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Um olhar brasileiro sobre Angoulême
De 26 a 29 de janeiro aconteceu o 32º Festival de Angoulême, o mais tradicional evento de quadrinhos do planeta, que reuniu artistas de diversas nacionalidades
Por Caio Cesar Christiano, de Angoulême
Angoulême é a principal cidade da região de Charente, no sudoeste da França. Suas ruas estreitas (algumas que não foram feitas para carros), os muros que datam ainda da Idade Média e a expressiva e enorme catedral que figura em quase todos seus cartões postais dão a sensação de que se respira história por aqui. Não se trata de uma metrópole, mas sim de um local habitualmente calmo.
Mas há mais de três décadas algo colocou a cidade no mapa, e fez com que ela se tornasse mais do que um típico lugar da Europa, ao menos para os fãs de quadrinhos. O causador dessa mudança foi o famoso Festival de Angoulême, que faz as pessoas respirarem Bande Dessinée, ou simplesmente BD.
E durante os quatro dias - 26 a 29 de janeiro - do Festival deste ano, o 32º (cujos vencedores você confere aqui), a calmaria habitual da cidade deu lugar a uma multidão de fãs ou meros curiosos, que se acotovelavam para visitar as numerosas atrações. Havia pessoas de todos os lugares da Europa (russos, espanhóis, italianos, belgas) e até do Japão.
A maioria, evidente, era de franceses que também se deslocaram - Paris fica a duas horas de trem de Angoulême - exclusivamente para conferir o evento.
Mas não é somente durante o festival que os quadrinhos marcam presença na cidade. A BD parece ser agora uma parte indissociável de Angoulême, como se a alma do lugar tivesse sido tocada de uma forma irreversível por Richard Outcault, Alex Raymond, Hal Foster, Hergé, Hugo Pratt, Shawn McManus, Will Eisner e todas as outras entidades sagradas da arte seqüencial.
As placas de todas as ruas, por exemplo, tem o formato de um balão, o símbolo máximo da nona arte. Há uma rua Hergé, com uma estátua de George Remis (o verdadeiro nome do "pai" de Tintim), bem no centro da cidade.
Andando um pouco mais, encontra-se uma estátua de Corto Maltese (cuja inauguração foi noticiada pelo UHQ em 2003). O hoje já famoso Museu das Historias em Quadrinhos também está situado na cidade.
As vitrines de todas as lojas são decoradas com bonecos ou bibelôs de personagens bastante familiares, como os cachorros Milú, Idéiafix e Ran-Tan-Plan. Não são modelos famosas nem artistas de cinema que se vê nos outdoors da cidade. Em seu lugar, estão lá Titeuf e Cedric, representantes da nova geração da banda desenhada francesa, que parece nunca parar de se renovar. "Aqui há muitos álbuns, porque há muitos desenhistas; e muitos desenhistas, porque há muitos álbuns" explica Georges Wolinski, laureado do Grande Prêmio da Cidade de Angoulême 2005 e já nomeado presidente da próxima edição.
Já é notório o respeito com que se trata as BDs na cidade. A revista L'Express, um dos principais semanários franceses, publicou uma lista dos álbuns mais vendidas do ano, que era maior que o rol dos livros e filmes. O mercado é efervescente e, mesmo assim, oferece espaço para crescimento.
Pelo nono ano consecutivo, as vendas de quadrinhos aumentaram na França. Nas livrarias, além dos tradicionais álbuns europeus (centenas deles, diga-se de passagem) , os heróis americanos da Marvel e DC, publicados pela Panini, também têm seu espaço garantido, assim como os mangás, que parecem maravilhar leitores com seus traços rápidos e olhos grandes.
Vale frisar que o festival começa a ser preparado com bastante antecedência. As muitas ruas interditadas, os gigantescos estandes sendo erguidos e os cartazes espalhados por todos os cantos anunciavam que a principal atração de Angoulême, e provavelmente a que traz mais lucros também, estava prestes a se iniciar.
