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Ebal 60 anos: uma celebração
Se ainda estivesse em atividade, a Editora Brasil-América completaria seis décadas de vida em maio de 2005, uma data que vale ser lembrada - e comemorada
Por Toni Rodrigues
(31/03/05)
Imagine uma época muito mais inocente do que a atual. Imagine um país
recentemente saído de uma ditadura das mais cruéis, cujo governante as
pessoas fariam voltar ao poder, algum tempo depois, pelo voto direto.
Imagine uma nação saída de uma época de racionamentos feitos em nome de
uma guerra em que foi coagida a combater. Uma época sem televisão, em
que futebol se via no estádio ou se ouvia pelo rádio, onde também habitavam
os artistas favoritos e muitas vezes os heróis mais queridos.
Imagine uma época em que crianças podiam brincar nas ruas das grandes
cidades sem nenhum receio maior do que ter um joelho esfolado. Um tempo
em que, ao entrar num cinema, uma entrada lhe dava direito a assistir
a um desenho, um noticiário, um episódio de um seriado de aventuras e,
por fim, o filme principal.
Imagine uma época em que o maior "crack da pelota" tinha
o apelido de "Diamante Negro" (aliás, o chocolate tem esse nome por causa
dele, o centroavante Leônidas da Silva); a maior cantora, Carmen Miranda,
era "A Pequena Notável"; uma cidade como São Paulo era chamada de "Terra
da Garoa"; e o presidente era "O Primeiro Mandatário da Nação".
Só mesmo imaginando um país assim, numa época tão distante,
você entenderá por que aquela nova editora que surgia no Rio de Janeiro
logo ganhou o apelido de "O Reino Encantado das Histórias em Quadrinhos".
Se ainda estivesse "viva", a Editora Brasil-América Limitada, a
Ebal, estaria prestes a completar 60 anos. Ela foi fundada numa
sexta-feira, 18 de maio de 1945 pelo baiano (que o livro A
Guerra dos Gibis, de Gonçalo Junior, recentemente desvendou russo)
Adolfo Aizen, que também tinha um apelido de respeito: "O Pai das Histórias
em Quadrinhos no Brasil".
Mas Aizen não foi o primeiro a publicar os quadrinhos aqui. Outros vieram
bem antes dele, principalmente se considerarmos as HQs de humor. Também
não é verdade que ele tenha sido o lançador dos novos (para a época) heróis
de aventura, pois o Fantasma, só para dar um exemplo, já saía há algum
tempo pelo extinto jornal Correio Universal.
No entanto, a importância de Adolfo Aizen não é ofuscada por essas tecnicalidades.
Afinal, ele foi o responsável pelo lançamento do maior sucesso editorial
da época: o Suplemento Juvenil, que publicou, pela primeira vez
no Brasil, diversos heróis que estão por aí até hoje, como Flash Gordon,
Príncipe Valente, Mandrake, Jim das Selvas, Dick Tracy e muitos outros.
Aizen também lançou outras revistas como O Mirim e O Lobinho,
nas quais publicou muito do melhor material da Era de Ouro dos comic
books americanos, como The Flash (Joel Ciclone), Hawkman
(Falcão da Noite), Superman e Batman, entre outros.
E publicou muito material nacional também, várias adaptações de romances
e filmes de aventura como Raffles e o Gavião de Riff, entre outras
coisas.
Quando fundou a Ebal, Adolfo Aizen já era um editor veterano. Aliás,
mesmo o Grande Consórcio de Suplementos Nacionais, que editou o
Suplemento Juvenil, já era seu segundo esforço empresarial. Ele
já tinha tentado a sorte com uma outra pequena editora antes, sem sucesso.
Nos 10 anos que precederam a fundação da Ebal, Aizen aprendeu muito
com seus erros, alguns dos quais levaram aos fatos que acabaram matando
o Suplemento Juvenil, mesmo quando a publicação ainda vendia muito.
Ao fundar a Ebal, portanto, ele estava preparado para acertar.
O primeiro título em quadrinhos da Editora Brasil-América foi lançado
em 1946, quando a empresa ainda não era chamada de Ebal. Impressa
na Argentina, numa associação entre Adolfo Aizen e Cesar Civita (irmão
do Victor Civita), a revista Seleções
Coloridas tinha, em geral, 32 páginas. A série teve apenas 17
números, hoje raríssimos. Em suas páginas são encontradas, entre outras
preciosidades, histórias da Disney, dentre as quais as primeiras
histórias de Carl Barks publicadas no Brasil.
Mas vale ressaltar que, nessa época, a editora já havia publicado livros
ilustrados (Você já foi à Bahia, Biblioteca Mirim e outros)
e livros com quadrinhos (Coleção King).
A primeira revista em quadrinhos da Ebal, impressa no Brasil, chamava-se
O
Heroi (sem o acento) e trazia, a princípio, vários heróis de aventura,
de diversas editoras americanas, principalmente da Fiction House.
Em suas páginas estrearam personagens como Sheena, a rainha das selvas;
Kaanga (aqui rebatizado de Kionga), o rei das selvas;
Fred e Nancy no Circo; Tabu, outro rei das selvas; Camilla,
mais uma rainha das selvas. Logo em seguida, aparecem também algumas adaptações
de clássicos da literatura de aventuras em adaptações da Classics Illustrated
americana,
como A Ilha do Tesouro, que viriam, algum tempo depois, a ser publicadas
em outra revista de muito sucesso, a famosa Edição Maravilhosa.
