| |
Muitos
já criticaram a Ebal, acusando-a de não dar espaço para os artistas
nacionais. Isso não é verdade. Através da Edição Maravilhosa e
de outras séries, como Grandes Figuras, ela publicou romances de
autores brasileiros e várias biografias com quadrinização (alias, esse
termo é uma invenção da editora) de diversos desenhistas nacionais, ou
aqui radicados, como Manoel Victor Filho, Nico Rosso, Eugênio Colonnese,
André LeBlanc, Aylton Thomas, José Geraldo, Ramón Llampayas e outros.
Muitas vezes, Adolfo Aizen encomendou e pagou, sem publicar, quadrinhos
de iniciantes que ele considerava promissores, e vieram a se tornar grandes
profissionais, como Sérgio Lima, desenhista conhecido tanto pela Múmia
e pelo Lobisomem (que fez com Gedeone Malagola), como pelas bruxas
Disney, Maga Patológica e Madame Min.
Isso sem contar que fizeram parte do staff da Ebal, em épocas
diferentes, vários grandes artistas, como Mário José de Lima, Eduardo
Baron e os grandes Monteiro Filho e Antonio Euzébio. Sobre os dois últimos,
aliás, é difícil dizer quem é melhor. Ambos têm estilos diversos e personalíssimos,
dominando várias técnicas e, se algum dia, alguém escrever sobre a história
da ilustração no Brasil, não poderá deixar de mencioná-los por sua qualidade
e pela quantidade de trabalhos que deixaram na editora de Aizen. Havia
também escritores como Hélio do Soveral e Pedro Anísio e até mesmo o Ota,
editor da Mad começou lá, ainda menino.
Havia representantes brasileiros até mesmo no gênero super-herói. O personagem
de maior longevidade continua sendo O Judoka, que durou 45 edições,
do número 7 ao 52 da revista. Isso porque, as seis primeiras foram estreladas
pelo Judo-Master, da Charlton Comics.
Pela série passaram os já mencionados Mário Lima e Eduardo Baron e também
Juarez Odilon, Cláudio de Almeida, Floriano Hermeto de Almeida Filho (que
assinava FHAF), Francisco Sampaio, Fernando Ikoma e Alberto Silva. O
Judoka fez tanto sucesso que ganhou um filme, produzido em 1972 e
estrelado pela beleza global Elisângela e por Pedrinho Aguinaga, mais
conhecido por estrelar um comercial do cigarro Chanceler, o famoso "fino
que satisfaz", no qual tinha a voz dublada por Reginaldo Faria.
Provavelmente, esse filme do Judoka está perdido por aí, dentro de uma
lata empoeirada numa das Embrafilmes da vida, mas seria bem legal
se alguém o localizasse, pois é uma verdadeira relíquia dos anos 70.
Claro que durante todo esse período havia outras editoras de quadrinhos,
como a Rio Gráfica e a O Cruzeiro, além de muitas bem menores.
A Abril, por exemplo, começou relativamente pequena e por muito
tempo seu maior sucesso foi a revista Pato Donald. Mas, embora
poucos saibam, quem lançou os quadrinhos Disney no Brasil foi a
Ebal, numa parceria com a Abril da Argentina, na revista
Seleções
Coloridas.
Os heróis Marvel também deram as caras pela primeira vez em nosso
país pela Ebal, já nos anos 60, num esforço conjunto com a Atma
(que fabricava aqui as belas miniaturas da Marx americana, bem
como lancheiras e bolas com os personagens), várias emissoras de TV do
Brasil inteiro que passavam a série "desanimada" da Gantray-Lawrence
(não havia grandes redes ainda) e os postos Shell (para quem não
sabe, eles foram lançados por aqui como "Super-heróis Shell" -
dê uma conferida na seção de reviews,
onde há análises de alguns deles), que distribuíam promocionalmente os
números zero das revistas, as
únicas da editora que nunca foram para as bancas e que tinham essa numeração.
É bom frisar que quase tudo, de praticamente todas as editoras importantes
de quadrinhos americanas, saiu aqui, ao menos em parte, pela Ebal,
pois Tarzan e Zorro eram material de Dell/Gold Key,
bem como Solar, Turok e adaptações de séries de TV como
Bonanza, Além da Imaginação, Jornada nas Estrelas
etc.
Havia ainda material da Lev Gleason e da Fawcett Comics,
entre os policiais e os cowboys. Até mesmo terror a Ebal
publicou, pois as histórias de Além da Imaginação e de Boris
Karloff publicadas em Quem Foi?, mesmo sendo brandas, não deixavam
de pertencer ao gênero.
Obras como Gorgo, de Steve Ditko, publicada pela Charlton,
também saiu pela Ebal. Só mesmo as histórias mais hardcore,
como o material da EC Comics nunca pintaram pela editora carioca.
Mas
é importante realçar que nenhuma das outras editoras era tão dedicada
a aos quadrinhos e aos leitores quanto a Ebal. Desde cedo, Aizen
fazia questão de responder cartas e manter contato com seu público, coisa
que as concorrentes não faziam, ou faziam de forma incipiente.
