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Fantasma bem brasileiro

Poucos leitores mais novos sabem, mas na época em que o Fantasma fazia grande sucesso no Brasil, muitas de suas histórias eram feitas por artistas nacionais

Por J. J. Marreiro (21/12/05)

Arte de Walmir Amaral Dizem que as boas histórias começam com "Era uma vez..." e sempre tem heróis e vilões. Mas nesta que começa a ser contada não há nenhum facínora. Não, essas linhas são sobre os mocinhos, a respeito dos heróis de um Brasil de outros tempos, em que as situações econômica e política eram bem diferentes.

Houve um tempo em que o mercado de quadrinhos brasileiro era terreno fértil, oferecia empregos, oportunidades. As gerações mais novas de leitores conhecem bem os artistas nacionais que trabalham para as editoras norte-americanas, mas muitas vezes desconhecem o fato de que nossos artistas já produziam HQs dos heróis "gringos" lá pelos idos dos anos 60.

Nessa época, era atribuição dos brasileiros produzir histórias ou completar páginas para manter o personagem sendo publicado.

Arte de Júlio Shimamoto Um herói muito famoso que marcou época no Brasil foi o Fantasma, de Lee Falk. Seu sucesso deve-se a muitos fatores, mas pode-se dizer que a longevidade de suas revistas tem muito a ver com a produção nacional.

No final da década de 1960, a Rio Gráfica Editora (atual Globo) tinha um contrato com o King Features Sindicate, proprietário dos direitos de publicação do Fantasma. Todos os meses, eram fornecidas as tiras que saíam nos jornais dos Estados Unidos. Aqui, elas eram remontadas no formato das páginas e recebiam novas letras e balões. Em seguida, os quadros eram completados pelos auxiliares de arte.

Segundo Walmir Amaral, que dirigiu a equipe de produção, as tiras não conseguiam suprir a edição de revistas mensais. Assim, junto com Gutemberg Monteiro, ele teve a idéia de desenhar o herói.

Como esperar a RGE encomendar os roteiros demandaria um tempo de que não se dispunha, o próprio Walmir começou a escrever as aventuras. Desse modo, foi possível intercalar histórias nacionais e americanas.

Capas com arte de Walmir Amaral

"Na década de 1980, quando norte-americanos e suecos começaram a publicar aventuras do Fantasma em revistas, a Rio Gráfica novamente adquiriu os direitos para lançá-las no Brasil", relembra Walmir. "Mas de 1982 a 1988, a coisa ficou feia. Tínhamos uma tiragem muito grande e vários títulos (Fantasma, Almanaque do Fantasma, Almanaque de Férias, Fantasma Especial etc.) e a venda era grande. Por isso, precisávamos de mais histórias."

Superalmanaque do Fantasma #7 Sob sua direção, foi então criada o que ele chama de "Equipe Fantasma". Compunham a equipe: Adauto Silva, Wanderley Mayê, Milton Sardella e ainda Julio Shimamoto e Antonino Homobono. Além de chefiar ao artistas e também desenhar, Walmir continuava escrevendo os roteiros, tarefa que dividia com José Menezes.

Mesmo com o sucesso de vendas, os artistas brasileiros não eram estimulados a assinar suas histórias, o que, em muitos casos, dificulta descobrir a origem da HQ. "Era proibido assinar as artes, para ocultar que os desenhos em feitos no Brasil. A idéia era passar a impressão de que ainda era Fantasma gringo", revela Júlio Shimamoto.

Superalmanaque do Fantasma #13

Mas fazendo-se valer da ginga típica do brasileiro, Shima (como também é conhecido) deu um "jeitinho" de marcar suas histórias, ocultando sua assinatura em objetos das cenas, ou em detalhes de figurino ou no cenário. Nas palavras do próprio artista: "Não sou carioca, mas dei meus dribles e consegui camuflar meu nome em siglas de helicópteros ou armas de bandidos, como cimitarras, por exemplo".

As revistas do Fantasma tinham muita saída, a tiragem era alta e a remuneração para os artistas era boa - uma realidade bem diferente da atual, com tiragens diminuindo a cada dia e preços de capa aumentando.

No entanto, perto dos anos 90, as vendas começaram a definhar, o que acarretou em cortes de pessoal, produção e, conseqüentemente, o fim da era do Fantasma Tupiniquim.

Para todos os efeitos, um capítulo importante da história do Espírito-que-anda foi escrito por roteiristas e desenhistas brasileiros. E é bom que se diga, com muita criatividade, talento e competência.

Nesses tempos idos, a união do Fantasma com nossos artistas representou sucesso de venda e de público. O personagem de Lee Falk, que tanta alegria trouxe aos leitores, compartilha hoje, mais uma vez, seu destino com os quadrinhistas nacionais. Afinal, infelizmente, ambos estão ausentes das bancas...

J. J. Marreiro é quadrinhista e editor do premiado fanzine Manicomics e agradece imensamente a Julio Shimamoto, Walmir Amaral e José Magnago pelas informações concedidas e, principalmente, pelos serviços prestados à HQ nacional

 

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