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Reforços estrangeiros
Em
qualquer lugar do mundo onde haja futebol e se produza HQs, pode-se testemunhar
a união de ambos. Do Chile, com o Condorito (às vezes ele aparecia de
chuteiras e com uma bola na mão, vindo de alguma pelada), à Argentina,
com o jogador Dico (o personagem, criado em 1971 pelo desenhista José
Luis Salinas, era artilheiro do Estrela F.C. e participava de aventuras
policiais fora de campo).
Ambos foram publicados no Brasil em revistas próprias, pela RGE,
respectivamente nos anos 80 e 70. O condor chileno ainda voltou às bancas
brasileiras em curta temporada, no começo da década de 1990, pela Editora
Maltese.
Até o frio e "burocrático" futebol da Alemanha tem representantes nos
quadrinhos. Kick Wilstra, criado por Henk Sprenger, era um jogador
que enfrentava bandidos nas horas vagas. O personagem fez muito sucesso
entre os alemães, na década de 1950.
E não só aqui os personagens Disney demonstram paixão pelo futebol.
Em países como Dinamarca, França e Itália, também chegados numa pelota,
é muito comum encontrar histórias do gênero.
Uma das mais memoráveis foi feita pelos italianos e publicada no Brasil
em 1986. Nela, Mickey e Pateta tentam voltar no tempo, mais precisamente
para 1970, para tirar fotografias exclusivas da final da Copa do Mundo
entre Brasil e Itália. Tudo dá errado e eles acabam indo para o futuro,
exatamente no dia e local da disputa da Copa 86. Enquanto o jogo se desenrola,
são mostradas apenas as expressões dos personagens, que ficam sabendo,
antecipadamente, quem venceu o campeonato.
A capa de Peninha # 1, lançamento da Abril em agosto de
2004, é outra prova do quanto os italianos gostam do esporte. O desenho
foi feito na Disney Itália, e mostra o pato atrapalhado ao lado
de Huguinho, Zezinho e Luisinho num campo de futebol alagado.
Curiosa foi a história O som da arena, feita nos Estados Unidos
e protagonizada por Cable, um dos muitos mutantes da Marvel Comics.
Publicada aqui na Wizard # 12 (Panini Comics, setembro de
2004), mostrou, em algumas páginas, aquilo que todo mundo lá fora já sabe:
brasileiro é apaixonado por futebol. As cenas apresentavam o herói no
Rio de Janeiro observando um garoto mutante batendo uma pelada na praia
com seus amigos e usando superpoderes para cabecear uma bola que vinha
muito alta.
Os chamados quadrinhos autorais também prestaram sua homenagem ao futebol.
Vários cartuns do argentino Mordillo (cultuado na Europa e pouco conhecido
aqui), e Os Campeões (lançado no Brasil pela Meribérica/Líber),
obra do turco Gürcan Gürsel, são dois excelentes exemplos. Donos de traços
diferentes entre si, têm em comum a paixão pelo esporte das massas e um
humor inteligente que se traduz na forma como produzem seus álbuns: gags
puras, sem nenhum balão ou recordatório, no máximo uma onomatopéia aqui
e ali.
O também argentino Sergio Más lançou, em 1998, o livro de cartuns Futbol
de Más, com a participação de alguns cartunistas brasileiros.
E um futebol futurista, com jogos violentos em verdadeiras batalhas campais,
foi mostrado, em 1987, na obra Hors Jeu, de Enki Bilal e Patrick
Cauvin.
Ainda há O mini-guia do futebol, HQ dos franceses Bruno Madaule
e Gaston. Publicado recentemente em vários países da Europa, o álbum bem
que poderia circular pelo Brasil, já que Portugal verteu a obra para nossa
língua.
De nossa pátria-mãe vem Pantera Negra Eusébio, homenagem em HQ
ao maior jogador português da história do futebol, o atacante Eusébio,
artilheiro da Copa da Inglaterra, em 1966. O álbum foi lançado em 1990
pela Meribérica, com desenhos de Eugénio Silva.
Até na terra do Sol nascente, sem nenhuma tradição futebolística (mas
que vem se interessando pela coisa há alguns anos - Zico que o diga!),
vez ou outra se produz alguma HQ com o tema.
Em 1982, surgiu o mangá Captain Tsubasa (criado por Yoichi Takahashi),
com as aventuras do jovem Oliver Tsubasa, que sonhava em ser campeão de
juniores pelo Japão. O primeiro tomo da série foi até 1989.
No ano de 1994 veio o segundo tomo, no qual o personagem jogava no São
Paulo. Isso se justificava pelo fato de o clube ter ganhado duas decisões
da Copa Intercontinental Toyota, em Tóquio, em 1992 e 1993 e gozar de
muito prestígio por lá. Nas histórias ainda apareciam outros times brasileiros,
como Flamengo e Grêmio. Recentemente, Tsubasa se transferiu para o Barcelona.
Por aqui, o personagem só deu as caras em animê. O mangá ainda é publicado
no Japão, numa nova série, com a impressionante tiragem semanal
de 1,5 milhão de exemplares.
