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O Professor Lorenzon e o Zé Marmiteiro: o humor na imprensa paulistana dos anos 40 a 60
Ficha Técnica
Título: Humor e Populismo: O desafio diário nas charges
de Nelo Lorenzon (1948 a 1960)
Autora: Andréa de Araújo Nogueira
Orientação: Prof. Dr. Antonio Luiz Cagnin
Local: Universidade de São Paulo - Escola de Comunicações
e Artes
Área de Concentração: Comunicação e Estética Audiovisual
Data: 06/04/2005 |
Por Sonia M. Bibe Luyten
Quem foram Nelo Lorenzon e Zé Marmiteiro?
Dois desconhecidos da grande maioria dos estudiosos do humor visual da
imprensa. Pode-se contar nos dedos quem já ouviu falar deste artista e
seu personagem, que tiveram um papel muito importante no cenário político
brasileiro e ficaram esquecidos na memória do País. Este foi, no entanto,
o desafio da pesquisadora Andréa de Araújo Nogueira em sua tese
de Doutorado que ganhou o prêmio HQ Mix de Melhor Tese de
2005.
Com uma bibliografia impecável, com mais de 100 autores, nove teses, oito
catálogos, dez coleções de jornais, acervos de bibliotecas e institutos,
além de uma metodologia para ninguém botar defeito, Andréa coloca à luz
algo de que os historiadores têm fugido há muito tempo: as charges e livros
ou artigos que se dedicaram ao jornalismo gráfico, "atribuindo mais estudos
na tarefa de explicar sua total negligencia para com o objeto do que efetivamente
pesquisá-los", como ela se refere em seu estudo.
Andréa resgatou o nome de Nelo Lorenzon "como se recebesse de presente
o fio de Ariadne" com o qual pôde recuperar o caminho do labirinto ao
resgatar um nome que teve um papel contundente na linguagem do humor por
meio de Zé Marmiteiro.
Este simpático personagem era um tipo comum, uma figura bonachona, vestia
roupa de operário, um macacão azul remendado, uma chave no bolso, uma
marmita (daí o seu nome), mas que evidenciava a ambigüidade do discurso
político, dia após dia, quanto à insensibilidade dos representantes eleitos
pelo povo diante dos problemas cotidianos em nosso país.
Por meio dele, Lorenzon desestabilizava totalmente a autoridade de diversos
políticos brasileiros, como Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek
e Adhemar de Barros.
O nome do personagem tem uma origem que está presente na história política
do Brasil a partir das eleições de dezembro de 45, quando o político Hugo
Borghi, que havia participado do movimento queremista, favorável à manutenção
de Getulio no poder, se empenhou na campanha do general Eurico Gaspar
Dutra (PSD).
Aproveitando-se de um discurso realizado no Teatro Municipal do Rio
de Janeiro pelo candidato Eduardo Gomes (UDN), que declarara não precisar
dos votos da "malta de desocupados que freqüentavam os comícios de Getúlio
Vargas", Borghi inverteu o pronunciamento, destacando que o termo "malta"
designava também grupos de operários que percorrem as linhas férreas levando
suas marmitas - os marmiteiros. Ou seja, grande parte da população de
baixa-renda.
A figura do marmiteiro, associada aos problemas da precária condição alimentar
e assistencial ao trabalhador, torna-se assim um elemento de resistência
política. O sucesso do "marmiteiro" foi tão grande que, em 1948, o cartunista
Nelo Lorenzon publicou seu personagem na Folha da Noite, que era
dirigida na época por Nabantino Ramos.
O importante é que o grupo Folhas, percebendo a compreensão da
articulação de Zé Marmiteiro e a ideologia populista, utiliza a
presença do personagem como parte de estratégia num momento histórico
de formação de uma nova demanda social, que começava a se destacar no
mercado consumidor, consciente de sua representatividade política.
Nesta ocasião, o jornal, aliado ao desenvolvimento técnico da grande imprensa,
especialmente da utilização do recurso cromático, que contribuiu para
ressaltar os elementos contraditórios do discurso político, destacava
a charge em meio às manchetes, ocasionando um imenso poder de comunicação.
Zé Marmiteiro e Lorenzon
Nelo Lorenzon foi professor de Português (cargo que exerceu no Ginásio
Estadual de Araras, onde Luiz Antonio Cagnin foi seu aluno) e no Colégio
Fernão Dias Pais, onde o cartunista Laerte foi também seu discípulo),
mas nem por isso deixou de dar vida ao seu personagem.
Zé Marmiteiro era um operário que falava o português do jeito do
povo, provocando grande identificação com o público leitor. O Professor
Nelo utilizava a linguagem jogando com as palavras, transformando o "falar
errado" em argúcia, parodiando a retórica política. Os diálogos, nas legendas,
se apresentavam em dois grupos. No primeiro, atuavam os personagens urbanos:
lavadeiras, operários, donas de casa e professores. Neste discurso, Nelo
elaborava os argumentos de Zé Marmiteiro de maneira a evidenciar, explicar,
tornar compreensível ou satirizar uma determinada questão. A charge exerce,
neste caso, uma função didática, evidenciando a proposta "orientadora"
de Lorenzon.
O segundo grupo, em contrapartida, é composto por personagens instituídos
de poder econômico ou político, além dos comerciantes estabelecendo a
linguagem de forma irônica para desestabilizar o conceito de autoridade.
