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O Major: novo webcomic nacional promete ação e adrenalina

Por Pablo Casado (22/05/07)

O MajorEm 2005, Hector Lima, DJ e redator freelancer da Baixada Santista, ganhou destaque no Universo HQ após sua autopublicação no exterior com Zombingo - coletânea de HQs de horror encabeçada por ele mesmo e outros autores nacionais, publicada pela editora ComixPress.

Após um hiato de quase dois anos, Hector está de volta. Ao lado do casal Irapuan Luiz (arte) e Michelle Fiorucci (letras), com quem trabalhou em Zombingo, ele decidiu investir numa série em quadrinhos voltada especialmente para a Internet: O Major.

Estrelada pelo super-soldado Ed Baker, recém-promovido ao posto que dá título à HQ, a série promete uma tempestuosa mistura de ação, espionagem, super-heróis, conspiração política e crítica social. Algo que o leitor poderá acompanhar semanal e gratuitamente no site oficial do gibi.

A iniciativa de Hector de levar sua publicação para a Internet não é novidade. Nos Estados Unidos, é uma realidade para dezenas de artistas independentes que encontraram na rede um modo de divulgar sua arte e, inclusive, viver dela - com a venda de produtos relacionados às HQs e cliques em links e banners de anunciantes em seus respectivos sites.

Em entrevista ao Universo HQ, Hector e Irapuan falam sobre a concepção da série, a publicação em português e inglês (pela editora KomikWerks) e o que os leitores podem esperar.

Universo HQ: Como surgiu a idéia que deu origem ao Major?

Hector Lima: Se não me engano, foi quando o Abmael MC perguntou se eu não queria co-escrever um roteiro com seu personagem Capitão Esperanza. Teria que fazer um personagem americano para atuar em conjunto com ele. A HQ nunca saiu, mas gostei tanto de realizar o sonho nerd de fazer uma história de super-herói que resolvi continuá-lo em desventuras próprias.

As idéias começaram a pipocar conforme fui misturando o que já havia lido do gênero a algumas coisas que gostaria de fazer. Entraram notícias do mundo atual, essa guerra do Ocidente versus o Oriente que nunca termina, a oportunidade de comentar sobre um império em decadência - e como ele se relaciona com o resto do planeta - na forma da mitologia condensada dos quadrinhos.

O Irapuan vinha me falando sobre tentar fazer algo mais pop, que mostrasse o quanto a gente ama super-heróis, contar uma história movimentada e aí a coisa foi acontecendo.


UHQ: Algum motivo em particular para apresentar diversas referências a personagens e contextos da popesfera?

O MajorHector: Além do inegável prazer do plágio? Várias! Encaro essa série como mais ou menos um disco feito com samples de outras músicas. Sei que isso parece pós-moderno demais - ou "picaretagem", como diriam algumas pessoas que pararam de ouvir música no século passado -, mas O Major pra mim é uma tentativa de desconstrução e reconstrução do super-herói patriótico, o homem-bandeira, o super-soldado.

As referências que já apareceram e aparecerão foram o jeito como as idéias se organizaram na minha cabeça na hora de comentar a situação política mundial desse começo de século e, ao mesmo tempo, fazer uma história de ação divertida.

É também um comentário sobre esse sub-gênero "capitão americanístico" dentro das HQs de heróis, quase da mesma forma como o
Supremo do Alan Moore foi uma desconstrução da mitologia do Super-Homem. Claro, guardadas as devidas proporções literárias e capilares.

No meio do primeiro roteiro, eu parei. Estava preocupado com as comparações com o agora falecido Capitão América, que sei que viriam uma hora ou outra. Então, sou o primeiro a assumi-las. Afinal, todo mundo quando começa, deixa vazar as influências do que gosta no próprio trabalho.

O único problema, e que tenho com os filmes do Tarantino, por exemplo, é quando a referência é mais importante que a mistura nova final; isso eu tenho evitado conscientemente.

E hoje tudo faz referência a algo. Não sei como funcionaria um filme do Capitão América se há seis anos vemos as aventuras dele na TV como Jack Bauer. Quem diria nos anos 60 que se você misturasse
O Médico e o Monstro com Frankenstein e o medo atômico daria no Hulk? E que Joe Simon e Jack Kirby conseguiriam criar um herói patriótico quando já havia o Shield, da Archie Comics?

Então, o Major é meu jeito de remixar todas essas idéias, mas na minha visão pessoal de brasileiro, que nasceu no fim da Ditadura Militar.


UHQ: Por que optou pela publicação em forma de quadrinhos online?

