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Heróis de verdade
Figuras
como Daniel Boone, Davy Crockett, Jim Bowie, Kit Carson, "Wild" Bill Hickok
e Bufallo Bill, célebres personalidades do Velho Oeste real, sempre estiveram
presentes nas HQs norte-americanas, principalmente nos primórdios desse
estilo.
Muitas vezes imbuídos do mito de heróis perfeitos, íntegros e leais, ganhavam
um renome bem maior do que seus verdadeiros feitos os legaram. E não só
nos Estados Unidos, onde o culto a esses heróis é mais ferrenho. Pois
até na Espanha, Texas Jack (vertido por lá para os quadrinhos) foi um
desses "deuses".
O argumentista e desenhista italiano Rino Albertarelli, após uma profunda
e extensa pesquisa, concebeu uma das melhores séries de quadrinhos de
cowboy de todos os tempos: a coleção I Protagonisti, que
desmistificou muitos desses personagens históricos. Tais como Wyatt Earp,
protagonista do famoso massacre do O.K. Corral, um dos episódios mais
sangrentos da história do Velho Oeste. Na edição dedicada ao xerife, ele
é retratado como um homem covarde e viciado em álcool.
A série estreou em 1974 na Itália, no mesmo ano em que o autor faleceu,
deixando prontas apenas dez edições de uma lista que, pretendia -se, seria
muito maior.
No
Brasil, a coleção recebeu o nome de Personagens do Oeste. Foram
publicados somente cinco números, pela Ebal, em edições de luxo,
entre os anos de 1975 e 1977: Billy, the Kid, George A. Custer, Gerônimo,
Wyatt Earp e Touro Sentado.
Poucos anos antes, outra série ganhou destaque internacional e levou seu
autor, Gino D'Antonio, ao panteão dos grandes nomes das histórias em quadrinhos.
Tratava-se de Storia del West, nada mais, nada menos que uma saga
em 73 edições (ampliadas em mais duas, anos depois) que contava toda a
trajetória das famílias MacDonald e Adams no Oeste bravio, desde os tempos
dos pioneiros.
Havia uma interessante cronologia nas histórias, na qual personagens nasciam,
envelheciam e morriam, e, de forma constante, contracenavam com nomes
históricos como Calamity Jane, Manuel Lisa, Jim Bridger, Bufallo Bill,
Cochise, Cavalo Louco, Victorio e muitos outros.
A Ebal trouxe para o Brasil todas a edições, a partir de 1970,
com o título Epopéia Tri. Em 1991, foi a vez da Record reeditar
o material (apenas 46 números), mudando o nome para a tradução literal
A História do Oeste.
Western tupiniquim
O
Brasil, como grande consumidor de HQs de faroeste nos anos 40, 50 e 60,
também não poderia ficar de fora quando o assunto era produção nacional.
Por aqui eram feitos títulos como Máscara de Prata, Gerônimo (o
histórico índio norte-americano), Jim Bowie e muitos outros. Mas
muitos desses personagens eram crias de outras searas, apresentadas aqui
por intermédio dos traços de artistas brasileiros.
Entretanto, havia também criações inteiramente nacionais, como o mais
famoso de todos: Chet, de Wilde e Watson Portela. Claramente uma
versão de Tex, ele possuía a mesma personalidade do célebre ranger,
diferindo em poucos pontos, como o fato de ser um incorrigível mulherengo
(e em suas histórias apareciam, comumente, mulheres nuas).
A revista conseguiu se segurar por 22 números, todos publicados pela Vecchi,
de 1980 a 1982.
Outros
surgiram, sem o mesmo sucesso. Foi o caso de Johnny Pecos, criação
de Rodolfo Zalla. A revista marcou a estréia da D-Art, editora
do autor, mas só teve quatro edições.
Até mesmo Beto Carrero, o empresário "cowboy" que hoje possui
um dos maiores parques temáticos da América Latina, já foi personagem
de quadrinhos em meados da década de 80, com desenhos do mestre Eugênio
Colonnese. Foi outro fracasso editorial.
Pistoleiro do Texas veio bem depois. Com os excelentes desenhos
de grandes artistas, como Colonnese e Mozart Couto, a revista pecou pelos
roteiros fraquíssimos (chegou até a copiar algumas cenas de Jonah Hex)
e não durou muito.
Mesmo não tendo como cenário o Velho Oeste norte-americano, alguns quadrinhos
brasileiros apresentavam um "faroeste caboclo" que, em muitos pontos,
se assemelhavam ao "original". Cangaceiros contra a volante (polícia),
vaqueiros contra ladrões de gado, e como pano de fundo a Caatinga.
