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Título:
OS COMPANHEIROS DO CREPÚSCULO (Meribérica/Liber) - Série
em três volumes
Autores: François Bourgeon (roteiro e desenhos).
Preço: Fora de catálogo, disponível apenas em sebos, preço variável
Número de páginas: Volume 1: 48; Volume 2: 48; Volume
3: 144
Data de lançamento: Entre 1986 e 1990
Sinopse: O Sortilégio do Bosque das Brumas - Século XIV,
plena idade média, Europa feudal. Provavelmente, a pior época e lugar
para uma mulher viver, especialmente uma garota como a bela ruiva Mariotte,
criada pela avó feiticeira, versada nas tradições das religiões antigas,
transformadas em lendas pelo advento do cristianismo.
Vivendo isolada com a avó, Mariotte é mal vista pelos habitantes da aldeia
próxima, especialmente por um detestável mancebo de nome Anicet, que não
cansa de atormentá-la. Até que um acaso do destino a leva a um inesperado
encontro com uma horda de soldados deserdados nas matas.
Furiosa com Anicet, Mariotte indica a direção da vila aos soldados, e
o resultado é um saque violento e o massacre de cada homem, mulher e criança,
do qual, ironicamente, o único a escapar vivo é Anicet.
Declarada maldita pela avó, por ser responsável por tanto sangue derramado,
Mariotte inadvertidamente torna-se uma peça importante num jogo de proporções
míticas que começa a ser travado quando ela e Anicet tornam-se servos
de um misterioso cavaleiro de rosto deformado que vaga pelo mundo numa
cruzada pessoal contra as forças do mal.
O cavaleiro, antes cruel e impiedoso, traz na consciência a responsabilidade
pela morte da única mulher que o amou e uma maldição que o declara um
joguete da guerra ancestral das três forças: a branca, a rubra e a negra.
Seu escudo ostenta as cores das forças da vida e seu rosto arruinado espelha
as marcas de uma vida dedicada à morte e à destruição.
Ao atravessarem o Bosque das Brumas, os três improváveis companheiros
acabam capturados por uma raça de pequenos duendes, que obrigam o cavaleiro
a caçar um monstro que assombra a região antes que Mariotte e Anicet sejam
transformados em banquete da aldeia.
Apesar do perigo iminente, o cavaleiro encara o desafio sem medo, por
acreditar estar apenas sonhando. Embora não deixe de ter uma certa razão,
as fronteiras entre o sonho e a realidade são muito mais tênues do que
se imagina.
Os Olhos de Estanho da Cidade Glauca - Temporariamente desgarrada
de seus companheiros de viagem, Mariotte conhece uma menina de cabelos
negros chamada Yuna, igualmente criada por uma avó feiticeira e com o
dom de, aparentemente, realizar milagres.
Após causar, inadvertidamente, a morte de sua avó num incêndio, Yuna parte
com os companheiros e um menestrel numa sombria aventura. O cavaleiro
decide ajudar os dois duendes exilados do volume anterior em sua guerra
contra uma raça de criaturas abomináveis que servem à força negra: os
Dhuards.
Para destruir a raça maligna, deve-se devolver a jóia chamada Eclipse
Azul à Dama Branca, mantida prisioneira na Cidade Glauca dos Dhuards.
Uma jornada repleta de perigos e horrores que se passa, como antes, no
interior dos sonhos dos três aventureiros, mas cuja realidade, tanto simbólica
quanto concreta vai muito além das fronteiras dos devaneios.
O Último Canto das Malaterre - Após uma longa jornada, os três
amigos chegam à cidade de Montroy onde, finalmente, o cavaleiro descobre
toda a verdade sobre a linhagem de sua falecida amada Blanche e suas irmãs
Carmine e Neyrelle. Uma dinastia de mulheres descendentes de fadas e sereias,
personificações das forças que regem o universo e o gênero humano: o branco,
o vermelho, o negro, como as três faces da Deusa, tornada obscura e sinistra
por um emergente império das crenças cristãs.
Numa narrativa complexa, repleta de símbolos, sinais e mistérios, Mariotte
conhece novos e fascinantes personagens: uma trupe de comediantes, um
peregrino caçador de lobos, um enamorado noviço e um estranho ancião cavalgando
solitário pelas colinas, todos conduzindo-a, de uma forma ou de outra,
a uma intrigante jornada paralela à de seu mestre que, tragicamente, dirige-se
para a morte, não apenas sua, mas de toda uma época.
Os
enigmas, aparentemente insolúveis, dos volumes anteriores são amarrados
de formas surpreendentes, fechando a narrativa e dando um sentido completo
à obra como um todo que, por meio de protagonistas que espelham simbolicamente
diversos aspectos da idade média e suas contradições, traça a história
do fim de uma época e o nascimento da Idade Moderna, para melhor ou para
pior.
Positivo/Negativo: "Esta durou, diz-se, cem anos... nada a distinguiu
verdadeiramente daquela que a precedeu nem da que se lhe seguiu... como
o granizo ou a peste, a guerra abate-se sobre os campos quando menos se
espera, de preferência, quando os trigais estão pesados e as jovens são
belas..."
Com essas encantadoras palavras (e algumas variações que reforçam as impressões
cíclicas da obra), François Bourgeon dava início a cada episódio de sua
fascinante tragédia sobre a Idade Média, sem dúvida, uma das mais perfeitas
HQs de todos os tempos, digna de figurar entre as mais importantes obras
históricas de qualquer mídia.
