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Quadrinhos: uma história muito séria

Três livros lançados recentemente tentam analisar as histórias em quadrinhos por um foco realista. Mas será que vale a pena?

Por Nobu Chinen (09/11/05)

Rio Gráfica e Editora Na década de 1970, a atual Editora Globo ainda não havia mudado de nome e se chamava Rio Gráfica e Editora. Naquela época, tinha uma linha de revistas em quadrinhos muito forte, com títulos como Fantasma, Mandrake, Recruta Zero e chegou a adotar como slogan a frase usada no título desta matéria.

E não era só isso. As revistinhas respondiam por uma parcela tão significativa de suas publicações, que até o logotipo fazia referência ao gênero.

O objetivo deste texto, no entanto, não é falar da editora, mas aproveitar o gancho do tal slogan para tratar de alguns livros que abordam os quadrinhos sob um ponto de vista extremamente sério.

São três títulos relativamente recentes, todos editados nos Estados Unidos e um deles traduzido para o português.

Superheroes and PhilosophyO primeiro é Superheroes and Philosophy, publicado este ano pela editora Open Court, organizado pelos estudiosos Tom Morris e Matt Morris.

Trata-se de uma coletânea de textos elaborados por filósofos e conhecidos autores de quadrinhos norte-americanos, como Mark Waid e Dennis O'Neil, que levantam interessantes questões a respeito de temas profundos como ética, moral, justiça e poder, sob o aspecto do comportamento dos super-heróis.

Nenhum dos artigos se propõe a responder nada, mas a fazer as perguntas certas. Um deles, por exemplo, questiona qual a razão de um ser dotado de superpoderes se dedicar ao bem da humanidade, em vez de usufruir das vantagens que seus dons poderiam lhe propiciar. Por que o Superman, que poderia viver sossegadamente como milionário, bastando para isso friccionar um pedaço de carvão e transformá-lo em diamante, prefere combater o crime e ocultar-se sob a subalterna identidade de um repórter?

Que valores profundos movem alguém dotado de superpoderes a abdicar de um grande amor como fez o Capitão Marvel, para não comprometer uma causa em prol da humanidade?

Entre citações de Sócrates, Platão, Nietzsche, entre outros, os autores vão desfilando alguns conceitos formulados por esses pensadores e tentam encaixar o comportamento dos superseres dentro de uma ou outra linha.

Há uma certa repetição de temas e referências, mas a frase que parece permear todo o livro e resumir seu escopo é: "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades". Quem a cunhou não foi nenhum grande filósofo, mas o Sr. Ben, tio de Peter Parker, o Homem-Aranha.

O que os autores talvez tenham ignorado, ou deliberadamente deixado de lado, foi analisar o outro lado da moeda, ou seja, as razões e motivos dos supervilões. Assim como existem aqueles que usam os poderes para o bem, nos quadrinhos também há os que preferem utilizá-los para causas menos nobres.

O livro é um dos volumes da coleção, coordenada por William Irwin, que faz a associação entre cultura popular e filosofia. Dentre os títulos que a compõem estão alguns que já ganharam tradução em português. São eles: Matrix - Bem-vindo ao Deserto do Real, Os Simpsons e a Filosofia e, mais recentemente, Star Wars e a Filosofia (todos da Madras). Quem sabe os editores nacionais se animem a traduzir também o que fala dos super-heróis.

Ciência dos Super-heróis O segundo livro é Ciência dos Super-heróis, organizado por Lois Gresh e Robert Weinberg lançado este ano no Brasil pela Ediouro.

Seus autores tentam explicar, ou melhor, desacreditar a existência ou a possibilidade de alguém possuir superpoderes. Desde a ação do sol amarelo sobre Superman à transformação do Hulk pelos raios gama, cada uma das versões que durante anos todos os leitores inocentemente engoliram sem perguntar, é destruída implacavelmente diante de argumentos absolutamente e cientificamente corretos.

Cada capítulo, dedicado a um herói diferente, inicia-se de forma bem interessante, com uma breve história do personagem, seus autores, como surgiu etc. Os fundamentos científicos abordados também são descritos de forma acessível e servem como uma pequena introdução satisfatória a temas complexos, como os buracos negros, a teoria do caos, os riscos da radiatividade.

