Universo HQ OS MAIORES SUPER-HERÓIS DO MUNDO - DE R$ 129,00 POR R$ 72,04 EM 2X SEM JUROS Universo HQ no Twitter
 
 

As cenas mais citadas dos quadrinhos
(ou Pra que raios servem as listas?)

Descubra quais as imagens da arte seqüencial que mais aparecem em livros teóricos do mundo todo

Por Nobu Chinen (20/12/05)

9º lugar: Flash Gordon vs. Imperador Ming Vira e mexe, alguém elabora uma lista com os "mais mais sei lá o quê". Os melhores filmes, canções, seriados dos anos 70, mulheres mais desejadas etc. Há alguns meses, a revista Bizz, na sua edição de reestréia, trouxe a relação das melhores capas de álbuns. Ou seja, disco fonográfico, categoria que inclui os dinossáuricos LPs e os CDs, que também partem, agonizantes, rumo a um inevitável processo de extinção.

Antes que alguém imagine que essa mania foi inventada pelo escritor Nick Hornby, autor de Alta Fidelidade, um fanático por listas de todas as espécies, é bom lembrar que esse é um hábito de longa data e os antigos já eram chegados a elaborar um ranking como, por exemplo, a famosa relação das sete maravilhas do mundo. Quando, quem e como elaborou esse primeiro top seven, fogem ao escopo desta matéria. Quem tiver curiosidade que vá pesquisar.

9º lugar: Little Nemo Tentando ser original onde a originalidade é artigo escasso, a intenção foi criar uma lista própria, com o objetivo de estabelecer qual seria a página ou a cena dos quadrinhos mais reproduzida em todos os tempos.

Aqui não está se referindo àquelas imagens que foram copiadas aos milhões em artigos de alto consumo, como a do Garfield dizendo que odeia as segundas-feiras ou às carinhas do Snoopy, do Mickey, Pato Donald e congêneres que estampam desde camisetas a canequinhas e penicos, em todos os cantos do planeta.

Também não está se falando de certas ilustrações como o famoso perfil do Dick Tracy com lapela e chapéu amarelos e gravata listrada sobre fundo azul royal ou a do Spirit visto de frente correndo, que acabaram se tornando ícones da cultura pop.

9º lugar: The Spirit O tipo de cena a que esta lista se refere é a que os autores de livros sobre HQs recorrem para ilustrar seus textos, aquelas imagens que, por seu valor histórico ou estético, ou ainda, por seu visual arrojado, passaram para a história dos quadrinhos, literalmente.

Numa pesquisa feita em 300 livros de estudo sobre as HQs, de diferentes países, épocas e idiomas, foi feito o levantamento para saber quais cenas eram mais recorrentes para exemplificar o trabalho de um e/ou outro autor.

Parecia certo que séries com mais prestígio ou de maior apelo popular deveriam, em tese, emplacar os principais vencedores. Krazy Kat, Buck Rogers, Superman, Batman, Peanuts, entre outros, são obrigatórios em todo livro teórico sobre HQ que se preze, e de fato, são citados em todos os volumes pesquisados, com exceção das obras dedicadas a um único artista/personagem ou tema.

No entanto, desses há uma variedade imensa de imagens e cenas para representá-los e que não costumam se repetir muito. A bibliografia final resultou em 72 livros que trazem uma ou mais cenas que constam da lista.

9º lugar: Terry e os Piratas

Na ausência de um precedente, foi estabelecido, arbitrariamente, um limite mínimo, fixado em cinco menções. A partir dessa quantidade, a cena entraria na relação. Dessa forma, não há esse negócio de "As 7 Mais", nem as 8 ou 10. No total foram selecionadas 17 imagens.

Como houve muitos casos de empate, a classificação acabou contemplando nove colocações, sendo a nona correspondente àquelas que apareceram cinco vezes, o número mínimo. A pesquisa foi realizada em outubro de 2005, portanto, contempla livros lançados até essa data.

8º lugar: A Balada do Mar Salgado

Quanto mais vezes melhor

Na nona posição ficaram quatro cenas.

8º lugar: Dreams of the Rarebit Fiend A primeira é a página de abertura da aventura de The Spirit, de Will Eisner, datada de 2 de outubro de 1949.

Também em nono, aparece a cena desenhada por Alex Raymond, na qual Flash Gordon esgrime com o Imperador Ming, da página dominical de 14 de agosto de 1938.

Igual colocação teve uma página de autoria de Winsor McCay, da celebrada série Little Nemo in Slumberland, de 23 de fevereiro de 1908. Nela, Nemo e seu dois companheiros de aventuras Imp e Flip caminham pelas paredes internas e abóbadas de um palácio tombado, não no sentido de protegido pelo Patrimônio Histórico, mas caído mesmo.

Uma cena isolada e provavelmente concebida como simples ilustração também teve cinco citações. É a de Milton Caniff para Terry e os Piratas, um soberbo trabalho de formas e sombras, uma marca registrada de seu estilo claro-escuro que lhe faz jus à fama de Rembrandt das HQs.