Calcado numa cuidadosa e exaustiva pesquisa, Os Companheiros do Crepúsculo
é um clássico da HQ européia. Uma dessas obras-primas que se prestam a
demonstrar o potencial quase ilimitado da história em quadrinhos como
forma de expressão artística, capaz de calar a boca dos, ainda presentes,
detratores que insistem em considerá-la como uma arte menor.
Infelizmente, a trilogia está fora de catálogo, e é muito difícil de ser
encontrada em sebos. Além disso, a obra é pouquíssimo mencionada atualmente
e apenas um reduzido número de fãs sabe de sua existência, o que é pra
lá de injusto.
Numa comparação rápida, Companheiros do Crepúsculo encantaria facilmente
os apreciadores de romances como As Brumas de Avalon e O Senhor
dos Anéis, que também narram, a seu modo, um momento de transição
entre duas visões de mundo - no caso do best-seller de Marion Zimmer
Bradley, trata-se inclusive da mesma transição entre as antigas religiões
e o cristianismo, embora Bourgeon tenha focado um período posterior, em
que as velhas crenças já se tornaram lendas e mitos, apócrifos cuja influência
no espírito humano se dá num nível de inconsciente coletivo, soterrado
além das fronteiras do sonho, onde o cavaleiro busca suas revelações.
Os dois primeiros álbuns, cujas tramas se passam no interior de sonhos
compartilhados pelo cavaleiro, por Mariotte e pelo detestável Anicet,
funcionam quase como prólogos (na verdade, o termo mais apropriado seria
presságios) do decisivo terceiro volume, quatro vezes maior que os anteriores,
no qual o realismo histórico ganha significados gigantescos, graças ao
surrealismo das partes iniciais.
Símbolos, sinais, enigmas, recorrências permeiam toda a trama, realçando
o caráter arquetípico das três forças que se fazem sentir de diversas
formas (cores, imagens, coincidências), mas principalmente por meio das
fascinantes personagens femininas que, de uma forma ou de outra, com evidência
ou não, surgem como trindades: a loira (a branca), a ruiva (a vermelha,
com destaque para Mariotte) e a morena (a negra, magnificamente encarnada
pela cigana Anaïs no terceiro volume e pela menina Yuna, no segundo);
as três faces da Deusa - a Lua, o Sol e a Escuridão -; a alma, a vida
e a morte; o amor, a paixão e a dor; a luz, o fogo e as trevas; o número
de associações é incalculável, os incontáveis aspectos se complementam
sem que o autor jamais precise ser óbvio.
Os personagens são arremessados de um lado para o outro como joguetes
de um destino inalienável, conduzidos pelos sábios cujo conhecimento não
pode salvá-los da catástrofe que se avizinha a cada momento, e que não
se pode evitar.
Assim, o cavaleiro prossegue em sua jornada mítica ao lado das três irmãs
Malaterre, cujas origens lendárias as colocam num território além da especulação
humana, mas não além do fogo, da paixão, do espírito e da morte que, como
uma aranha sedenta, atrai o bravo lutador para sua teia, na culminação
de um destino que não é apenas de um homem, mas de uma época.
Sem
nem sequer terem consciência disso, os demais personagens funcionam como
catalisadores dos acontecimentos que levam a esse destino (sendo o mais
inesperado o papel final desempenhado por Anicet, cujo último e heróico
ato surpreendeu a ele próprio muito mais do que qualquer outro imaginaria),
mas apenas Mariotte (talvez) teria condições de evocar um sentido para
tudo o que acontece, coisa que ela - sabiamente - jamais tentaria fazer.
Uma obra magnífica e inesquecível, capaz de sobreviver a infinitas releituras,
que sempre revelam um aspecto novo, um elemento antes despercebido. Os
desenhos de Bourgeon são de uma riqueza de minúcias absurda, mas não como
o detalhismo supérfluo e auto-reverente a la super-heróis da Image
Comics. Cada quadrinho reproduz com perfeição as inúmeras facetas
da Idade Média: vestimentas, arquitetura, arte, paisagens, tipos humanos...
O leitor sente-se transportado para outra época, o que torna Os Companheiros
do Crepúsculo uma importante obra de referência para quem tem interesse
em pesquisar esta época, podendo ser tranqüilamente adotada como material
didático em escolas.
Essa viagem no tempo ganha um interessante reforço graças à tradução da
editora lusitana Meribérica/Líber, cujo português culto e até antiquado
(que torna a leitura um tanto difícil, mas extremamente recompensadora)
soa adequadamente antigo e lendário aos ouvidos impacientes de hoje. Uma
verdadeira delícia literária.
Quanto às edições em si, são simplesmente perfeitas: papel de primeiríssima
linha, encadernação luxuosa, formato gigante, um primor que, infelizmente,
tornava os álbuns caríssimos mesmo na época de seu lançamento, ainda mais
por serem importados. Mas a leitura valia cada centavo.
Com tantos pontos positivos e nenhum negativo (é um desafio algum cristão
encontrar um!), nada mais resta senão a nota máxima, já que não é possível
dar mais. E recomendar aos leitores para, se surgir a oportunidade, não
hesitem nem um segundo em adquirir essas relíquias.
O mesmo vale para os cinco volumes de Os
Passageiros do Vento, do mesmo autor e editora e igualmente raros.
Classificação:    
- Rodrigo Emanoel Fernandes
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