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Resenha: V de Vingança é um bom espetáculo

Por Sérgio Codespoti (13/03/06)

V de VingançaV de Vingança, filme que deve estrear no Brasil em 7 de abril, é um bom espetáculo, e deve ser conferido por todos. Até os fãs de quadrinhos vão gostar, e possivelmente apenas os mais ardorosos vão reclamar muito das mudanças.

Adaptado pelos irmãos Wachowski (os criadores de Matrix) para o cinema, V de Vingança se baseia na minissérie V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd, publicada em meados dos anos 80.

O roteiro simplifica, na maior parte das vezes com habilidade, muitas das questões originais da série, e muda parte do cenário político, atualizando-o para os dias de hoje. Várias das mudanças resultam em cenas similares, mas cujo significado, em alguns casos, é mais amenizado do que nos quadrinhos.

Ao invés de uma guerra nuclear, os fascistas ingleses assumem o poder em função de atos terroristas com armas químicas e biológicas.

V de VingançaO personagem de V, interpretado por Hugo Weaving, um homem transformado por experiências em um campo de prisioneiros, também é humanizado no filme. No cinema, V é mais emotivo, mais falante, menos cruel, mas não menos infalível.

O V de Weaving é impecável e apesar de estar sempre mascarado, tem grande atuação.

Entre as diferenças mais gritantes estão a modificação da cena da morte do bispo Lilliman, na qual Evey é voluntária para ajudar com o intuito de escapar, diferente dos quadrinhos, nos quais ela ajuda V de maneira ingênua; a ausência da "viagem" de LSD do inspetor de Finch; e o final, que funciona no cinema, mas é diferente do original.

O V dos quadrinhos é muito mais duro, devolve Evey ao mundo sem nenhuma proteção, de repente e sem avisá-la, e espera muito tempo, antes de resgatá-la.

V de VingançaA história é mais concentrada no ponto de vista de Evey Hammond (Natalie Portman). Evey nas HQs é filha única e perdeu a família. A mãe, por doença durante a guerra; e o pai, preso por suas idéias políticas após a ascensão do governo fascista.

No filme, Evey tem um irmão, que morre doente num hospital. Os pais dela são ativistas políticos, que são presos e exterminados pelo governo.

O trabalho de Portman também é muito bom e segura o filme em diversos momentos.

Logo nas primeiras páginas de V de Vingança, vemos Evey tentando ganhar a vida, em sua primeira noite como prostituta, e tudo dá errado. No filme, ela está indo ao encontro de um amante mais velho, Gordon. O resultado é similar, mudam as motivações.

V de VingançaO Gordon do filme é um famoso apresentador, produtor de TV, que esconde diversos segredos em sua casa, tanto sobre sua personalidade, quanto sobre seus interesses culturais. Na minissérie ele é um contrabandista de bebidas, envolvido com outros criminosos. Todo este outro contexto foi removido da película.

Para os leitores que conhecem bem a série, o que incomoda mais são os detalhes, ou melhor, a ausência deles. Nos quadrinhos tudo se relaciona com a letra V ou com o numeral romano cinco ("V"). O espectador descobre sobre a sala V, mais por conta do próprio V, do que pela investigação de Finch e o diário de Délia.

O filme mantém algumas citações, como a frase em latim de Fausto ("vi veri veniversum vivius vici"), mas passa por cima de muitas outras. Na seqüência com o bispo, a fala de V é diferente da dos quadrinhos, nos quais ele cita um trecho de Sympathy for the Devil, música dos Rolling Stones.

V de Vingança

A espécie extinta de rosas, Violet Carson, se transformou, no filme, em Scarlet Carson, outra referência com a letra V que foi perdida. E nem mesmo a placa da Victoria Station, famosa estação do metrô londrino, que tem papel importante no gibi, é mostrada.

Nenhum destes detalhes é fundamental para a história, mas a pergunta que fica é: se a cena foi incluída, porque excluir os detalhes que poderiam enriquecê-la?

Se você estranhou a ausência de créditos para Alan Moore nos cartazes ou nos créditos do filme, é porque o autor inglês brigou com a Warner e com o produtor Joel Silver, e exigiu que seu nome fosse eliminado de tudo. Nem mesmo a sua parte em dinheiro ele quis, entregando tudo ao desenhista. Para quem acompanha a carreira de Moore, este incidente não é de se estranhar.

Apesar de todas as diferenças, V funciona como espetáculo cinematográfico. É agradável e instigante, apesar de estar longe da qualidade da série original.

V de Vingança

V de Vingança tem outros nomes importantes no elenco, como Stephen Rea como Finch; John Hurt, como o chanceler fascista Adam Sutler (nos quadrinhos seu sobrenome era Susan).

Curiosamente, John Hurt fez o papel principal, mas diametralmente oposto, no filme 1984, adaptado do livro de George Orwell, e que foi uma das referências importantes na criação da história de V.

A direção de James McTeigue é meramente competente, sem nenhum arroubo de elegância ou sutileza.

V de Vingança, a minissérie em quadrinhos, foi lançada originalmente pela editora Globo, em 1989, e posteriormente em dois volumes da Via Lettera. Este ano será republicada pela Panini Comics.

V de VingançaV de Vingança



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