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Raios e trovões! Os bons e velhos quadrinhos de western

Nem o sol escaldante das áridas pradarias ou as constantes crises do mercado brasileiro de HQs consegue abalar esses bravos e resistentes gibis

Por Marcus Ramone (08/09/2004)

Almanaque do Bufalo BillWestern, faroeste, bangue-bangue ou cowboy. Qualquer que seja a denominação, o tema vem exercendo fascínio em milhões de pessoas há pelo menos um século, quando a primeira produção cinematográfica do gênero proliferou uma paixão que se estendeu para outras áreas como televisão, rádio, livros e revistas em quadrinhos.

O cinema consagrou e popularizou o Velho Oeste norte-americano, tornando-o histórica e geograficamente um patrimônio do mundo. Mas os quadrinhos também ajudaram a eternizar os míticos duelos entre pistoleiros, as batalhas envolvendo índios e colonos, e as típicas pradarias e os áridos cenários onde esses rudes homens e mulheres protagonizaram um dos períodos mais fascinantes da História.

E são exatamente as HQs que, atualmente, mantêm acesa a chama do Oeste bravio. Os áureos tempos das grandes produções de cinema de western estão longe, mas personagens de quadrinhos como o ranger Tex Willer e o tenente Blueberry são publicados há décadas (em alguns casos de forma ininterrupta) no mundo inteiro.

As primeiras cavalgadas

Hopalong CassidyAs incursões iniciais do western nos quadrinhos datam do final da década de 1920 ao início dos anos 30, primeiro em tiras de jornal, se espalhando pelo mundo a partir dos anos 40. Personagens como Bufallo Bill, de Harry O'Neil; Rei da Polícia Montada, com os desenhos de Allen Dean; e Red Ryder (conhecido no Brasil como Nevada), de Fred Harman, já faziam muito sucesso entre os leitores nesse período.

Um fato curioso a respeito de Red Ryder, é que ele surgiu como Bronc Peeler (Bronco Piler, no Brasil), e de uma hora para outra mudou de visual e de nome, sem explicações aos leitores.

Dessa época, mais precisamente de 1932, destaca-se um nome ainda célebre nos dias de hoje, o Cavaleiro Solitário (Lone Ranger), criação de George Trendle e Fran Striker para um programa de rádio, e que só depois seguiu para o cinema e tiras de jornais (seu principal desenhista foi Charles Flanders), chegando aos gibis (a maior parte das histórias tinha o traço de Frank Bolle, e as artes pintadas das capas eram obras do ilustrador George Wilson).

Rex AllenNo Brasil, o herói mascarado teve a infelicidade de ver seu nome "traduzido" para Zorro, o que durante muito tempo causou confusão quanto ao outro, o de capa e espada, criado por Johnston McCulley, que por aqui foi publicado em título próprio pela Ebal, e em histórias avulsas pela Editora Abril (anos 70), desenhado por nomes de peso do quadrinho brasileiro como Franco de Rosa e Rodolfo Zalla.

Por muitos anos, Lone Ranger teve suas aventuras publicadas pela saudosa Ebal, e sua última série se encerrou em meados dos anos 70. O cowboy e seu fiel amigo índio, Tonto, foram revividos na década de 1980 por meio de um desenho animado, no qual podiam ser vistos os tradicionais fins de episódio com o protagonista empinando seu cavalo e proferindo o famoso bordão "Hi Yo, Silver!".

Por sorte, a dublagem brasileira tratou de corrigir o nome do herói, que finalmente passou a ser conhecido pelo mais apropriado Cavaleiro Solitário. Houve uma outra série de desenhos, considerada por muitos como superior à dos anos 80, que chegou a ser exibida pela finada TV Tupi na década de 1960.

Black DiamondDos anos 30 aos 50, não havia personagens de filmes de faroeste que não migrassem para os gibis. Fossem séries de cinema ou de TV, até os atores viravam heróis. Roy Rogers (com a arte de John Buscema em início de carreira), Hopalong Cassidy, Gene Autry, Rex Allen, Bill Elliot, Johnny Mac Brown, Rocky Lane (desenhado pela primeira vez no Brasil por Primaggio Mantovi, na década de 1960), Durango Kid, Buck Jones, Annie Oakley, Tom Mix e até o cachorro Rintintin, todos inundavam as tiras de jornais ou revistas em quadrinhos.

John Wayne, o maior ícone desse gênero cinematográfico, não escapou da onda e estrelou sua própria HQ na década de 1940.