Nenhuma carta enviada à Ebal ficava sem resposta, nem as que não
eram publicadas. Aizen inclusive explicava aos leitores os motivos que
os levaram a aumentar o preço de uma revista ou a acabar com ela. Logo
que teve uma sede bem equipada, inclusive com lanchonete e playground,
passou a promover visitas de turmas de escola à editora, onde os estudantes
eram recebidos com doces e refrigerantes, conheciam todo processo de feitura
de uma revista, ganhavam brindes e voltavam para suas casas felizes da
vida.
Num dos andares havia o Museu Permanente de Histórias em Quadrinhos,
com edições do mundo inteiro e diversos originais dos artistas que trabalhavam
para a Ebal, visitado avidamente por diversos colecionadores de
outros estados, que muitas vezes podiam até deixar o Rio de Janeiro sem
subir ao Pão de Açúcar, mas não deixavam de visitar aquele prédio no bairro
de São Cristóvão.
A Ebal lançou também vários concursos com prêmios que iam de bicicletas
a jogos completos de camisas para times de futebol. O mais famoso foi
feito em conjunto com o achocolatado Toddy: Tarzan Brasileiro,
no qual os leitores mandavam suas fotos fazendo poses do rei das selvas,
que eram publicadas na revista para orgulho de muitos garotos e, certamente,
vergonha posterior de muitos outros.
Como se vê, numa época em que o termo marketing não existia, ou melhor,
nem mesmo "o" marketing existia, Aizen e seus filhos Naumim e Paulo Adolfo
já faziam uma
política de fidelização bastante competente.
Não que tudo fossem rosas, longe disso. Como foi muito bem mostrado no
maravilhoso livro A Guerra dos Quadrinhos, de Gonçalo Júnior, a
Ebal e todos que editavam quadrinhos sofriam bastante com os ataques
de membros reacionários da igreja e do ensino. Mas com muita habilidade
e bom senso, a família Aizen não só conseguiu fazer a editora sobreviver,
como crescer durante muitos anos.
Infelizmente, nem tudo que é bom dura para sempre. A partir do final dos
anos 60, a Ebal começou um longo (e lento) declínio, que perdurou
por toda a década de 70. É bem verdade que não foi só ela. No mundo inteiro,
os quadrinhos passaram a vender cada vez menos, graças ao
avanço progressivo da TV, mais do que qualquer outra coisa. Muitas editoras
sofreram com a queda nas vendas, várias delas deixando de existir depois
de muitos anos de trabalho.
No Brasil, a primeira baixa entre as grandes foi a O Cruzeiro,
que começou nos anos 40, e cujos últimos exemplares saíram em 1972. Nessa
época, a Ebal ainda estava saudável, tendo comemorado seus 25 anos
em 1970 distribuindo de graça para seus leitores, pelo correio, uma edição
especial contando a história da editora, a Chamada
Geral, escrita por Pedro Anísio, um colaborador de Aizen desde
o Suplemento Juvenil e desenhada por Eugênio Colonnese.
E não pense que se tratava de uma "revistinha". Não! Era um álbum com
capa plastificada, impresso em papel de primeira. Se fosse vendida, seria
uma das mais caras publicações da editora.
A
Ebal demorou para publicar revistas em cores (embora tenha feito
uma primeira, nos anos 50, de Superman), mas quando começou, em
1969, o fez com classe. As edições coloridas das suas revistas eram de
incomparável qualidade em relação às concorrentes. Na verdade, elas eram
um luxo, com papel grosso, bem impressas e com capas plastificadas. A
princípio não tinham periodicidade definida, mas aos poucos se tornaram
mensais (na sua maioria) ou bimestrais.
Os colecionadores tinham, de alguns títulos, a edição mensal, a bimestral
(instituída nos anos 60, chamada de Bi e mais grossa) e a colorida,
além de um almanaque anual de 96 páginas e possíveis edições "extras"
e "de férias". Esse era o caso de Superman e Batman, por
exemplo.
De outros títulos, havia a edição mensal e uma colorida bimestral, como
o Homem-Aranha. Alguns só tinham uma modalidade, como O Quarteto
Fantástico, publicado mensalmente em preto-e-branco na revista Estréia.
Tudo isso dependia da popularidade (e das vendas) de um determinado herói,
claro.
Em 1974, aproveitando uma onda de nostalgia que atingia o mondo todo,
a Ebal lançou diversas edições de luxo em comemoração aos 40 anos
do Suplemento Juvenil. Foi um trabalho belíssimo, embora nem sempre
com bom resultado de vendas.
Os álbuns de Flash Gordon, de Alex Raymond, eram gigantescos, abertos
tinham cerca de um metro de comprimento e eram lindíssimos. Adolfo Aizen
os mandou de presente a vários quadrinhistas famosos, como Will Eisner
e Al Williamson, recebendo de volta cartas elogiosas, que publicou; originais
autografados, que emoldurou; e pedidos de novas remessas por parte desses
artistas, que queriam dar o material de presente para outros colegas renomados.
