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Reviews de Quadrinhos
 



Do Inferno # 1Título: DO INFERNO # 1 (Via Lettera) - Série em quatro volumes

Autores: Alan Moore (roteiro) e Eddie Campbell (arte).

Preço: R$ 42,00

Número de páginas: 192

Data de lançamento: 2000

Sinopse: 1888. Outono. Londres. Prostitutas são abatidas e evisceradas pelo primeiro serial killer da História, a quem a Imprensa apelidou de "Jack, o Estripador".

Positivo/Negativo: Por favor, acomode-se firmemente. Vamos entrar agora na Inglaterra Vitoriana, porção paradoxal da existência, escolhida por Jack e Alan para cenário de complexos artifícios.

Do Inferno. Drama em 16 capítulos. Quatro volumes. Quase 600 páginas ao todo. Cem só de anotações referentes (os ditos "apêndices"). Preto-e-branco em fabulosos "garranchos gráficos" do mui gentil sr. Campbell, imiscuindo-se à significativa complexidade da trama tecida por nosso hirsuto Cavalheiro do Caos, Sir Alan Moore.

Agora...

Se fizer a fineza de olhar pela janela do coche, à sua esquerda, será arrebatado pelo magnetismo arcano das edificações monumentais de West End, onde o Sol de Deus fez sua morada e ilustres súditos da viúva Vitória reúnem-se em salões secretos para o xadrez político.

Com sorte, pode-se vislumbrar algum proeminente membro da Corte. É uma época interessante esta, para todas as artes, mesmo as secretas. Eis a capital do mundo civilizado, onde o dia nunca cessa, onde não há crepúsculos.

Rogo-lhe, portanto, que guarde consigo esse esplendor e ignore os deprimentes rabiscos sociais à sua direita, como se ignora um insistente comichão à mesa durante um jantar importante. Há belezas em Londres que ofuscam, por certo, essas tristes habitações a que os refugos do excelso Império Britânico vêm para um trago ou cama desfeita.

Este lugar é East End. As senhoras mais fervorosas devem ser avisadas de que passamos agora por um dos maiores bairros judeus do mundo. Ali adiante está o lugar a que chamam "Travessa do Gamo", onde foi encontrado o corpo de Polly Nicholls, a primeira vítima do famigerado "estripador".

O primeiro volume da magnífica obra de Moore e Campbell relata os acontecimentos que culminaram nessa primeira morte, quando um cidadão de aura solar avançou contra súditas da lua, para humilhá-la.

Constitui-se de um curioso prólogo (em que o leitor fica a par de uma conversa futura do Inspetor Abberline - responsável por descobrir a identidade do assassino em série - e o sensitivo preferido da Rainha Vitória, que se confessa um charlatão, apesar de todas as suas previsões terem sido acertadas), além de cinco capítulos, de tamanhos diversos.

Nas aproximadamente 160 páginas de quadrinhos desta edição o leitor é guiado ao interior de uma surpreendente teoria do senhor Moore acerca dos acontecimentos daquele fatídico ano. É, sem dúvida, uma das mais elaboradas (e plausíveis) teorias conspiratórias já sugeridas por alguém.

Depois de estudar com bastante afinco diversos livros referentes aos crimes e à época (o que faz de Do Inferno, segundo os acadêmicos ingleses, a mais conceituada das publicações sobre Jack, a despeito de se tratar de uma obra ficcional - e em quadrinhos, ainda mais), Alan Moore formulou os princípios que o levariam a essa primorosa reconstituição. De acordo com o autor, os eventos que culminaram no terrível incidente daquele outono envolvem tanto questões políticas quanto de natureza ocultista.

A existência de uma criança bastarda, filha do Príncipe Eddie (neto de Vitória) com uma plebéia com a qual se casara em segredo, muito amiga de uma das futuras vítimas do "estripador", acarreta em uma chantagem impertinente que sentencia as mulheres que a organizaram à morte nas mãos de uma confiável figura do Império, indicada para esse fim pela Maçonaria (instituição da qual a própria rainha faz parte). Mas acontece que essa curiosa criatura acredita estar imbuída de uma missão ainda maior, de caráter divino.

Como lhe é peculiar, Alan Moore deixa a trama ainda mais complexa, de tal forma que parte de diversos pontos de vista e princípios em voga, como o do folheto O que é a Quarta Dimensão?, mesclando a arquitetura neopagã de Hawskmoor aos proféticos versos do excepcional William Blake, valendo-se ainda duma atribuída semelhança de John Merrick (o Homem Elefante) à divindade hindu Ganesha, além de inúmeras questões da época, para formar um quadro magnânimo e perturbador da vida londrina em todas as dimensões, da mais óbvia à mais oculta.

Seu trabalho com detalhes é assombroso. Desde o uso de uvas com láudano para dopar as vítimas ao gênero de instrumentos cortantes usados por Jack, nada escapa à percepção do autor.

São cinco capítulos formidáveis (sem contar o prólogo). O quarto, porém, excede todas as expectativas. O próprio estripador dá uma inesquecível e atordoante lição de ocultismo, por meio das obras do arquiteto Hawskmoor, do poeta William Blake, das mitologias clássicas, da Bíblia, além de alguns tratados à parte e da disposição única de pontos especiais de Londres, formando linhas de força em forma de pentagrama. Prato cheio para almas suscetíveis.

A arte de Eddie Campbell traz uma força e uma tal profundidade que é impossível conceber Do Inferno feito por outra pessoa. É um tracejado por vezes confuso (a uma leitura superficial, como o é o texto), em que mais se oculta que se mostra, em que abismos são formados em locais inusitados, em que os traços vão ficando cada vez mais simples até reduzir toda a dramaticidade a meras linhas, abstraindo, abstraindo, abstraindo, como que despindo, desnudando a essência, das grossas camadas cosméticas das lúdicas relações cotidianas, até atingir, quiçá, uma verdade primordial, a reduzir emaranhados de gestos a mínimos padrões formais... ao ponto, à linha, à mancha... a além das conjecturas.

É um trabalho de descoberta, condizente tanto com o texto de seu sócio quanto com o espírito da época, quando os artistas começavam a conceber o abstracionismo, que viria a ser a cara do século XX nas artes plásticas (que culminaria em Pollock, o artista de seu século - verdadeiro Jackson, filho de Jack). Não é só o "estripador" de Alan Moore que pare o século XX, mas também a Londres de Eddie Campbell.

As quase 30 páginas de apêndice deste primeiro volume trazem inúmeras considerações de Moore sobre os incomensuráveis detalhes de sua obra. Interminavelmente fabulosas, suas anotações não só apresentam os livros estudados e os temas abordados como os discutem, provocando no leitor ao menos uma leve curiosidade, que pode vir a formar, quem sabe, um desejo de se aprofundar.

Sem esses textos, a leitura de Do Inferno, por certo, seria bem superficial para todos aqueles que não são experts em Inglaterra Vitoriana, como nosso caro amigo britânico.

A edição da Via Lettera está primorosa. O preço não deve agradar a maioria (até aí tudo bem, porque o conteúdo também não). No entanto, em algumas lojas, aparentemente, ganharão bons descontos os que questionarem "Ninguém ajudará o filho da viúva?". Quer saber por quê?

Então, aguarde as próximas resenhas, quando se descerá ainda mais fundo nesta obra, rumo às profundas trilhas da alma, aos becos londrinos onde prostitutas ludibriam clientes brutos. Mais fundo no Inferno de Jack, Eddie e Alan.

Classificação: - Diego Calazans

 

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