| |
Futebol e quadrinhos: uma caixinha de surpresas e fortes emoções
Dribles, gols e jogadas espetaculares. O mundo da bola
e o das HQs andam juntos há mais tempo do que se imagina, formando uma
eficiente dupla de ataque no campo do entretenimento
Por Marcus Ramone
Preste atenção em qualquer jogo entre Palmeiras e Cruzeiro. Duas torcidas
organizadas estarão sempre lá, ostentando suas bandeiras. A Mancha Verde
do lado dos paulistas, e a Mancha Azul pelos mineiros. Em comum, o fato
de que seus símbolos são nada mais, nada menos que o Mancha Negra, famoso
vilão dos quadrinhos Disney..
Mas no futebol as referências a HQs não se restringem ao Mancha, modificado
pela cor do time de cada torcida. É fácil ver também o Hulk, o Duende
Verde e até o Lobo da DC Comics estampados nas bandeiras das torcidas.
O que dizer, então, da folclórica e recentemente extinta "geral" do Maracanã,
na qual se encontram, comumente, torcedores fantasiados de Flash, Super-Homem,
Batman e Robin em tudo quanto é Fla-Flu?
Curioso foi o que aconteceu com o Lanterna Verde, que em 2002 esteve na
boca até de quem não curtia quadrinhos. Graças ao Palmeiras, que no Brasileirão
daquele ano amargou sua pior campanha em certames nacionais (caiu para
a segunda divisão), e por causa da cor de sua camisa e por ficar nas últimas
colocações do certame... bem, a piada estava
feita.
Mas na campanha que reconduziu o alviverde à divisão de elite, os torcedores
adotaram um novo símbolo: o "verdão" Hulk. Havia até um ator que se "transformava"
no personagem a cada partida.
Também em São Paulo, por muito tempo a torcida corintiana estendeu nos
estádios uma faixa com o desenho Batimão, tendo o defensor de Gotham City
com a camisa do clube, numa criativa junção do nome do herói com o apelido
do clube.
A relação entre futebol e quadrinhos é mais velha do que se pensa. Já
na década de 40, o argentino Lorenzo Mollas criou várias mascotes para
os times cariocas. Nessa brincadeira, o Pato Donald passou a representar
o Botafogo. Mas, antes disso, o marinheiro Popeye já posava como símbolo
do Flamengo. Somente em 1969 o cartunista Henfil criou o urubu para o
clube rubro-negro.
Em meados dos anos 80, pelas mãos de Ziraldo, popularizaram-se várias
outras mascotes, com destaque para o Super-Homem do Bahia (por muito tempo
chamado de "Tricolor de Aço") e o Saci Pererê do Internacional.
Na Paraíba, o cartunista Deodato Borges (pai de Mike Deodato, um dos melhores
desenhistas brasileiros da Marvel), bolou para o Treze de Campina
Grande uma majestosa raposa. E o Botafogo da capital João Pessoa tem como
representante o Guarda Belo, da Hanna-Barbera, embora ultimamente
a torcida prefira o cão pitbull. Já o Esporte de Patos, do interior estado,
também usa a figura do Pato Donald.
Também da Disney, o índio Havita e o papagaio Zé Carioca já foram
usados como símbolos, respectivamente, do Guarani de Campinas e do Palmeiras,
embora não sejam mais bem aceitos pelos torcedores (os palmeirenses até
adotaram o porco, há alguns anos, como a mascote "oficial").
Mas o interessante foi ver toda a turma de Patópolis entrando no clima
e vestida com uniformes de seleções de vários países. Isso aconteceu em
2002, no álbum de figurinhas Copa do Mundo Disney. O livro ilustrado
foi uma grata surpresa da Editora Abril, que há muito deixara de
lançar cromos de personagens Disney, muito comuns nas décadas de
1970 e 1980.
Para relembrar uma Seleção Brasileira que deixou saudades, vale voltar
aos meses que antecederam a Copa do Mundo da Espanha, em 1982, quando
era exibida na TV uma propaganda da Gillette que marcou época. Era um
desenho animado cujo personagem, Pacheco, um sujeito bonachão que representava
toda nossa torcida, virou símbolo do País na competição. Ele também aparecia
nos gibis, na forma de publicidade em quadrinhos.
