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Título:
BATMAN - A PIADA MORTAL (Editora
Abril) - Edição especial
Autores: Alan Moore (roteiro), Brian Bolland (arte) e John Higgins
(cores).
Preço: R$ 4,50
Número de páginas: 48 páginas
Data de lançamento: Abril de 1999 (esta versão, pois a primeira
é de 1988)
Sinopse Tentando enlouquecer o comissário Gordon, o Coringa tortura
o velho policial, infligindo-lhe o tormento psicológico de observar cenas
na qual aleija e, aparentemente, sodomiza sua filha Barbara.
A intenção do maníaco é mostrar ao Batman que qualquer um pode enlouquecer
se tiver um dia ruim. Uma história brutal, na qual o Coringa expõe o auge
de sua insanidade.
A trama, além de uma profunda análise psicológica do Coringa e do Batman,
traz uma nova visão para a origem do mais importante inimigo do Cavaleiro
das Trevas.
Positivo/Negativo: A única coisa que se sabia do Coringa é que
ele tinha sido o bandido conhecido como Capuz Vermelho. Ele era um ser
sem passado. Alan Moore mudou isso. Desde o lançamento desta revista,
o Palhaço do Crime tem um passado, uma família e uma tragédia. E isso
tudo, aliado a seu espírito covarde, culminou na criação de uma nova personalidade,
uma fuga, uma máscara para encarar a realidade.
Essa história quebrou alguns paradigmas dos quadrinhos. Em geral, a relação
herói-vilão é simples e maniqueísta. O mocinho perfeito enfrentando seu
contraponto imperfeito. Nos roteiros clássicos, a função do bandido é
personificar as dificuldades, a força opositora que apresenta resistência
ativa e, por isso, valoriza e enobrece os esforços do protagonista para
atingir seus ideais.
Nos roteiros pouco mais elaborados e menos ortodoxos, o maniqueísmo ainda
é presente, mas atenuado. O herói já não é visto como um arquétipo da
perfeição, mas como qualquer pessoa. Ele tem problemas e conflitos internos,
seu diferencial é a perseverança e a coragem de enfrentar os problemas,
mesmo consciente de suas imperfeições. O vilão, por sua vez, passa a representar
um elemento menos importante, embora mais complexo.
No roteiro de A Piada Mortal, que ainda hoje pode ser considerado
de vanguarda, Moore rompe com as regras e fórmulas clássicas. A história
é surpreendentemente complexa, exigindo uma análise difusa dos personagens,
do simbolismo, e das tramas que ora convergem, ora correm paralelas uma
as outras.
Alan Moore influenciou as HQs ocidentais mais que qualquer outro escritor
contemporâneo. Trabalhos como Monstro do Pântano, V de Vingança, Watchmen,
Tom Strong, Do Inferno, A Liga Extraordinária e, claro, A Piada
Mortal atingiram o status de obras-primas.
Nesta aventura, Moore explora profundamente o aspecto psicológico de dois
dos maiores pilares dos quadrinhos de super-heróis, Batman e seu antagonista,
o Coringa. Há três tramas (Batman, Coringa e Gordon) que vão se trançando.
Entretanto, em dado momento, a história do comissário se individualiza,
passando a ser um referencial de comparação com as demais.
A narrativa é soberba, as mudanças temporais são extraordinariamente bem
realizadas, o fluxo oscila, utilizando tipos de linguagem diferenciados
para tratar de presente e passado. Boa parte da história remete às lembranças
do homem que se tornaria um dos mais perigosos bandidos da DC Comics.
E o trabalho de analise psicológica é primoroso. Assim, Moore demonstra
quem foi - e é - aquele homem e quais suas alegrias, frustrações e motivações.
A interação entre a arte e o texto é de uma qualidade e sutileza ímpar.
As cores são usadas como referencial emotivo. Assim, as boas lembranças
são mostradas com tons claros, e as passagens tristes num alaranjado,
que cumpre bem seu papel, chegando a causar desconforto no leitor.
O plot do Batman começa no Asilo Arkham, mostrando um personagem
calmo, centrado, apaziguador. Em outra direção, o do Coringa se inicia
com o cruel ataque a Barbara Gordon, revelando um homem brutal e insano,
a imagem de um psicopata.
Vindo de direções opostas, aos poucos as duas histórias vão se misturando
e algumas perguntas vão sendo expostas: quão são é um homem que se mascara
para enfrentar a vida? Quantos manteriam sua sanidade após um grande trauma?
E ambas servem tanto para o Batman quanto para o Coringa, mas são respondidas
no storyline do comissário Gordon.
Bruce Wayne, Gordon e um jovem comediante passaram por revezes na vida.
O que levou dois deles a seguir o caminho da máscara? O que fez o outro
sofrer, resistir e continuar vivendo? Quem enfrentou melhor os conflitos
internos?
Moore desconstrói a idéia de que boas histórias precisam ser baseadas
em arquétipos mitológicos. A "realidade" é bem mais complexa. Batman não
é apenas o modelo do herói, o Coringa não é somente o pícaro, a personalidade
de Gordon é bem mais complexa que um mero guardião.
Próximo ao desfecho, o autor brinda o leitor com um instante de aparente
lucidez do Coringa. Por um breve momento, Batman tem contato com o jovem
e pouco talentoso comediante que viria a ser o vilão. E se no início as
tramas dos dois caminhavam em direções opostas, no final, quando o Palhaço
do Crime exibe uma ponta de sanidade, a loucura de Batman aflora.
Alan Moore faz uma genial analogia entre uma velha piada de loucos e o
medo que o Coringa tem de tentar viver novamente e, mais uma vez, a vida
o afrontar com a decepção. Na percepção do autor, depois da tragédia que
levou sua sanidade, o personagem não suportaria uma segunda.
A intenção do Coringa era justificar suas ações, ser condescendente com
seus próprios erros e demonstrar ao Batman que qualquer um pode se partir
se tiver "um dia ruim". Foi essa sua motivação ao mutilar Barbara e torturar
o Comissário Gordon.
Mas apesar do "dia ruim", Gordon, diferente de Batman e do próprio Coringa,
continua firme, lutando, sentindo as dores de seus conflitos internos
e mantendo a consciência de que não pode tomar o destino em suas mãos.
Em 1989, A Piada Mortal ganhou as principais premiações das HQs
americanas: o Harvey Award (Melhor história, desenhista, colorista
e graphic novel) e o Will Eisner Comic Industry Award (Melhor
escritor, artista e graphic novel).
Se o roteiro de Moore é fabuloso, a arte de Bolland não deixa por menos.
Boa parte da genialidade da obra está nos seus desenhos hiperdetalhistas,
com traços finos e pleno domínio do uso de luz e sombras. Ele imprime
aos personagens uma noção de expressão corporal e facial poucas vezes
vistas nas HQs americanas.
Nesta segunda impressão, a Abril fez um excelente trabalho, cores
belíssimas, papel de qualidade, capa cartonada, até o aroma da edição
é bom, bem melhor que a primeira versão, publicada no número 5 da série
Graphic Novel.
Em 2002, a Opera Graphica relançou esta história numa excelente
edição preto-e-branco, capa dura, formato pocket, com uma nova
e belíssima capa com uma gravura impressa em prateado.
Classificação:    
- Gilberto M. M. Santos
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