A autora Andréa de Araújo Nogueira é formada em História pela USP
e estudou charges também no Mestrado, feito no Instituto de Artes da
Unesp (Universidade Estadual Paulista). Seu trabalho de Mestrado
focou a figura de Belmonte, criador do Juca Pato, trabalhando com
a produção de suas charges, as primeiras da Folha da Manhã, em
1925.
Atualmente, Andréa trabalha na programação do Sesc Pompéia, em
São Paulo, mesmo local onde recebeu o troféu HQ Mix.
Destaques do trabalho
1) Originalidade do tema nunca antes pesquisado.
2) Bibliografia ampla que dá destaque a autores de renome e fonte para
outros pesquisadores.
3) Linguagem limpa, fluida, profícua e objetiva.
4) Iconografia de bom porte dando destaque ao personagem dentro do período
analisado, num tratamento elogiável de todas as imagens, com identificação,
data e referências no texto.
5) Anexo da tese com entrevistas que enriqueceram o texto.
6) Apresentação histórica do período analisado numa verdadeira aula sobre
o assunto.
7) Contribuição significativa para análise da imprensa paulistana.
           
Resumo
A pesquisa tem como objetivo compreender o significado do humor na imprensa de 1948 a 1960, especificamente da charge, como manifestação comunicativa, inserida no processo histórico brasileiro do movimento político que se estabeleceu ainda no Estado Novo e prevaleceu nos governos democráticos seguintes até 1964.
O populismo, entendido como forma de organização do poder, manifestado na ambigüidade do discurso político autoritário e paternalista é analisado como argumento das charges de José Nelo Lorenzon publicadas na Folha da Noite de 1948 a 1960, corpus e objeto do trabalho.
Para sua melhor fruição, a análise perpassa os elementos do contexto social e político, identificando os motivos que levaram alguns dos fatos e personagens a serem escolhidos para evocarem o riso ou a indignação.
O trabalho de Nelo Lorenzon revelava seu desafio diário de atender aos propósitos do discurso liberal defendido pelas Folhas de um lado e, do outro, os problemas e anseios das camadas populares no processo do desenvolvimento econômico, na década de 50 do século XX.
A característica da produção artística de Nelo se encontra no complexo processo de transição da liberdade do traço e da irreverência verbal, em meio à transformação dos recursos técnicos que propiciavam uma nova percepção do leitor. Retomam-se as contradições da cultura.
Abstract
The research aims to understand the meaning of the humor of the press from 1948 to 1960, specifically of the cartoons, as a communicative demonstration, inserted in the historic process of the Brazilian politic movement, which was established since the "Estado Novo" (New State) and which prevailed in the succeeding democratic governments up to 1964.
Populism, understood as a form of organization of the power, demonstrated in the ambiguity of the authoritarian and paternalistic politic speech is analysed as a subject of the cartoons of José Nelo Lorenzon, published by Folha da Noite newspaper from 1948 to 1960, corpus and purpose of the work.
For a greater enjoyment of the purpose, the analysis goes beyond the elements of the social and politic context, identifying the reasons which led some of the facts and the personage to be chosen to evoke laugh or outrage.
The work of Nelo Lorenzon did reveal his daily challenge of taking into account the intention of the liberal discourse supported by the Folhas on one hand and, on the other, the problems and desires of the popular stratum in the process of economic development, in the 1950's.
The feature of Nelo's artistic production is found in the complex
process of transition between liberty of stroke and verbal irreverence,
within the transformation of the technical resources, which resulted
in a new perception of the reader. Contradictions of the politic
culture of the period are resumed, which are present in the strategy
of the Folha da Manhã S.A. enterprise, to increase and warrant
its limits and its hegemony in the market, in search of identity
and of "rediscovering of the popular", as a discourse of politic
legitimization. |
Sonia M. Bibe Luyten é
Mestre e Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo. Na ECA/USP, em 1972, iniciou de
forma pioneira o curso de Histórias em Quadrinhos. No Brasil foi professora
de diversas faculdades de Comunicação de 1972 a 1984. Lecionou como professora
convidada das Universidades de Estudos Estrangeiros de Osaka, Tóquio e
Tsukuba, no Japão (1984-1987); da Universidade Real de Utrecht, na Holanda
(1993-1996); e na Universidade de Poitiers, na França (1998-1999). É autora
dos livros Comunicação e Aculturação, O que é História em Quadrinhos,
Histórias em Quadrinhos - Leitura Crítica, Mangá, o poder dos quadrinhos
japoneses, Cultura Pop Japonesa: mangá e animê. É colaboradora do Universo
HQ com a coluna especializada Quadrinhos pelo Mundo. Foi orientadora e
membro de Banca em Teses de Mestrado sobre Histórias em Quadrinhos e Mangá
no Brasil e Holanda. Recebeu vários prêmios, como o Troféu Romano Calise,
em Lucca, na Itália, como melhor tese acadêmica na área de Histórias em
Quadrinhos, o HQ Mix (1988, 1991 e 1999), o MangaCom (2000), o Angelo
Agostini (como Mestre dos Quadrinhos Brasileiros, em 2006). Foi professora
e Coordenadora do Mestrado em Comunicação da Universidade Católica de
Santos (2000- 2005) e atualmente é pesquisadora independente.
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