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O Tico-Tico: 100 anos de encantamento
No último dia 11 de outubro, a primeira revista a publicar quadrinhos regularmente no Brasil completaria 100 anos, uma data que merece ser lembrada
Por Henrique
Magalhães (13/10/05)
A revista O Tico-Tico é, sem dúvida, um título emblemático das
publicações voltadas à infância, mas que muita gente grande também curtiu.
No início do século XX, o Brasil ainda tinha uma grande influência européia,
em particular da cultura francesa, e veio justamente deste país a inspiração
para se lançar O Tico-Tico, seguindo a linha da revista La Semaine
de Suzette.
O Tico-Tico nasceu no dia 11 de outubro de 1905, com tiragem de
21 mil exemplares. Com o sucesso, logo chegaria a 30 mil, na 11ª edição.
A revista trazia já nos primeiros números quatro páginas em cores, sendo
as demais com impressão monocromática, em tom de vermelho, azul ou verde,
em vez de preto.
Não se tratava de uma revista como as de hoje, dedicadas inteiramente
a um personagem ou grupo de heróis. Era uma publicação que reunia diversas
expressões culturais, com ênfase na literatura, mas que abria um generoso
espaço para os quadrinhos, arte que começava a se firmar no país.
Os editores procuravam enriquecer o acervo cultural de seu jovem público
com informações diversas e entretenimentos, como poesias, contos, jogos,
atrações educativas, referências a datas históricas, além de textos sobre
as séries mais populares do cinema, partituras, letras de músicas e até
peças teatrais.
Os leitores se encontravam na seção de correspondência, trocavam experiências,
tinham suas fotografias e desenhos publicados. Os passatempos traziam
enigmas, adivinhações e concursos que desafiavam a perspicácia do público.
Gaiola do Tico-Tico e Lições do Vovô traziam informações
científicas, de moral e cívica, artes, geografia e matemática.
O caráter didático da publicação estava presente em toda sua linha editorial,
mas de maneira natural, inserida nos contos, brincadeiras, jogos e quadrinhos,
colaborando na formação de várias gerações de crianças e jovens.
Para
ampliar o estímulo à leitura, O Malho, editora da revista, criou
a Biblioteca Infantil de O Tico-Tico, com a participação de grandes
escritores brasileiros. A leitura agradável em livros ricamente ilustrados
atraía os fãs divertindo e educando. Luiz Sá chegou a escrever para a
coleção as histórias de Réco-Réco, Bolão e Azeitona, personagens
que ele já imortalizara nas histórias em quadrinhos.
Os personagens mais queridos dos filmes de faroeste também tinham lugar
na revista, com pequenos textos ilustrados. Tom Mix, Roy Rogers
e Rin-Tin-Tin faziam a festa dos garotos em sua materialidade impressa.
A diversão era um elemento importante para a sedução da gurizada e para
a facilitação da aprendizagem. Os jogos de recortar e montar abriam possibilidades
narrativas múltiplas, fazendo com que os leitores criassem suas próprias
versões para os textos apresentados.
Em 1918 foi publicado o primeiro jogo de recortar e colar, com uma história
completa de Chiquinho, personagem de quadrinhos muito apreciado.
É bom lembrar que os quadrinhos no Brasil surgiram ainda no século XIX,
nas mãos do ítalo-brasileiro Angelo Agostini. Dentre outros, o autor criou
As aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma viagem à Corte,
cujo primeiro capítulo foi publicado na revista Vida Fluminense,
em 30 de janeiro de 1869.
A importância da obra de Agostini é tão grande que Nhô-Quim
passou a ser o símbolo de nossos quadrinhos e o dia 30 de janeiro a data
comemorativa das HQs nacionais. Sempre atuante na florescente imprensa
brasileira, ele foi o criador gráfico do logotipo de O Tico-Tico,
no qual participou também com capas, ilustrações e histórias em quadrinhos,
a exemplo de História do Macaco e Chico Caçador, publicada na nona
edição e a História do Pai João.
Os quadrinhos brasileiros eram, portanto, uma realidade
quando do lançamento de O Tico-Tico e o seu reconhecimento estava
isento do preconceito que recairia sobre essa arte anos mais tarde.
Ao lado da literatura, dos textos educativos e dos jogos didáticos, os
quadrinhos em O Tico-Tico tinham uma linguagem envolvente para
o público infantil, facilitando a leitura textual e contribuindo para
a disseminação dos códigos visuais que viriam a predominar no decorrer
do século.
Os cartunistas brasileiros figuram desde o primeiro número da revista.
João Batista Ramos Lobão publicou nesta edição a história em quadrinhos
Manda quem pode, composta por seis quadros com texto-legenda. A
historieta, na qual alguns garotos reclamam uma publicação impressa para
si, seria uma resposta à demanda do público, que cobrava um título dedicado
à infância.