8º lugar: Yellow Kid na academia de ginástica Perto dos melhores trabalhos de Caniff, o Sin City de Frank Miller é um primitivo amontoado de borrões, brincadeira de criança. Para quem duvidar é só conferir pra ver. Em oitavo lugar, com seis menções, há outras quatro cenas.

A página de Yellow Kid na academia de ginástica, de 27 de setembro de 1986, e que seria a penúltima do personagem desenhada por seu criador, Richard Felton Oultcault, para o jornal New York World.

Oultcault e o Yellow Kid estavam se transferindo para o concorrente New York Journal, de William Randolph Hearst. Na página há uma intervenção de um personagem grotesco no canto superior direito, no traço do substituto do autor, o desenhista Geo B. Luks. Como peculiaridade, há duas assinaturas: a do desenhista antigo e a de seu sucessor.

A cena de abertura de A Balada do Mar Salgado, de 1967, de autoria de outro mestre das sombras, e das luzes obviamente, Hugo Pratt, também apareceu em meia dúzia de livros.

De Caniff também é a terceira cena com seis menções, a da seqüência da morte da personagem Raven, na série Terry e os Piratas, publicada entre 13 a 17 de outubro de 1941. Uma verdadeira aula de como se criar tensão com um eficiente jogo de planos e pontos de vista, e praticamente sem palavras.

8º lugar: Terry e os Piratas

Completando o time das seis menções, a impressionante página em "câmera subjetiva" de Dreams of the Rarebit Fiend, de Winsor McCay, de 25 de fevereiro de 1905, que mostra o ponto de vista de alguém que está sendo sepultado. Uma composição idêntica, ou por ela inspirada, foi criada por Johnny Craig, num episódio publicado na década de 1950 por uma das revistas da EC Comics.

7º lugar: Principe Valente Em sétimo lugar, com sete menções, está uma cena que sintetiza toda a dinamicidade da série Príncipe Valente impressa pelo seu autor Hal Foster. Na verdade, embora pertença ao "arco" (está na moda chamar assim) referente à invasão dos hunos, que corresponde mais ou menos ao período de 1941 na série, ela não foi extraída de nenhuma página dominical, mas produzida especialmente para figurar em uma coletânea, em 1952.

Em sexto, com oito menções, vem a famosa primeira página de Steve Canyon, de Milton Caniff, de 19 de janeiro de 1947, analisada vinheta por vinheta por Umberto Eco, em seu livro Apocalípticos e Integrados.

Nela, o autor habilmente vai construindo as características do protagonista apenas pelo diálogo com outros personagens, antes de revelar a sua face, quase na metade da página.

6º lugar: Steve Canyon Em quinto, com nove aparições, está a primeira página do episódio Lorelei Rox, outra aventura do Spirit, de 19 de setembro de 1948, uma seqüência toda na penumbra que mostra o detetive entrando no gabinete do Inspetor Dolan. Lembra a iluminação dos filmes noir e o cartunista e escritor Jules Feiffer a classificou como exemplo de expressionismo alemão transposto para os quadrinhos.

Em quarto lugar há três cenas, com dez menções. Uma delas é a magistral composição em que Val, da série Príncipe Valente, de Hal Foster, enfrenta sozinho todo um batalhão de inimigos para proteger a passagem sobre uma ponte. Ela pertence à página dominical de 19 de junho de 1938, servindo-lhe como última vinheta.

A outra é uma história completa, um clássico do Spirit preferido por inúmeros críticos que vêem nessa HQ uma poderosa metáfora dos talentos não reconhecidos ou não revelados: o episódio de Gerhard Shnobble, de 5 de setembro de 1948. Dela, normalmente, são reproduzidas a primeira ou a última vinheta, mas cenas intermediárias também são usadas por alguns autores. Álvaro de Moya, no livro Shazam, apesar de não reproduzir nenhuma cena, faz um relato e uma análise da história.

5º lugar: Spirit - Lorelei Rox E a última mostra a personagem Barbarella, de Jean Claude Forest, na cama ao lado de um robô, após terem transado, de 1962. Na época, ela simbolizava o máximo de ousadia e unia temas que marcaram a década de 1960: a liberação feminina, a revolução sexual e os avanços da tecnologia cibernética.

A terceira colocação pertence ao mestre Caniff, cuja página de Terry e os Piratas, de 17 de outubro de 1943, teve 11 menções. Nela, o Coronel Flip Corkin faz um discurso elogioso às forças armadas para Terry, incitando-o a cumprir sua missão e agir como um soldado patriota.

Uma passagem condizente com o momento histórico vivido pelos Estados Unidos, na época, bastante envolvidos na Segunda Guerra Mundial. Por esse motivo, a página foi reproduzida nos anais do Congresso norte-americano.

