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América é o novo álbum de Crumb, da Conrad

Por Marcelo Naranjo, sobre o Press Release (03/09/2004)

AméricaNão seria absurdo dizer que, neste início de século XXI, há um consenso a respeito dos malefícios que o chamado império norte-americano vem causando ao planeta.

Do escritor Gore Vidal e os fundamentalistas muçulmanos, passando pelo cinema europeu e pelas grandes bandas de rock, ao intelectual Noam Chomsky e mais recentemente ao explícito cinema anti-Bush de Michael Moore, o mundo volta seus olhos àquele país que se autoproclamou o paraíso da democracia e da liberdade.

Dito isso, não é difícil entender a importância deste álbum de Robert Crumb, América (formato 21 x 27 cm, 104 páginas, R$ 25,00).

O pano de fundo na maioria de seus trabalhos no tempo da Zap Comix, ou em personagens como Fritz, The Cat ou Mr. Natural (todos publicados pela Conrad Editora), é uma fina e corrosiva crítica à sociedade americana - mesmo que nem sempre seja este o alvo principal de suas histórias.

No entanto, em América - que reúne histórias da década de 1970 até 1997 -, Robert Crumb mostra as diversas nuances de uma sociedade abduzida pelo consumo, um país que produziu heróis da democracia e da contracultura e parece ter perdido o fio da meada. O que acontece com a América? Essa é a pergunta que o autor faz, entre a angústia e o cinismo.

As histórias desta coletânea são seus trabalhos mais explicitamente críticos e politizados. De certa forma, a auto-ironia mesclada à perplexidade e o sarcasmo fundido ao ressentimento e impotência fazem Crumb buscar uma América idílica, vista pelo retrovisor, e despertam nele profundos sentimentos niilistas diante do presente.

Porém, o grande diferencial deste livro em relação às obras de outros "inimigos da América" é seu cinismo e ironia também voltados a ele mesmo: "Eu desenho o mundo para tentar entendê-lo".

É essa tentativa de compreender o mundo que gera ótimos personagens, como Whiteman - o americano branco cristão de classe média -, o Cabeça de Cebola - o caipira hostilizado pelo homem urbano -, Frosty, o Boneco de Neve guerrilheiro, os Bombados Barra-Pesada - os típicos pitboys reacionários - e o Ganso e a Gansa - uma sátira ao casal mediano.

E, quando o próprio Crumb se expõe em suas histórias, há espaço para tudo, menos para culpa ou piedade. Ninguém jamais poderá dizer que o artista é adepto de "O inferno são os outros..."

Crumb nasceu na Filadélfia, em 30 de agosto de 1943. Começou sua carreira no início dos anos 60, na revista Help, dirigida por Harvey Kurtzman, o criador e editor do período mais anárquico e celebrado da revista Mad. Na Help, trabalhava ao lado de Terry Gillian que depois faria parte do grupo Monty Python.

Depois disso, abandonou Nova York e foi para San Francisco onde se tornou o líder (ainda que a contragosto) do movimento das revistas underground norte-americanas.

Seus ataques contra o moralismo e hipocrisias da sociedade norte-americana foram razões de muitos escândalos, polêmicas e problemas com a Justiça dos EUA. Mas sua importância passou a ser reconhecida até mesmo pelo mundo da alta cultura.

Em 1978, Crumb conheceu e casou-se com Aline Kominsky, também cartunista. Juntos, eles criaram Weirdo. Atualmente, eles vivem no sul da França com sua filha Sophie.


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