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Título:
TRAÇO DE GIZ (Meribérica/Liber) - Edição especial
Autores: Miguelanxo Prado (texto e arte).
Preço: R$ 33,39
Número de páginas: 64
Data de lançamento: Janeiro de 1993 e Janeiro de 2001 (segunda
impressão)
Sinopse: Depois de dois dias de tempestade, Raul consegue conduzir
seu barco a uma ilhota perdida no meio do oceano, onde só há um velho
farol que não funciona, um longo pontão, uma estalagem sem clientes e
um muro branco no qual os visitantes deixam mensagens e recados estranhos.
Lá, só havia mais um barco, o da calada e misteriosa Ana, que logo o fascina.
Mas a mulher lhe conta que está na ilha à espera de um homem.
Enquanto tenta conquistá-la, gaivotas começam a aparecer mortas pela ilha
com uma espécie de seta atravessada no pescoço, o que leva Raul a desconfiar
do estranho Dimas, filho de Sara, a dona da estalagem.
E o mistério aumenta quando um terceiro barco chega à ilha e Sara afirma
que sempre que mais de duas embarcações ali aportam acontece confusão.
Positivo/Negativo: É uma pena que poucos brasileiros conheçam a
obra do espanhol Miguelanxo Prado. Dono de um traço leve e de uma narrativa
precisa, ele produziu alguns dos melhores álbuns de quadrinhos europeus
da década de 1990. E Traço de Giz, sem dúvida, está entre eles.
Na história, Prado conduz o leitor por um roteiro lento, como se embalado
pela calmaria do mar após a chegada de Raul à ilhota perdida no meio do
mar. Há diálogos que, numa primeira leitura, parecerão completamente sem
propósito, mas que, no final, servirão como chave para os mistérios da
trama.
Se no início a história parece um relato das diversas tentativas frustradas
de Raul em se aproximar de Ana, quando o terceiro barco chega à ilha,
toma um rumo totalmente inesperado.
Depois de os dois tripulantes desse barco, Tato e Berto, serem enxotados
por Ana (adivinhe o que queriam!) e de darem uns sopapos em Raul, eles
atacam Sara na praia, servindo-se de seu corpo como bem entendem.
No dia seguinte, Raul encontra sangue nas pedras e pensa ser de mais uma
das gaivotas. À noite, depois de levar um novo fora de Ana, resolve afogar
as mágoas "enchendo a cara" e, bêbado, acaba levando Sara para seu barco.
E ela lhe conta que seu filho matou os dois homens.
Como tragédia pouca é bobagem, nesse ínterim, Ana chega à conclusão de
que estava sendo tola em fugir do assédio de Raul. Assim, decide pegar
um bom vinho e ir ao barco dele, onde pega os dois, literalmente, no ato!
Ana foge em disparada e Raul, enraivecido e incapaz de encarar a mulher
por quem realmente estava apaixonado, enxota Sara do barco e vai embora
da ilha.
No entanto, Raul se arrepende e decide retornar, pelas suas contas, dois
dias após ter partido. Mas já havia se passado uma semana. Ana havia ido
embora e Sara e Dimas pareciam não o conhecer. Pior: os dois homens supostamente
mortos passeavam pelo lugar na companhia de belas garotas!
Achando que fez papel de idiota, ele resolve seguir viagem novamente,
mas antes deixa um recado no muro do pontão. E é aí que se encontra a
chave para o mistério de Traço de Giz.
Na verdade (e sem entregar o desfecho), a obra lida de um jeito bastante
peculiar com o tema viagem no tempo. Por isso, leitores menos atentos
passarão despercebidos por detalhes que Prado coloca no roteiro e na belíssima
arte.
Quando foi entrevistado
pelo Universo HQ, em 2001, Miguelanxo Prado deu a seguinte declaração,
quando indagado sobre a obra: "Tem gente que me diz que gostou muito de
Traço de Giz, mas que não entendeu bem, achou um pouco esquisito.
Uma vez, eu estava dando autógrafos em um festival, e uma mulher que estava
há duas horas na fila chegou até mim e começou a falar que leu umas dez
vezes, e que achava ter finalmente entendido. Aí, tirou um caderno do
bolso, no qual fez várias anotações! Fez tabelas cronológicas de como
as coisas poderiam ter acontecido! Tinha rabiscos etc. Explicou a história
toda, e aí falei que ela entendeu bem (risos)!"
Fazendo uma comparação com a sétima arte, quem lê Traço de Giz
se sente como o espectador que estava no cinema assistindo a O Sexto
Sentido, estrelado por Bruce Willis e o então garoto Haley Joel Osment,
no momento em que é feita a "revelação". A primeira reação é tentar rememorar
os fatos passados.
E, nesse ponto, os leitores de quadrinhos levam vantagem. Afinal, como
se estivessem operando um DVD ou um videocassete, basta voltar páginas
e páginas para (tentar) compreender a genial sacada de Miguelanxo Prado.
Quem não fizer isso, corre o risco de "ficar boiando" em volta da ilha
que, vista do alto, se parece com um Traço de Giz. Eis um roteiro
que merecia ser filmado.
Classificação:    
- Sidney Gusman
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