Hector: Originalmente, o Major foi apresentado a algumas editoras norte-americanas (ainda gosto de você, Erik Larsen!) e era pra ter saído pela APA. Mas quando percebi que estavam enrolados sabe-se lá com o quê, pulamos fora e fomos muito bem recebidos pelo Patrick Coyle na KomikWerks, uma das maiores pontas-de-lança dos webcomics de língua inglesa.

Mesmo que eles não quisessem o gibi, eu iria pra net de qualquer forma, no TheMajor.org - onde a versão em português está sendo seriada. Meu café da manhã é ler notícias do mundo das HQs todo dia e, de uns tempos pra cá, começaram a aparecer muitas novidades sobre
webcomics, que é hoje o meio ideal pra se descobrir novos autores. Tanto que várias séries viraram álbuns por editoras conceituadas e alguns autores estavam simplesmente vivendo exclusivamente de suas HQs na Internet.

Eu já havia tido uma pequena experiência com isso com meu finado site Escritório Noturno e ao vender
downloads do Zumbingo quando a minúscula tiragem de papel que rodei acabou. Um cara no Japão chegou a comprar, nunca ia imaginar.

Por razões contratuais não posso vender
download do Major por minha conta, mas imagino que a KW logo dará um jeito nisso, porque já estão surgindo vários "iTunes de HQ".

O Major Muitos autores e editores brasileiros acham ainda que não vale nada ir pra Internet, que o gibi perde a exclusividade do papel e ninguém quer pagar por ele se está disponível "de graça" - como é o caso do Major.

Realmente essa exclusividade se perdeu, mas é para o bem: a net é só mais um caminho que surgiu pra se somar aos outros. E um meio que permite alcançar gente do planeta inteiro sem depender de uma tiragem finita em papel. É isso que as gravadoras de música e os estúdios de cinema começaram a perceber.

Recomendo a todos que leiam aqui o livro gratuito de Todd Allen,
Online Comics Versus Printed Comics e vejam como um mundo de possibilidades está à nossa frente pra ser aproveitado.

Esses são tempos de transição pra mídia de consumo, não é fácil viver exclusivamente de Internet ainda. Mas quem souber aproveitar vai chegar bem do outro lado.

A propósito, tanto na KomikWers quanto no TheMajor.org, sobrevivemos do quanto os leitores vêem os anúncios, como acontece na TV. Então, nós - e os patrocinadores - agradecemos sempre os cliques.


UHQ: O que o público pode esperar da série?

Hector: Graças à mágica da arte do Irapuan e às letras de sua esposa Michelle, os leitores ficarão com a gengiva formigando ao ver belas imagens com muita ação, drama, suspense, tiros, socos, voadoras e explosões.

Mais especificamente: uma grande conspiração política feita de reviravoltas, terroristas, espiões, piratas voadores no México, alienígenas em Madagascar, nazistas americanos, uma nação
online independente, dinheiro sujo, distúrbios temporais e detonações atômicas. Isso pra começar.

UHQ: Irapuan, como você se envolveu na criação do Major?

Irapuan: Bom, desde que fiz Zumbingo com o Hector, sempre estivemos por aí bolando alguma coisa. Conversávamos sobre fazer uma proposta de super-herói e ação para apresentar pras editoras gringas, e ele me mostrou o Major, que já tinha criado havia algum tempo.

O Major A partir daí, a coisa começou a rolar, primeiro com a proposta original e, após umas idas e vindas, mudanças de editora e outros trabalhos pelo caminho, pude, com satisfação, dar seqüência ao Major para sair pelo Komikwerks.


UHQ: Quais as técnicas utilizadas na construção das páginas, já que trata-se de uma série de (muita) ação?

Irapuan: É verdade! A pancadaria rola solta. Essa sempre foi uma das nossas idéias para a série. Então, sempre tento criar layouts dinâmicos e usar ângulos dramáticos para valorizar esse aspecto, mas mantendo uma coerência pro leitor não se perder.

Tentei manter a balança entre a estética dos quadrinhos atuais e uma diagramação mais ousada, com certos recursos narrativos nem sempre usados hoje. Muitas cenas demandaram vários estudos e esboços à parte. Como a cena da explosão de uma antena. Esse de tipo de seqüência dá um trabalhão. Culpa do Hector!

Por isso, da minha parte, quero continuar a dar o máximo nas páginas para manter a adrenalina em alta. E como o Hector disse, ainda tem muita coisa legal pra acontecer. Pode ter certeza: as coisas vão ficar cada vez piores para o nosso Ed.


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