Muitos fatos curiosos ocorreram na longa trajetória de O Tico-Tico.
A primeira edição, lançada em 11 de outubro de 1905 foi atribuída a uma
quinta-feira, quando o certo seria quarta-feira - data em que chegava
às bancas. O erro viria a ser corrigido apenas na edição do cinqüentenário
da revista.
Outra curiosidade é que um dos personagens mais queridos da revista era
tida como brasileiro, mas teve sua origem nos Estados Unidos. Chiquinho,
seu cãozinho Jagunço e a garota Lili eram, na verdade, uma
cópia de Buster Brown, Tige e Mary-Jane, de Richard F. Outcault,
autor do também conhecido Yellow Kid, ou Garoto Amarelo.
O fato é que Chiquinho, apesar de seu um decalque, já trazia alguns
elementos originais, modificando as características de Buster Brown.
Com a Primeira Guerra Mundial, quando os quadrinhos norte-americanos deixaram
de chegar ao Brasil, o personagem ganhou ainda mais brasilidade. Emprestaram
seu traço ao encapetado guri os desenhistas Luís Gomes Loureiro, Augusto
Rocha, Paulo Affonso, Alfredo Storni, seu filho Osvaldo Storni e Miguel
Hochman.
Aliás, coube a Luís Gomes Loureiro a tarefa de adaptar Buster Brown
para a realidade brasileira, situando-o no ambiente local e dando-lhe
um lastro de cultura nacional. Um de seus grandes méritos foi a criação
da personagem Benjamin, que acompanhava as aventuras do protagonista.
Benjamin, que estreou em 1915, era um moleque negro inspirado num
criado da casa de Loureiro. Nas palavras do próprio autor, em entrevista
concedida à Revista da Semana, em 31 de março de 1945, o terrível
infante tinha os plano mais demolidores para as molecagens da turma, o
que levava Chiquinho a temer que as idéias do negrinho dessem na
clássica surra de escova com que o pai coroava sempre as suas aventuras.
Chiquinho tornou-se um personagem muito querido dos leitores de
O Tico-Tico. Uma prova inconteste de sua adaptação à realidade
brasileira é que, mesmo depois da morte de Outcault e do desaparecimento
de Buster Brown, ele continuou sendo produzido no país, tornando-se
uma das marcas da revista.
O decalque das historietas era prática comum na época, sendo as revistas
infantis francesas e a difusão dos quadrinhos norte-americanos a fonte
para todo tipo de adaptação e cópia. Este procedimento, contudo, não deixou
de trazer bons frutos para os quadrinhos nacionais, revelando artistas
como J. Carlos, Max Yantok, Léo, Théo, Lino Borges, Luiz Sá, Daniel Cícero,
Percy Deane, Messias de Mello, André Le Blanc, entre outros.
Em O Tico-Tico foi publicada também a série O talento de Juquinha,
do carioca José Carlos de Brito e Cunha, mais conhecido por J. Carlos,
considerado um dos maiores nomes dos quadrinhos e do humor gráfico brasileiros.
Ele esteve à frente da revista desde o início e foi um de seus maiores
ilustradores, criando ainda os personagens Jujuba e seu pai, Carrapicho
e a negrinha Lamparina, que é considerada sua maior criação nas
HQs.
Alfredo Storni apresentou As mentiras de Manduca. Max Yantok publicou
a partir de 1910 Kaximbown, tornando-se um de nossos principais
caricaturistas. Alfredo Storni trouxe seu desastrado Zé Macaco,
ao lado de Faustina, personagens criadas em 1908 que se tornaram
muito populares. Mas, sem dúvida, um dos grandes destaques da revista
foi a série Réco-Réco, Bolão e Azeitona, obra imortal de Luiz Sá,
com seu inconfundível traço sinuoso.
O cearense Luiz Sá estreou na edição 1331, em 8 de abril de 1931, colaborando
com a publicação por três décadas. O talentoso artista destacou-se pela
originalidade de seu traço e pela graciosidade de suas criaturas. Além
de publicar inúmeras ilustrações e desenhar capas para O Tico-Tico,
criou outros personagens, como o papagaio Faísca, o detetive Pinga-Fogo
e a negrinha Maria Fumaça.
Além do já comentado Buster Brown, O Tico-Tico introduziu
no Brasil a vigorosa produção de quadrinhos norte-americanos. Como registra
o pesquisador Roberto Elísio dos Santos, o personagem Little Nemo,
de Winsor McCay chegou ao País em 1910, cinco anos após sua criação, no
número 258 da revista. Mickey Mouse, de Walt Disney, foi publicado
com exclusividade a partir de 1930, com o título As aventuras do Ratinho
Curioso. Também circularam o Gato Félix, de Pat Sullivan, Krazy
Kat, ou Gato Maluco, de George Herriman, Popeye, de
Elzie Crisler Segar e Mutt e Jeff, por Bud Fisher.