No ano passado, no México, os jogadores do Rayados de Monterrey adotaram
uma mascote do Hulk, de pouco mais de um metro de altura, que inclusive
senta no banco de reservas em todos os jogos.
Futebol nas HQs brasileiras
O Brasil, como país do futebol, tem vários outros exemplos dessa bem-sucedida
união entre dois dos melhores entretenimentos que existem. Já em 1932,
os moleques Reco-Reco, Bolão e Azeitona, criações de Luis Sá, apareciam
batendo uma bolinha.
A Turma do Pererê, criação de Ziraldo, gostava tanto de futebol
que chegou a organizar um torneio na mata. E um inesquecível registro
dessa paixão aconteceu em 1962, meses antes de o Brasil conquistar o bicampeonato
mundial no Chile. Era uma história que mostrava um dos membros da turma
desfilando seu talento nos gramados, e sendo convocado para a seleção
que disputaria a Copa naquele ano. Tudo isso pôde ser visto no primeiro
volume da coleção Todo Pererê, que a Editora Salamandra
lançou em 2002 e cujo terceiro
número saiu em agosto de 2004.
Em 1978, o gibi Sítio do Picapau Amarelo # 13 (RGE) mostrou
outro personagem convocado para a Copa. Tia Nastácia foi convidada a fazer
parte da delegação do Brasil, para preparar deliciosos quitutes para os
jogadores.
Nossa seleção, aliás, tem um grande número de aparições nos quadrinhos,
em diferentes épocas, principalmente em lançamentos próximos a alguma
Copa do Mundo. Sócrates, Zico, Falcão, Careca, Bebeto, Romário, Taffarel,
Ronaldinho e muitos outros (que incluíam os técnicos Cláudio Coutinho,
Telê Santana e Lazzaroni) apareceram em gibis do Sítio do Picapau Amarelo,
Cebolinha, Zé Carioca e Pelezinho, em 1978, 1982,
1986, 1990 e 1994.
E só mesmo no país pentacampeão do mundo são mais do que comuns as coletâneas
especiais sobre o esporte, pinçadas de uma variedade enorme de histórias
dos mais diferentes personagens, como os da Disney (em edições
de Zé Carioca relacionadas a Copas e no Disney Especial),
Turma da Mônica (Pelezinho, também em edições alusivas aos
mundiais e na Coleção Um Tema Só: Futebol), entre outros.
Em gibis como Cebolinha, Cascão, Os Trapalhões (tanto
na Bloch quanto na Abril) e O Gordo, passando por
Menino Maluquinho, Alegria, Turma do Lambe-Lambe
e tosqueiras como Sérgio Mallandro, o futebol sempre deu um jeitinho
de pintar nas histórias produzidas aqui. Até mesmo Senninha, um
piloto de Fórmula 1, participava de peladas com sua turma.
Há outras criações tupiniquins que também amam o futebol, como Maciota,
o jogador de várzea criado por Paulo Paiva; a garotinha Mutuca, de Antônio
Cedraz (criador da Turma do Xaxado); a tira O Dia a Dia do Futebol,
de Bruno Teixeira Lomba; o cão Jarbas, que às vezes veste a camisa da
seleção ou se traja de árbitro; e o travesso Cabeça Oca, cuja roupa vermelha
e branca é uma homenagem ao Vila Nova, clube para o qual torce o criador
do personagem, o goiano Christie Queiroz.
E não se pode esquecer de Futebol e Raça, publicado pela Cedibra,
que durou apenas três edições. Com textos de Luiz Antônio Aguiar e desenhos
de Mozart Couto, as histórias tinham como protagonista um jogador aposentado.
Mesmo quando algum personagem vinha dos Estados Unidos - país conhecidamente
avesso ao futebol -, os autores brasileiros tratavam de fazê-lo apreciar
o esporte. Nas histórias da Pantera Cor-de-Rosa, Luluzinha, Bolinha ou
algumas da Hanna-Barbera produzidas aqui, era possível encontrar
pelo menos a tradicional bola de gomos pretos e brancos compondo cenários
de lojas de brinquedos ou quartos de criança. Coisa que não se via nas
aventuras importadas.