Aos poucos, O Herói foi publicando também heróis do gênero de maior
sucesso nos anos 50, o faroeste, como Durango
Kid.
A revista já era um sucesso quando a Ebal lançou seu título de
maior longevidade com um único herói: Superman, que foi publicada
de novembro de 1947 a 1981, com várias series ininterruptas.
Como? Você não entendeu esse papo de "séries"? Isso era uma prática que
diferenciava a Ebal de todas suas concorrentes, a numeração de
suas revistas em séries. Em tese, isso significava que se uma determinada
revista chegasse ao número 100, depois ela recomeçaria do 1.
Nem sempre isso se aplicou na prática, pois ao longo da história da Ebal
houve mais de uma série interrompida nos primeiros números para recomeçar
do
1 algum tempo depois, com outro herói geralmente. Houve também a exceção
da Edição Maravilhosa, cuja primeira série passou do número 200.
Muitas vezes, esse procedimento criava alguns fatos bastante engraçados
para os colecionadores, porque, ao longo dos anos, não havia lógica com
relação aos personagens que apareciam num determinado título.
Tudo bem que um título como O Herói, Minha Revistinha ou
Ultra pudesse publicar virtualmente qualquer gênero de história.
Mas uma revista como Aí, mocinho, nascida para abrigar cowboys
do naipe de Monte Hale e Gene Autry, acabou tendo em suas
páginas, alguns anos depois, super-heróis como Gavião Negro (embora
se possa dizer que os uniformizados também sejam "mocinhos").
O fato é que se o leitor separava as revistas na sua coleção por gênero,
com a Ebal corria o risco de ver um super-herói invadindo o espaço
dos cowboys ou dos detetives, com certa freqüência. Na verdade,
o fã só não tinha que se preocupar com os quatro títulos principais da
editora, que estiveram presentes nas bancas por mais tempo do que quaisquer
outros: Superman, Batman, Tarzan e Zorro.
Em
tempo, este Zorro era o amigo do Tonto, dono do Silver: o Lone Ranger.
Hoje muita gente acha um absurdo que tenham dado ao personagem esse nome
por aqui, em vez de chamá-lo de O Cavaleiro Solitário.
Não se sabe o motivo disso, mas o fato é que não incomodava ninguém na
época, até
porque as histórias do verdadeiro Zorro, o oficial, sempre foram poucas,
publicadas aqui e ali, de vez em quando, inclusive pela própria Ebal;
enquanto que o Zorro do Tonto (Lone Ranger) estava nas bancas todo
mês, em edições normais, extras e almanaques.
Além disso, essa confusão existia nas telas também. Todos tinham assistido
ao filme A Marca do Zorro, com Tyrone Power, mas havia um seriado
de cinema, que se chamava Zorro's Fighting Legion, com um personagem
tipo cowboy e não capa e espada. Quando apareceu, por aqui,
muitos anos depois, a ótima série de TV da Disney, com Guy Williams
fazendo o papel do herói cujo alter ego era Don Diego de LaVega, já estava
passando também o seriado do Lone Ranger, com o nome de Zorro,
estrelada por Clayton Moore. Ou seja, era confuso mesmo, mas ninguém se
incomodava. O negócio era curtir os dois.
Durante seus primeiros anos, a revista Superman, além do Homem
de Aço, que foi o personagem de maior longevidade da editora, publicou
vários dos heróis da DC Comics (na época conhecida por National),
inclusive Batman, que só veio a ter título próprio tempos depois,
em março de 1953.
Aqui também havia muita incoerência com relação à tradução dos nomes dos
personagens. Hawkman, por exemplo, que nunca foi chamado no Brasil de
"Homem-Falcão", nos primeiros tempos da Ebal era Falcão da Noite,
depois de alguns anos virou Gavião Negro, que perdura até hoje. Wonder
Woman foi publicada aqui, brevemente, por outra editora, a Orbis,
como Super-Mulher, mas na editora de Aizen sempre se chamou Miss
América, até o advento do seriado estrelado por Linda Carter nos anos
70, quando passou a ser conhecida finalmente como Mulher-Maravilha
- o detalhe é que há uma outra heroína cujo nome original é Miss América.
Durante anos, Aquaman foi traduzido como Homem Submarino e só quando
a Ebal publicou Namor, o Príncipe Submarino, no final dos
anos 60, mudaram o nome dele para o original, para evitar confusão.
The Atom é conhecido até hoje como Elektron por causa da Ebal,
e para mais de uma geração de leitores a namorada do Super-Homem sempre
foi Míriam Lane.
Aliás, por que Super-Homem e não Superman (a editora adotava
a grafia em português no miolo das revistas e, em alguns casos, na capa
também), se a Ebal publicava Batman em vez de Homem-Morcego?
Isso pra não mencionar que Batgirl era Menina-Morcego, e não Batmoça,
a princípio. Bem, exatamente como o caso do Zorro, tudo isso pouco
importava, pois o que valia era curtir as histórias - e isso todos faziam.
Nos anos 50 e 60, a Ebal era líder na publicação de histórias em
quadrinhos no Brasil, vendia anualmente milhões de revistas e chegou a
ter em banca mais de 40 títulos mensais, vários com tiragens superiores
a 150 mil exemplares (hoje, vendas de dez mil são comemoradas) e quando
uma publicação vendia menos de 30 mil edições por mês, quase sempre era
descontinuada.
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