Talvez para aliviar um pouco, os autores preservaram um certo toque de humor. Ao analisar o Homem-Aranha, por exemplo, estranham o fato de Peter Parker, ao pretensamente ganhar os poderes de um aracnídeo, não ter adquirido o dom de tecer sua própria teia, tendo de inventar um disparador. Eles concluem que, considerando-se por qual parte do corpo as aranhas secretam suas teias, talvez tenha sido melhor assim.

Aos autores de Ciência dos Super-heróis não escapou a questão do lado sombrio da coisa e, nos Estados Unidos já saiu o Science of Supervillains.

Arguing ComicsArguing Comics, lançado em 2004 pela University Press of Mississippi, também é uma coletânea, mas diferentemente dos outros dois, seus textos não são inéditos e foram compilados por Jeet Heer e Kent Worcester.

São ensaios e resenhas de autoria de conceituados críticos de literatura, intelectuais e estudiosos de comunicação que se detiveram em algum momento a discorrer sobre os quadrinhos. Nem todos os textos são positivos às HQs. Como a compilação traz artigos escritos desde o fim do século XIX até os anos 1960, pode-se avaliar como evoluiu a visão que os intelectuais tinham sobre a arte seqüencial.

Thomas Mann, consagrado escritor, ganhador do Nobel de Literatura de 1929, faz uma elogiosa análise de um trabalho que não é exatamente quadrinhos, mas uma história ilustrada narrada em xilogravura de Frans Masereel, artista belga citado por Will Eisner em seu livro Narrativas Gráficas. O poeta norte-americano E. E. Cummings comenta sobre Krazy Kat, mesmo personagem analisado pelo conceituado crítico de arte Gilbert Seldes.

Alguns dos textos já foram publicados em português. Um deles, o Mito de Superman de Umberto Eco, foi incluído em seu livro Apocalípticos e Integrados (Perspectiva). Estórias em Quadrinhos: Mad, Vestíbulo para a TV, de Marshall MacLuhan, integra o volume Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem (Cultrix).

Outros três ensaios já haviam saído no livro Cultura de Massa (Cultrix), editado por Bernard Rosenberg e David Manning White: Paul, as Histórias de Horror em Quadrinhos e o Dr. Wertham, de Robert Warshow; Notas sobre Cultura de Massa, de Irving Howe; e O Meio contra as Duas Pontas, de Leslie Fiedler.

Apenas como curiosidade, é interessante frisar que entre os brasileiros também tivemos pelo menos um exemplo de intelectual de grande prestígio que escreveu sobre quadrinhos. O famoso sociólogo Gilberto Freyre dedicou ao tema vários de seus artigos publicados na década de 1950, na revista O Cruzeiro. Em alguns deles, inclusive, cita o fato de ter atuado em defesa das HQs nacionais quando era deputado.

A frase que intitula esta matéria foi escolhida propositadamente por seu efeito. Isso porque, embora a intenção de se tratar os quadrinhos com seriedade seja louvável, é preciso haver bom senso. Dos três livros comentados, o último é um exemplo de obra que valoriza o gênero e a linguagem. Os outros dois são leituras interessantes, principalmente aos mais aficionados pelo gênero de super-heróis, que servem como exercício de curiosidade e só.

Não devem eles próprios ser levados a sério. Nada pode ser mais instigante e enriquecedor do que a leitura dos quadrinhos em si, tenham eles fundamentos morais e científicos ou não. HQs até servem para provocar reflexão, mas são feitos para se curtir. Como obras de arte e de cultura de massa, sua função é, antes de tudo, entreter o leitor.

Buscar explicação científica para os superpoderes ou arriscar motivações filosóficas para personagens cuja mera existência já seria um grande absurdo, talvez seja um exagero meio ridículo. Será que, antes disso, não seria razoável perguntar o que leva um cidadão decente a vestir um shortinho sobre uma malha, colocar uma máscara no rosto e sair voando sobre os prédios da cidade?

Histórias em quadrinhos são, acima de tudo, diversão e entretenimento. Dois dos componentes que as tornam tão maravilhosas são justamente a fantasia e a imaginação.

Cobrar coerência, compromisso com a realidade e um comportamento baseado em nossos valores morais equivale a questionar como um rato como o Mickey usa luvas, tem um cachorro como animal de estimação e um outro cão como melhor companheiro de aventuras. E que ainda por cima fala!

Realmente quadrinho é coisa séria. Mas é melhor que não seja tanto.

Nobu Chinen é publicitário e gosta de levar os quadrinhos a sério, mas prefere as tiras de humor do Calvin.

 

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