Em O grande jogo, história produzida nos estúdios da Editora
Abril e publicada na revista Pato Donald # 1252, foram reunidos
vários vilões como João Bafo-de-Onça, Dr. Estigma e Irmãos Metralha em
torno de uma disputa futebolística num presídio. O melhor ficou para o
final, quando todos organizaram uma partida de futebol de botão, uma invenção
genuinamente brasileira.
Zé Carioca, por sua vez, joga bola com muita freqüência, desde suas primeiras
histórias produzidas no Brasil. Mais ainda depois que surgiu o Vila Xurupita
F.C., criado por Ivan Saidenberg na década de 1970. O time punha em campo,
além do papagaio, os pernas-de-pau Nestor, Afonsinho, Pedrão e outros
"grossos".
Praticamente uma versão em quadrinhos do Íbis (time pernambucano que é
considerado o pior do mundo), o Vila Xurupita é o maior saco de pancadas
da história do futebol. Na única vez em que ganhou um troféu (disputado
num jogo só, contra uma equipe formada por gorilas mal-encarados, vencido
devido a um gol contra), foi obrigado a vender o prêmio para pagar os
aluguéis atrasados da sede do clube.
O time alimenta ainda uma rivalidade ferrenha com o Arranca-Toco. Os jogos
entre as duas equipes são o que se pode chamar de (com o perdão do trocadilho)
clássico dos quadrinhos.
Como todo brasileiro que se preza, o papagaio malandro é fanático por
futebol, e essa paixão foi - e continua sendo - parte marcante do gibi
do personagem. Seja em menções a clubes, jogos na calçada ou "furadas
de fila" no Maracanã, a revista sempre destacou o esporte bretão.
E numa dessas, foi concebida a melhor saga futebolística do Zé Carioca,
a divertida Zé nos States, escrita por Gérson B. Teixeira e desenhada
por Aluir Amâncio. O arco completo de histórias foi publicado na edição
número 2000 da revista do personagem, e se passava na época da Copa do
Mundo 94.
A aventura narrava a ida de Zé Carioca aos Estados Unidos para assistir
aos jogos do Brasil. É claro que, para chegar lá sem um tostão no bolso
o malandro apronta de tudo para alcançar seu intento. Uma das melhores
passagens é o encontro dele com o craque Maradona num navio de passageiros.
A rivalidade entre brasileiros e argentinos foi o mote para as mais divertidas
confusões. O jogador, claro, sofreu nas mãos do papagaio.
Não mais que um marinheiro argentino, que não resistiu e cantou Aquarela
do Brasil junto com o Zé Carioca. Acabou sendo expulso do navio pelos
próprios compatriotas, que gritavam "Traidor!" a pelos pulmões.
Para quem não teve a oportunidade de ler essa fantástica saga há dez anos,
a Editora Abril a republicou em 2004 no título quinzenal do Zé
Carioca.
Mas essa não foi a primeira vez que o papagaio assistiu in-loco aos jogos
do Brasil nas Copas. Em muitas ocasiões, ele tanto fazia que acabava integrando
a delegação nacional. Como em 1986, na revista Zé Carioca # 1775,
em que o malandro até ensina ao técnico Telê Santana um novo posicionamento
tático, baseado no famoso "carrossel holandês": a gangorra tupiniquim.
Antes disso, em 1982, ele foi com Donald e Panchito à Espanha. E em 1998,
lá estava o caloteiro na França, no especial Copa 98.
Tantas histórias ligadas ao futebol na revista do papagaio caloteiro provavelmente
não se originavam apenas do apelo comercial que o esporte possui, mas
também porque a turma da Redação Disney da Editora Abril
era adepta de uma pelada semanal nos anos 80.
Os quadrinhistas alugavam uma quadra na sede do Corpo de Bombeiros,
em São Paulo, e os jogos rendiam inspiração não só para engraçadíssimas
HQs, como para impagáveis charges sobre a Redação, nas quais um dos alvos
preferidos era o rechonchudo arte-finalista Acácio Ramos.