Muitos
autores se valeram desse conceito tão cheio de possibilidades, e produziram
inesquecíveis trabalhos, até mesmo flertando com o gênero terror. O mais
recente, lançado este ano, é Sertão
Vermelho - Lampião em quadrinhos, produção independente do roteirista
Haroldo Magno e do desenhista Edvan Bezerra.
O tema é tão fascinante que artistas de outros países têm aproveitado.
É o caso do belga Hermann, que escreveu e desenhou o belo álbum Caatinga,
lançado no Brasil pela Globo, em 1998.
O maior nome do "western brasileiro", entretanto, foi Jerônimo,
o Herói do Sertão. Primeiro como personagens de radionovela, ele e
seu ajudante, Moleque Saci, migraram para os quadrinhos em 1957, pela
RGE, com textos de Moysés Weltman e desenhos de Edmundo Rodrigues.
Repletas de bangue-bangue, raptos de mocinhas indefesas e capturas de
vilões ignóbeis, as histórias poderiam muito bem ser vertidas para o Velho
Oeste americano.
Talvez
por essa identificação do público com situações típicas do faroeste tradicional,
aliada aos cenários genuinamente brasileiros nos desenhos, a revista tenha
tido uma longevidade de quase 10 anos.
Outros dois cowboys nacionais deixaram sua marca na década de 60:
Colorado, desenhado pelo argentino José Delbo; e Vingador,
um herói mascarado que teve em sua fileira de desenhistas o italiano Nico
Rosso.
Mas um caso pitoresco aconteceu há poucos anos, quando a Editora Press
lançou a série Histórias do Oeste em quadrinhos, em dois volumes
escritos e desenhados por Wilson Fernandes. Tratava-se de um plágio descarado
de Tex, não só no visual do personagem principal, mas no fato de
que as duas aventuras eram claramente uma cópia (nos textos e até em algumas
seqüências dos quadros) da história Caçada humana, publicada em
Tex # 68 (Vecchi, 1976).
Faroeste Horror
A parceria entre o terror e o faroeste vem de muito tempo. E, hoje, essa
parece ser a "especialidade" dos americanos, posto que o western
tradicional praticamente sumiu do mapa na terra do Tio Sam.
Mas,
mesmo em aventuras de faroeste clássico como as de Tex, por vezes,
também aparecem seres das trevas ou entidades fantasmagóricas. Nas de
Zagor, então, são ainda mais recorrentes, como na fase que percorreu
quase todas as edições do título do personagem, no Brasil, nos anos de
2002 e 2003.
Em 1950, o sobrenatural Ghost Rider (que é xará do Motoqueiro Fantasma,
cujo nome em inglês é o mesmo) começou a assombrar os vilões do Velho
Oeste. No ano 2000 o personagem ganhou, pela AC Comics, uma edição
especial em comemoração aos seus 50 anos, mudando a alcunha para Haunted
Horseman.
Já em meados dos anos 70, a Editora Edrel lançou Pistoleiros
do Além, que contava com histórias de assombração no Velho Oeste,
produzidas por artistas da categoria de Rodolfo Zalla, Pilo Mayo, Al Brent,
entre outros.
O tradicional cowboy da DC, Jonah Hex, sofreu há
poucos anos uma reformulação radical. Agora contracena com cadáveres,
zumbis e outras aberrações. Adquiriu um humor ácido e negro, e, pudera,
está bem mais assustador.
A
nova encarnação do personagem apareceu pela primeira vez no Brasil na
extinta Vertigo, da Abril, em meados dos anos 90. A última,
em 2003, pela Opera Graphica, no especial Oeste Sombrio.
O flagelo Santo dos Assassinos, um dos maiores expoentes dessa
mescla de tiros e assombrações, estreou no Brasil na minissérie que levava
seu nome, em 1997, pela Abril. O demônio em questão era um pistoleiro
sem a mínima compaixão que, descendo ao Inferno, não temeu nem o próprio
Senhor das Trevas.
Ainda pela Vertigo, agora na Opera Graphica, têm surgido
belos exemplos de faroeste horror nos últimos anos, como as histórias
extraídas de Weird Western Tales, e edições especiais como El
Diablo.
Mas em qualidade de roteiro, desenhos e narrativas visuais, é preciso
atentar para o verdadeiro espetáculo em forma de quadrinhos chamado Mágico
Vento.
Criação de Gianfranco Manfredi para a Bonelli Comics, Mágico
Vento é um grande sucesso na Itália desde 1996, quando foi lançada
a primeira edição de sua revista.
Mostrando as desventuras de Ned Ellis e seu amigo Willy Richards (vulgo
Poe), as histórias do xamã branco sioux são repletas de citações a lendas
indígenas, abordando fantasmas, monstros míticos e visões do além-vida.
No Brasil, tem alcançado o mesmo sucesso, publicado pela Mythos
desde 2002. Independente do estilo a que se proponha, é uma leitura das
mais recomendadas na atualidade.
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