Mas alguns personagens faziam o caminho inverso. Cisco Kid, por exemplo, surgiu na literatura, virou filme em 1929 (No velho Arizona, o primeiro western sonoro da história do cinema), e somente 20 anos depois passou para as tiras de jornal - com textos do americano Rod Red e desenhos do argentino José Luís Salinas. Não tardou a chegar aos gibis. Os mascarados eram comuns nos gibis de western dos anos 40 e 50, certamente seguindo a esteira dos super-heróis da Timely Comics (atual Marvel) e DC Comics. Cavaleiro Fantasma, Black Diamond e Fantasma Vingador marcaram a época dos cowboys que escondiam seus rostos.

Annie OakleyO Cavaleiro Negro (Black Rider no original, que nos anos 50 foi desenhado por Sid Shores, um artista que influenciou os traços de Jack Kirby e John Buscema), foi um dos que alcançou mais sucesso no Brasil, estreando em 1949 na revista Gibi Mensal (da RGE) e ganhando, depois, um título próprio que atingiu a impressionante marca de mais de 200 edições lançadas.

E vale registrar uma curiosidade: quando a Marvel cancelou a revista Black Rider nos Estados Unidos, a RGE não quis descontinuar o título por aqui, já que ele vendia muito bem. A solução encontrada foi pegar as histórias do cowboy Gringo (publicado na Espanha) e transformar o personagem no Cavaleiro Negro. A adaptação dos textos era feita por Primaggio Mantovi, e Walmir Amaral de Oliveira refazia os desenhos. Em 1985, o Cavaleiro Negro teve sua primeira edição relançada na série Gibi de Ouro - Os clássicos dos quadrinhos, ainda pela RGE.

Mas havia outros personagens de faroeste na "Casa das Idéias". Foram lançados, em 1948, os gibis de Two-Gun Kid e do incompreendido Kid Colt - que ainda detém o título de HQ de western mais duradoura dos Estados Unidos: 31 anos e 229 edições, cujo fim se deu em 1979. Apesar do subtítulo na capa adjetivando-o de fora-da-lei, o personagem era um mocinho que, injustamente, fora acusado de assassinato e vivia perseguido por xerifes e caçadores de recompensa.

Rawhide KidPouco depois, em 1955, surgiu Rawhide Kid (conhecido no Brasil como Billy Blue), que entre idas e vindas, teve a revista cancelada em 1978. Retornou em 2003 por meio do selo Max (divisão adulta da Marvel) com uma nova e polêmica temática: revelou-se que ele era homossexual.

Os dois heróis ficaram mais conhecidos no Brasil durante os anos 70, quando suas aventuras eram publicadas pela RGE.

Outros cowboys da Marvel surgiram no começo dos anos 70, como Kid Cassidy, Reno Jones e Outlaw Kid, que invadiam as páginas das revistas Blaze of Glory, The Gunhawks, Western Gunfighters, entre outras.

A DC também investiu pesado nos quadrinhos de faroeste. Jonah Hex, o deformado ex-oficial do exército que se tornou mercenário, foi criado por John Albano e Tony De Zuñiga. Apareceu pela primeira vez na revista All-Star Western # 10, em 1972, e no título próprio seguiu até 1985.

No Brasil, foi apresentado pela Ebal, no gibi Reis do Faroeste, e pouco tempo depois estreou em uma revista própria que durou até o ano de 1984.

Hoje, os quadrinhos de cowboys tradicionais estão em baixa nos Estados Unidos. Um desses últimos à moda antiga, The New Adventures of Rick O´Shay and Hipshot, saiu em 1992, com histórias inéditas dos cowboys criados por Stan Lynde nos anos 50.

LatigoLatigo, concebido em 1977 pelo mesmo autor, teve suas tiras de jornal publicadas até 1983, compiladas depois em edições de luxo encadernadas. Também dele é a série Pardners, que apresentou as graphic novels The Bonding e The Legacy.

Outro álbum de luxo, Rio, escrito e desenhado por Doug Wildey, lançado no final dos anos 80, foi publicado no Brasil pela Editora Globo em 1990.

Entretanto, a AC Comics tem sido uma rara exceção entre as editoras americanas, ainda apostando no faroeste. Fundada em 1982, desde então republicou clássicos da Dell Comics e da Magazine Enterprises dos anos 40 e 50, nos títulos Durango Kid, Great American Western, Hopalong Cassidy, Presto Kid (uma espécie de Mandrake cowboy), Jesse James, Lash LaRue Western, Red Mask, Rocky Lane, Tim Holt, Tom Mix, Western Movie Heroes, Wild Bill Pecos, Young Gun, Bob Steele, Black Phantom (heroína que parece ter inspirado a Gata Negra da Marvel),TV Western, Lemonade Kid, The Hand of Zorro, Blazing Western, Bobby Benson's B-Bar-B Riders (um faroeste mais moderno), e o paranormal Latigo Kid (nada a ver com o Latigo de Stan Lynde).

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