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Quando Patópolis foi à guerra
Os personagens Disney participaram ativamente da Segunda Guerra Mundial, mas não atenderam apenas aos interesses dos Estados Unidos
Por Marcus Ramone
(07/03/07)
Em 1941, Walt Disney iniciou uma peregrinação pela América Latina, como
parte da política de boa vizinhança adotada pelo governo dos Estados Unidos
desde o início dos anos 1930. A viagem também carregava o claro objetivo
de angariar a simpatia dos países candidatos a integrar o grupo dos Aliados
na Segunda Guerra Mundial. Foi desse caldo de interesses político-militares
que surgiram personagens como Zé Carioca (Brasil) e Panchito (México).
A partir daí, as criações de Disney participaram de vários longas e curtas-metragens
de animação com propaganda de guerra, como A Face do Führer, estrelada
pelo Pato Donald, que em 1943 ganhou um Oscar de melhor desenho
animado.
Essa fase belicista das animações da Disney tem ainda um significado
especial para os fãs de Carl Barks: esse foi um dos principais motivos
que fizeram o artista pedir demissão daqueles estúdios e, pouco depois,
ingressar no universo dos patos nos quadrinhos e se tornar um dos maiores
nomes da nona arte. Mas isso é uma outra história.
Saiba, agora, um pouco mais sobre a participação dos personagens Disney
na Segunda Guerra Mundial.
Produção em massa
Tudo
começou em 1939, quando a Marinha dos Estados Unidos encomendou aos Estúdios
Disney a criação de uma logomarca para o recém-fabricado navio de
guerra U.S.S Wasp. O desenho de uma vespa com luvas de boxe fez sucesso
entre os militares e atraiu a simpatia dos civis.
O resultado foram novas encomendas. Até o final da Segunda Guerra, em
1945, mais de 1200 cartazes, pôsteres, ilustrações, logomarcas e até mascotes
foram feitos para o chamado esforço de guerra, excluindo-se ainda da conta
os já mencionados desenhos animados, muitos dos quais de cunho "educativo"
direcionados à população em geral. Os Estúdios Disney dedicaram
cerca de 90% de suas instalações, maquinários e funcionários para criar
tudo isso.
Como as preocupações também recaíam sobre a saúde dos soldados, em 1944
a Disney chegou a produzir uma animação sem censura sobre as doenças
venéreas, exibida nas guarnições norte-americanas espalhadas pelo
mundo.
A
esmagadora maioria de todas essas criações para várias mídias apresentava
os famosos personagens Mickey, Donald, Pateta e muitos outros que gozavam
de fama e prestígio na época.
Mas não foram só os Estados Unidos que convocaram os personagens Disney
para suas "tropas". A Inglaterra e a Nova Zelândia, por exemplo, encomendaram
emblemas e até pinturas para o nariz dos aviões de combate, surgindo daí
o termo noise art (arte de nariz).
Até no Canadá, logo após a declaração de guerra do país contra a Alemanha,
foi criado um comitê para angariar fundos em favor das forças armadas.
Os doadores recebiam em troca um certificado ilustrado com um desenho
do Mickey e do Pato Donald, produzido pela Disney nos Estados Unidos.
Graças a essa dedicação aos assuntos de guerra, os Estúdios Disney
foram acometidos por uma neurose e desconfiança de tudo e de todos, que
culminou na criação de uma cartilha de regras e conduta para os seus funcionários.
Entre as determinações estava a de que ninguém podia levar parentes ou
amigos para visitar as dependências dos estúdios, que viviam fortemente
protegidos como uma base militar.
A rigidez dos termos da cartilha incluía burocracias para coisas simples,
como colocar um recado no mural. Para fazer isso, os funcionários precisavam
preencher um formulário no qual escreviam o texto que gostariam de ver
divulgado, o qual, se aprovado pela alta administração, seria afixado
no quadro de avisos em uma folha de papel padrão. Tudo porque imperava
ali o medo de espionagem, e evitava-se a facilidade de troca de "mensagens
em código" entre possíveis agentes infiltrados.
Nas fileiras do inimigo
Assim como os Aliados utilizaram a força que a imagem do camundongo Mickey
e de seus amigos representavam, alguns países inimigos foram à carga com
as mesmas armas.
Segundo o historiador norte-americano Bruce B. Herman, perito em antiguidades
militares, há registros de um piloto alemão nazista que pintou uma imagem
do camundongo da Disney em seu avião.
E ainda foram mais além, na Alemanha: produziram um desenho animado em
que os principais personagens Disney aniquilavam a população de
cidades da França com bombas lançadas de aviões, sob o pretexto de libertar
o país do jugo alemão.
Isso tinha o objetivo de causar ojeriza àqueles personagens que serviam
de propaganda dos Aliados, ao mesmo tempo em que plantavam entre a população
inimiga a semente da dúvida sobre as ações de seus soldados.
Essa animação pode ser vista no DVD Cartoons for Victory (Cartuns
pela Vitória), lançado
no ano passado nos Estados Unidos.
Criações da Disney foram usadas até mesmo em operações secretas.
A mais famosa e significativa delas foi o Dia D, no qual tropas aliadas
desembarcaram na Normandia, região da França, dando início a um ciclo
de combates que culminaria com o fim da Segunda Guerra. Historiadores
confirmam que a senha para a ordem de desembarque era... Mickey Mouse.
O livro Toon at War - World War II Disneyana Collectibles, escrito
pelo norte-americano David Lesjack e recém-lançado nos Estados Unidos,
é uma boa indicação para quem deseja se aprofundar neste assunto histórico.
Em mais de 200 páginas, informações curiosas se juntam a centenas de imagens
raras dos mais diversos itens relacionados à incursão da Disney
na Segunda Guerra Mundial.
Quadrinhos
Os gibis Disney, é claro, também fizeram sua parte na guerra. Nesse
período que deu início aos quadrinhos
atômicos, em que personagens de HQ ajudavam a entender e dominar o
medo sobre questões nucleares, a empresa contribuiu com aventuras do Pato
Donald, Mickey, Pluto e muitos outros, principalmente na revista Walt
Disney Comics and Stories, ainda hoje em circulação nos Estados Unidos.
As histórias - e mais ainda as capas das edições - abordavam em demasia
o momento tenso por que passava o mundo, e eram sempre vistas sob uma
ótica caseira, mostrando a escassez de produtos (incluindo alimentos)
decorrente da guerra.
Eram comuns aventuras que mostravam os personagens cuidando daquilo que
se convencionou chamar de "jardins da vitória" (pequenas plantações cuja
colheita servia para a própria família ou, fosse o caso, para enviar aos
soldados aliados).
Em tempos de paz, soa estranho imaginar que por trás de simples histórias
em quadrinhos estavam ordens editoriais (e governamentais) para envolver
crianças em graves problemas que alguns milhares de adultos armados andavam
criando mundo afora.
O curioso é que, mesmo enquanto usavam essa galeria de personagens a favor
de suas tropas ou contra os Aliados, os países do Eixo proibiram a circulação
de quadrinhos Disney em seus territórios.
A exceção coube à Itália, por um motivo tão simples quanto irônico: o
ditador fascista Benito Mussolini era fã declarado dos personagens de
Walt Disney.
Marcus Ramone não é ditador fascista, mas também
é fã declarado dos personagens Disney
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