Uma greve do transporte público ameaçou atrapalhar a festa dos bedéfilos, mas no final tudo acabou bem. Nem o clima frio (na sexta-feira, dia 28, chegou a nevar) foi suficiente para esfriar o evento.
Houve dez exposições diferentes, dedicadas aos mais diversos gêneros, autores e estilos. Foram elas: Zep, Dave Cooper, Hugo Pratt, Claire Wendling, Tio Patinhas (que em francês recebe o curioso nome de Balthazar Picsou), Origens dos Quadrinhos, Mix e Remix, Blake e Mortimer, David Proudhomme e Quadrinhos da África.
Zep, criador de Titeuf, agraciado com o prêmio do ano passado e conseqüentemente presidente da edição deste ano trouxe uma grande novidade, O Concerto de Desenhos, em que uma BD era criada ao vivo por um grupo de artistas, enquanto uma música era tocada para vibração da platéia que compareceu ao Espaço Franquin (mais um lugar dedicado a um criador de quadrinhos). O delírio todo, aliás, era inspirado no personagem que mais sonhou nos quadrinhos, Little Nemo.
Nesse mesmo local, durante todos os dias, o público teve a chance de conversar com algumas das maiores celebridades dos quadrinhos atuais. Estiveram lá, entre outros, Eddie Campbell, Giorgio Cavazzano Jason, David Lloyd, Milo Manara, Art Spiegelman, Yoshihiro Tatsumi e, o mais festejado de todos, Georges Wolinski, que até então era considerado um injustiçado do festival, uma espécie de Steven Spielberg pré-Lista de Schindler. Ou seja, alguém que merecia o prêmio, mas ainda não havia sido lembrado pela "Academia".
Já nos estandes, onde estavam presentes todas as grandes editoras do mundo, podia-se ter uma idéia do tamanho do mercado francês. As pessoas compravam os álbuns (que custavam em média 15 euros) freneticamente, e via-se filas para um autógrafo na contracapa dos álbuns se formando a cada dez metros.
Algumas editoras como a Casterman e a Humanóides tinham seis ou sete autores autografando ao mesmo tempo. E a grande maioria não apenas se limitava a rabiscar o próprio nome; eles desenhavam algo a pedido de seus leitores, uma grande prova de respeito a seu público.
"Muitos artistas quando começam a ficar um pouco mais famosos e ganhar um pouco de dinheiro param de fazer os sketches. Eles dizem que é muito chato. Cara, nos estamos no ramo do quadrinhos, e essas pessoas são nossas fãs. Será que algum desses artistas já teve um trabalho de verdade, pra saber o que e um dia chato?", indagou Sal Abinetti, que além de artista é agente do norte-americano Alex Ross. Aliás, havia um estande da Alex Ross Art.
Um pouco à frente, um simpático senhor tentava se comunicar em francês com um fã seu. Era o inglês David Lloyd, que estava lançando um álbum exclusivamente para o mercado francês. Mais alguns passos adiante, outro parceiro de Alan Moore, este um pouco mais recente: Eddie Campbell, que autografava a contracapa de From Hell (Do Inferno no Brasil).
Os artistas estrangeiros, no entanto, parecem atrair muito mais a atenção dos fãs de outros países do que a dos franceses. Os conterrâneos de Asterix formam filas muito maiores para as (sem exagero) centenas de autores locais.
É interessante constatar que, apesar das grandes distâncias, os fãs não mudam tanto de um lugar para o outro. Em quase todas as conversas com os artistas, percebia-se pessoas carregando sob o braço uma pasta cheia de desenhos próprios, para com as mãos trêmulas mostrar para algum dos artistas presentes, em busca de qualquer palavra de aprovação e incentivo.
Os que não desenham sempre comentam que tinham alguns roteiros prontos e estavam procurando alguém para desenhá-los.
De uma forma ou de outra, todos fazem parte desta indústria e da paixão pela nona arte; e cada um, profissional ou não, é responsável pelo sonho de que exista uma Angoulême em outros lugares do mundo.
Caio Cesar Christiano é o criador do GibiBlog e procura uma forma de continuar atualizando-o com material nacional, mesmo estando tão longe de casa.
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