me paga, Charlie Brown!". Já o segundo número tinha, também na contracapa, o mago de Wizard of Id conjurando um feitiço, e uma bela garota nua saindo do caldeirão. Grilo também teve dois almanaques publicados: Almanaque Grilo - Uma edição aumentada da revista, com HQs, tiras e textos sobre Feiffer, Crumb e Valentina; Almanaque Underground - Diversas histórias completas de Crumb (inclusive Fritz the Cat), Richard Corben, Larry Welz, Gilbert Shelton e Jim Franklim. Foram lançadas também três edições especiais: Valentina, por Crepax, e Paulette, por Wolinski e Pichard, como álbuns; e Mr. Natural, por Crumb, em formato pocket. Embora alguns aspectos deixassem a desejar, como a tradução de algumas histórias ou impressão ruim neste ou naquele número, ainda assim, Grilo foi um grande passo, um diferencial em relação aos quadrinhos até então direcionados para o público jovem e adulto no Brasil. E virou referência e inspiração para inúmeras publicações posteriores.
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