Saíram oito deles.
Foram lançados também Jim das Selvas, Mandrake, um álbum
de Tarzan de Burne Hogarth, que não era de material antigo, e alguns
outros como Tim e Tok, X-9 e Brick Bradford em edições
mais populares, além do de maior longevidade, o Príncipe Valente
(continuado - numa belíssima iniciativa - hoje pela Opera Graphica),
que foi o último material que a Ebal deixou de publicar.
A partir de 1975, quando se rendeu ao "formatinho", começou a fase final
da Ebal. Muita coisa boa ainda foi publicada, nas revistas pequenas
ou em edições especiais mais luxuosas, inclusive belos materiais europeus,
como os álbuns Axa, de Romero; Zephid, de Azpiri; Korsar
e Wolff, de Estebán Maroto, de quem a Ebal já publicara
também 5 por Infinitus.
Saíram também seis lindos álbuns italianos da série Um Homem - Uma
Aventura, com material de Dino Bataglia, Hugo Pratt, Sergio
Toppi, Gino D´Antonio, Enric Siò e Giancarlo Alessandrini; e um maravilhoso
material de Rino Albertarelli, na série Personagens do Oeste, com
biografias reais de Touro Sentado, Gerônimo, Billy the Kid, Custer e Wyatt
Earp.
Também foram lançados álbuns com as tiras de James Bond e até mesmo
O Fantasma, principal sucesso da principal concorrente (a Rio
Gráfica) saiu pela Ebal em cinco livros caprichados.
Havia muito tempo que a Ebal publicava livros infantis com relativo
sucesso e por essa época começou a dar mais atenção a eles do que aos
quadrinhos. No final dos anos 70, para tristeza de seus leitores, havia
pouco material de HQs com seu timbre nas bancas.
Os personagens da Marvel migraram para várias editoras e depois
de um período vergonhoso na hoje também defunta Bloch Editores,
começaram a dar certo nas mãos da Rio Gráfica e da Abril.
Então, veio o golpe de morte: a Ebal deixou de publicar material
da DC. E o fez porque quis, diga-se de passagem, pois tinha prerrogativas
contratuais. Em outubro de 1983, saiu o último número da derradeira série
de Superman, o 74, em formatinho.
Depois disso, ainda saíram reprises de Tarzan e de certos cowboys
esporadicamente, ao longo dos anos 80. Mas com a morte de Adolfo Aizen,
em 10 de maio de 1991, a poucos dias de mais um aniversário da Ebal,
ficou ainda mais difícil continuar.
A partir daí, só saiu pela Ebal, uma vez por ano, o livro do Príncipe
Valente, mas até o volume XV, editado em maio de 1995, no cinqüentenário
da editora. Hoje, seu prédio é compartilhado por uma escola e a gráfica
ainda faz alguns serviços para terceiros.
Um final triste, melancólico e não merecido para aquela que foi a maior
e melhor editora de quadrinhos do Brasil. Por isso, nestes 60 anos, a
melhor forma de comemorar seu aniversário talvez seja fingir que ela não
"morreu".
Afinal, os sebos e sites de leilão ainda estão cheios de material da Ebal,
e você pode ter muito prazer garimpando edições antigas, lembrando dos
seus tempos de criança, ou conhecendo o que seus pais e avós liam no tempo
deles.
Um dos orgulhos de Aizen era a sede da Ebal. Afinal, para uma editora
que começou numa pequena sala do edifício São Borja, na avenida Rio Branco,
255, um prédio inteiro era uma conquista e tanto, sobretudo pelo Museu
ali instalado e que, infelizmente, foi muito depredado, até seu acervo
ser doado para instituições públicas. Só faça um favor ao antigo fã que
escreveu este artigo:
não se refira jamais a ela como "Editora Ebal", afinal o "E" já
significa "Editora" e, com certeza, Adolfo Aizen, onde estiver, se incomodaria
com isso. Aliás, também irritava Aizen o fato de Gibi (publicação
de seu concorrente e desafeto Roberto Marinho) ter virado sinônimo de
revista em quadrinhos. É fácil encontrar nas seções de cartas da Ebal
o editor reclamando do uso do termo.
O velho Aizen, como todo gênio, tinha suas excentricidades. Dizem os colecionadores
mais antigos que a revista Lobinho (que ele publicou pelo então
Grande Consórcio Suplementos Nacionais) foi assim batizada apenas
para evitar que outra editora concorrente usasse o nome Globinho.
Essa é apenas mais um "causo" sobre um homem que se tornou uma lenda no
Brasil e, como tal, carrega uma história na qual os mitos se mesclam à
realidade.
Toni Rodrigues é dono de uma respeitável coleção de revistas da
saudosa Ebal, e não deixa nenhum dos seus amigos do Universo HQ chegar
nem perto dela |
|