Ocupando o segundo lugar, aparece, novamente, Yellow Kid, de Richard Fenton Outcault. Considerada por muitos a primeira HQ de todos os tempos, sempre é mencionada pelos estudiosos e a página do personagem que aparece com mais freqüência é a Takes a Hand at Golf, de 24 de outubro de 1897, com 16 reproduções.

And the winner is...

4º lugar: Spirit Finalmente, em primeiríssimo lugar e disparada na frente está a famosa e deslumbrante página de Little Nemo in Slumberland, de McCay, na qual o protagonista Nemo e seu amigo Flip fazem um passeio pelas ruas de uma grande cidade, montados numa cama dotada de enormes pés que se movimentam.

Ela foi publicada originalmente em 26 de julho de 1908 e aparece em nada menos que 21 livros, inclusive entre as imagens que ilustram o verbete Quadrinhos da Enciclopédia Mirador. Não chega a ser tão onipresente quanto a Monalisa em livros sobre a dita arte séria, mas, proporcionalmente, é quase tão constante quanto a Vênus das Águas, de Botticelli e mais do que qualquer um dos quadros de Van Gogh.

Em alguns livros, a página é reproduzida inteira em todo seu esplendor e beleza. Em outros, apenas algumas vinhetas mais significativas e, em duas das ocasiões, aparece apenas o último quadrinho que, aliás, não tem nada de particularmente especial, sendo semelhante a inúmeros outros desfechos que Winsor McCay desenhou para a série.

4º lugar: Barbarella e seu amante robô John Canemaker, em seu livro Winsor McCay. His Life and Art, uma magnífica biografia do cartunista, atribui à página um tom anticlerical, pois, como observa, a mágica e a fantasia do passeio são abruptamente interrompidos quando um dos pés da cama enrosca na torre de uma igreja. Simbolismos à parte, trata-se de um dos mais instigantes e belos trabalhos do autor.

A página, ou parte dela também serviu de base para análise do estudioso italiano Daniele Barbieri, no excelente livro Los Lenguajes del Cómic. No capítulo em que compara os quadrinhos ao cinema, ele a cita como exemplo de plano-seqüência.

O crítico Sebastião Uchoa Leite, no livro de ensaios Jogos e Enganos, dedica um dos capítulos a analisar uma outra série de McCay, Dreams of the Rarebit Fiend, classificando os sonhos em categorias que, segundo o próprio autor, também servem para analisar Little Nemo, embora enxergue nessa série um lirismo e uma poesia que contrastam com o clima de tensão e inadequação que marcam a outra.

4º lugar: Principe Valente

Outro que não resistiu ao encanto dessa página foi Art Spiegelman, que se detém a analisá-la duas vezes, conforme mostrado no livro Quadrinhos, Ensaios, Gráficos e Fragmentos, editado no Brasil como um livro-catálogo da exposição de suas obras.

3º lugar: Terry e os PiratasApesar de cultuadíssima, Little Nemo é uma HQ pouco divulgada entre os leitores brasileiros, principalmente os mais jovens, e quem quiser conhecê-la precisa recorrer a material importado.

Da década de 1970 para cá, foram lançados álbuns de luxo com coletânea das páginas do personagem nos Estados Unidos e na França. No Brasil, ele saiu ainda no início do século 20, inclusive na revista O Tico-Tico, mas as publicações mais recentes do personagem ocorreram no Almanaque do Gibi Nostalgia de 1975, que teve 11 páginas da série, entre elas a nossa campeã. E a revista Eureka, da extinta Vecchi, na edição 11, de 1978, trouxe uma única página. Fora isso, mais nada.

Este foi o resultado da pesquisa. Para os que eventualmente possam achar esse método discutível, os parâmetros adotados foram os mais precisos, para não dar margens a subjetividades. Portanto, as cenas escolhidas não são necessariamente as que são consideradas as melhores ou mais bonitas.

2º lugar: Yellow Kid

1º lugar: Little Nemo in SlumberlandO critério usado é idêntico ao que a comunidade científica costuma usar: consignar o número de citações que um pesquisador acumula em publicações especializadas.

Para conhecer a bibliografia consultada e a relação completa das menções referentes a cada cena listada, clique aqui.

Talvez não haja nenhuma finalidade prática para um levantamento como este que, por sinal, é fruto de um trabalho que exigiu extenuante pesquisa. Pode, quem sabe, servir para indicar que, se tantos e diferentes especialistas escolheram as cenas aqui citadas, é porque deve valer a pena conhecer as obras mencionadas e o talento de seus incríveis autores ou, no mínimo, para enriquecer a sua cultura de almanaque.

A propósito, você sabe dizer de memória quais são as Sete Maravilhas do Mundo?

Nobu Chinen é redator publicitário e sabe de cor as Sete Maravilhas, mas ainda não conseguiu decorar os doze trabalhos de Hércules

 

|| QUADRINHOS | CINEMA | E-MAIL | BOLETIM | LOJA | PUBLICIDADE ||

© 2005, Universo HQ