O mais recente trabalho de Yoichi Takahashi também é sobre futebol: Syukan
Shonen Champion, também inédito no Brasil.
O Rei em quadrinhos
Pelé,
o maior expoente do futebol em toda a História e talvez a personalidade
mais conhecida do planeta, já honrou as HQs com sua presença. Além de
contracenar com o Zé Carioca, o Rei ainda apareceu na capa do especial
Super-Homem
versus Muhammad Ali, publicado no Brasil nos anos 70, pela Ebal.
Na ilustração, ele assiste à luta ao lado de outras figuras famosas da
política e das artes.
Assim como se formaram mitos em torno das façanhas de Pelé nos gramados,
também existe uma lenda sobre ele nos quadrinhos. Lee Falk, criador do
Fantasma, afirmou numa entrevista ao Jornal da Tarde (de São Paulo),
em 1996, que o rei do futebol ajudou o Espírito-que-Anda numa aventura
produzida no Brasil.
O fato é que não se sabe que editora realizou tal façanha: RGE/Globo,
Saber ou Ebal, que publicaram o herói em diferentes épocas
em nosso país. Infelizmente, não se encontra registro dessa história,
mas se o próprio Lee Falk disse que ela existe...
No final da década de 1970, Pelé ganhou participação mais que efetiva
nos quadrinhos, quando Mauricio de Sousa criou Pelezinho. Estreando em
tiras de jornal e depois ganhando seu próprio gibi na Editora Abril,
o personagem fez muito sucesso não só no Brasil, mas em outros países
da América do Sul.
Os coadjuvantes de Pelezinho eram todos baseados em amigos de infância
do Rei. Um dos mais divertidos da turma era o (arremedo de) goleiro Frangão.
Até Dondinho, o pai de Pelé, aparecia nas histórias.
A revista mensal do pequeno craque durou até 1982, e por mais quatro anos
foram lançados almanaques periódicos com republicações, incluindo os especiais
da Copa do Mundo de 82 e de 86 (em duas edições).
Quando os Estúdios Mauricio de Sousa foram para a Editora Globo,
o personagem ganhou um almanaque em 1988, além do especial Copa 90
(que apresentava histórias inéditas, e numa delas havia até um encontro
entre Pelé e Pelezinho) e um álbum em comemoração aos 50 anos do rei do
futebol.
Em 1990, Mauricio de Sousa cogitou a volta do personagem com um visual
bem diferente, agora um pré-adolescente. Anos depois, em 2002, essa nova
imagem foi apresentada em propagandas nas revistas da Turma da Mônica
e em sites pela internet. Mas a idéia não seguiu adiante.
Restou só a saudade do maior craque que os quadrinhos já revelaram para
o futebol - ou seria o contrário?
Supercraques
Em 1995, o então diretor de redação da revista Placar, Marcelo
Duarte, teve a idéia de revitalizar as mascotes dos clubes de futebol,
as quais achava ultrapassadas. Pensou em algo que significasse o poder
e a força que os times representam.
A Era Image, na qual supertipos anabolizados e anatomicamente inverossímeis
eram a bola da vez, estava no auge. Assim, sob encomenda do jornalista,
a equipe do estúdio Art & Comics seguiu a tendência e transformou
as velhas e passivas mascotes nos Super-Heróis da Bola: Mega Timão (Corinthians),
Power Urubu (Flamengo), Lança-Chamas (Botafogo), Cyberpork (Palmeiras),
Galo Vingador (Atlético-MG), Fox (Cruzeiro) e outros formavam o mais novo
esquadrão de paladinos da justiça.
A Editora Abril pretendia popularizá-los até que pudessem ganhar
uma revista própria. Durante vários números da Placar, eles foram
tema de matérias, capa de edição e chegaram a ganhar um superpôster e
uma história curta. Mas a iniciativa não surtiu efeito, as vendas não
demonstraram que o público ficara animado com a inovação e o projeto foi
engavetado.
De qualquer forma, foi um divertido exercício de imaginação que entrou
para a história da mais longeva revista de esportes do País.
Também
em 1995, inspirado nas "supermascotes", este articulista fez uma montagem
que consistia no Ciclope (líder dos X-Men), vestindo a camisa do Flamengo
e segurando a cabeça do ex-jogador Renato Gaúcho, o então algoz do time
rubro-negro (autor do gol que tirou o título carioca do rubro-negro naquele
ano). Batizada de X-Mengo, a imagem foi publicada na Placar especial
de 100 anos do time carioca.
Mas os quadrinhos continuaram fazendo parte da revista. Tiras de humor
e charges são seções fixas na Placar há muitos anos. A hilária
coluna Lendas da Bola, de Milton Trajano, é um belo exemplo disso.
Diante de tudo que se viu, não resta dúvida: nos quadrinhos o futebol
também é alegre, faz sorrir e chorar, produz tabelas perfeitas e até as
goleadas surgem com mais freqüência.
O único problema é que não é possível xingar o juiz. Mas isso parece não
fazer falta, pois os leitores já têm seu próprio saco de impropérios:
o editor.
Marcus Ramone é flamenguista roxo. Talvez por isso também seja torcedor
fanático do Vila Xurupita nos quadrinhos.
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