Como se vê, foi em O Tico-Tico que o Brasil passou a conhecer alguns
dos personagens que viriam a se tornar clássicas dos quadrinhos mundiais.
Mas houve também antecipação. Em janeiro de 1911, como lembra Roberto
Elísio, Alfredo Storni criou o casal Zé Macaco e Faustina, dois
anos antes do surgimento da famosa dupla Pafúncio e Marocas (Bringing
up Father, no original), do norte-americano George McManus.
Zé Macaco e Faustina eram um casal marcado pela feiúra e pela idiotice,
que se esforçava para aparentar boa educação, inteligência e por estar
na moda.
Max Yantok sofreu uma importante influência dos quadrinhos de cunho pré-surrealista
de Little Nemo. Na edição 304, de 2 de agosto de 1911, saía a primeira
aventura de Kaximbown, desse autor brasileiro. O personagem era
um grã-fino metido a intelectual e aventureiro que portava seu inseparável
cachimbo. Na companhia de Pipoca, seu criado, fazia viagens de
aventuras e descobertas por lugares míticos como a Pandegolândia.
Yantok criaria ainda vários tipos cômicos, como o Barão de Rapapé,
o palhaço Tony Malasorte, Pandareco e Chico Preguiça,
demonstrando fôlego e criatividade.
O encanto de O Tico-Tico transcendia o público infantil, sendo
leitura prazerosa de grandes nomes das artes e da cultura nacionais ao
nível de Rui Barbosa e Coelho Neto. A revista trazia, além dos desenhos,
os contos, as lendas e outras narrativas literárias escritas por Olavo
Bilac, Oswaldo Orico, Josué Montello, dando outra dimensão ao universo
onírico das crianças.
Toda uma geração se deslumbrou com o mundo encantado da revista, a exemplo
de Herman Lima, Ledo Ivo, Lygia Fagundes Telles, Ana Maria Machado, Gilberto
Freyre, Érico Veríssimo e Carlos Drummond de Andrade, então jovens que
viriam a ser autores consagrados das letras do País. Drummond, em carta
a Álvaro de Moya, confessa a saudosa lembrança que sentia da revista que
o ajudou a aprender a ler e a ver figuras, no lendário ano de 1910.
Sem dúvida o humor, mas também o caráter didático serviu par dar prestígio
à revista e garantir seu reconhecimento e importância no meio intelectual.
Já a partir do número 3 começaram a ser narrados, em forma de quadrinhos,
fatos da história do Brasil.
Leônidas Freire publicou O descobrimento do Brasil, história ilustrada
com legendas, como era comum aos quadrinhos da época. É do mesmo autor
a série História Ilustrada - Páginas Relembradas, publicada na
década de 1910, que abordava o regime escravocrata que vigorou no país
até o final do século XIX.
Roberto Elísio aponta mais um trabalho importante de cunho pedagógico
publicado em O Tico-Tico. Trata-se da série em quadrinhos A
vida de Floriano Peixoto, com texto de A. Plessen e ilustrações de
Cícero Valladares.
As aventuras também fizeram parte do editorial da revista, com personagens
estrangeiros, mas com a participação significativa de brasileiros. Como
relata Roberto Elísio, a série Quadrilha Negra, adaptação do conto
policial de Mac Flexters, foi desenhada por Oswaldo Storni, bem como Terras
Estranhas, O outro mundo e Aventuras de Pernambuco o marujo,
personagem criado pelo cartunista Belmonte. Entre outros autores, Carlos
Thiré também participaria da revista, com a HQ O tesouro do faraó,
publicada na década de 1930.
Apesar do sucesso incontestável da revista por décadas, a entrada dos
quadrinhos norte-americanos de forma massiva por intermédio das distribuidoras,
os conhecidos syndicates, fez a preferência do público começar
a mudar, sobretudo quando surgiram os suplementos e revistas povoados
de super-heróis, entre as décadas de 1930 e 1950.
A ingenuidade e o encantamento começaram a perder espaço para as aventuras
heróicas e maniqueístas dos superseres, retrato de uma nova época em um
mundo em ebulição.
O Tico-Tico resistiu até fevereiro de 1962. As edições semanais
foram dando espaço às mensais e depois bimestrais, aos almanaques e especiais
dirigidos a pais e professores, até que, finalmente, com a marca excepcional
de 2097 edições e quase 57 anos de existência, encerrou uma saga ainda
não igualada pela revistas infantis nacionais.
Henrique Magalhães é professor, pesquisador de quadrinhos e diretor
da editora Marca
de Fantasia, que publica quadrinhos nacionais e excelentes livros
teóricos
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