Até hoje o argumentista Gérson B. Teixeira (atualmente trabalhando nos
Estúdios Mauricio de Sousa) guarda esses desenhos, uma recordação
dos bons tempos da produção nacional de quadrinhos Disney.
Falando em charges, grandes nomes da área não perdem a oportunidade de
brincar um pouco com o futebol. Laerte, Glauco, Luís Fernando Veríssimo
e muitos outros têm em seu portfólio diversos trabalhos sobre o tema.
E aqui mesmo no UHQ o leitor pode se deliciar com divertidas charges
que colocam famosos personagens dos quadrinhos (Demolidor, Thor, Wolverine,
etc.) no mundo da bola, destacando-se as que antecederam a Copa de 2002.
Com relação a outro sucesso e orgulho nacional, a Turma da Mônica,
seus gibis talvez são uma das
poucas HQs nas quais os personagens torcem por um time de verdade. Não
se trata de uma história isolada em que alguém revelou seu clube do coração.
É algo já consolidado em diversas aventuras. Efetivamente, o Cascão é
fanático pelo Corinthians, o Cebolinha torce pelo Palmeiras, o Anjinho
é santista (nada mais lógico!) e por aí vai.
Há dois anos, Mauricio de Sousa anunciou que transformaria o jogador Ronaldo
(sim, ele mesmo, o Fenômeno) em mais um de seus personagens. Foi até divulgado
um desenho do craque ao lado de Mônica e Cascão. Até hoje, nada de concreto
aconteceu.
Marcelinho Carioca, o polêmico ex-atacante do Corinthians, por pouco também
não virou personagem de quadrinhos. Em 2001 ele lançou o Pé de Anjo, que
só não foi para os gibis (ou para qualquer outro lugar) porque, na época,
o jogador estava em crise com os torcedores.
Outro que não emplacou e acabou cedo foi o título Coringuinhas.
Lançado em 2003, numa parceria entre o Corinthians e a Publishouse,
o gibi tinha como atração os jogadores mirins da escolinha do clube
paulista, entre eles o craque Alvinho. A equipe criativa contava com Caco
Machado (roteiros), George Tutumi (desenhos), Roberto Souza (arte-final)
e o saudoso Hermes Tadeu (cores). Em 1998, a Editora Abril lançou
o especial de luxo Linha de ataque: Futebol Arte. Com textos dos
comentaristas esportivos Armando Nogueira, José Trajano, Marcelo Fromer
(que também era guitarrista da banda Titãs e faleceu há poucos anos) e
Casagrande, mais os desenhos de Marcelo Campos, Octavio Cariello, Rogério
Vilela e Roger Cruz, foi um dos exemplos mais significativos da junção
do futebol com a nona arte. Mas não foi nenhuma obra-prima do gênero,
é preciso dizer.
Outra produção recente sobre o tema foi lançada em 2002. Trata-se de Dez
na área, um na banheira e ninguém no gol. O álbum, publicado pela
Via Lettera, apresentou 11 histórias produzidas pelos craques dos
quadrinhos Fábio Moon,
Gabriel Bá, Allan Sieber, Custódio, Fábio Zimbres, Lélis, Leonardo, Osvaldo
Pavanelli, Emílio Damiani, Spacca, Samuel Casal, Maringoni e Caco Galhardo.
E ainda teve um prefácio do ex-jogador Tostão.
E em 2004 saiu pela Editora Bom texto, o espetacular A História
do Futebol no Brasil através do Cartum, livro organizado pela dupla
Jal e Gual que rende uma homenagem ao mais apaixonante dos esportes e
à memória do traço nacional. São 340 ilustrações de várias épocas.
Para os que não puderem adquirir nenhuma dessas edições, e que desejam
ler alguma HQ sobre futebol, a opção é acessar o site da Nona
Arte, sempre rico em quadrinhos de vários estilos. Lá se encontra
disponível para download a excelente Dia de decisão, produzida
por Arthur Ferraz, Daniel Brandão e Denilson Albano.
|
|