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Como os mangás estão influenciando o mercado de quadrinhos dos EUA
Por Marcus Ramone (23/04/07)
Não
é nenhum segredo que os mangás invadiram os Estados Unidos há anos e continuam
fazendo sucesso por lá.
Até mesmo editoras de gibis de super-heróis já se renderam ao estilo japonês de fazer quadrinhos, utilizando artistas adeptos desses traços marcantes nos títulos de linha, além de versões em mangá de personagens famosos das HQs e de outras mídias, como Spawn, Withcblade, Sandman e Star Wars, só para citar alguns.
A Marvel chegou ainda a criar um universo alternativo dedicado a isso, o Mangaverso, no qual heróis como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e muitos outros eram retratados com aqueles olhos esbugalhados e bocas enormes tradicionais do modelo nipônico, embora os mangás estejam longe de ser limitados a esse tipo de característica.
Mas
o que vem acontecendo na terra do Tio Sam é muito mais do que se possa
chamar de casos isolados ou passageiros da presença do mangá naquelas
paragens. A influência dos quadrinhos e desenhos animados nipônicos (o
Cartoon Network está recheado de exemplos disso) já se enraizou
de forma indelével nesses respectivos nichos do mercado da cultura pop
norte-americana.
No que concerne à nona arte, a quantidade de títulos em mangá publicados atualmente nos Estados Unidos só não é maior do que no Japão. Entre 2002 e 2005, o mercado norte-americano de mangás triplicou (ao contrário de uma queda acentuada que vem acontecendo no Japão), movimentando nada menos de 180 milhões de dólares, segundo informações divulgadas recentemente em um artigo da revista Time.
Por isso, além de editoras antigas que aderiram à produção de mangás próprios ou reeditam os originais japoneses, surgiram outras exclusivamente para esse fim, como é o caso da Tokyopop, a maior do segmento nos Estados Unidos, que publica cerca de 400 títulos por ano - dos quais mais de 300 são criações próprias.
Foi
também graças à invasão dos quadrinhos japoneses em um território antes
dominado pelos super-heróis, que grandes editoras como Marvel e
DC passaram a publicar gibis direcionados ao público jovem feminino.
Isso porque os shojo, mangás feitos para garotas, fizeram a cabeça das jovens e promoveram um fenômeno antes inimaginável nas comics shops norte-americanas: a presença maciça de meninas adolescentes vasculhando as prateleiras em busca de seu gibi preferido. Essas gibiterias agora possuem grandes espaços reservados especialmente para esse estilo de HQ, cujas mais vendidas são Peach Girl e Paradise Kiss.
É um segmento de mercado no qual Marvel e DC já se aventuram nos anos 1960 e 1970, mas de forma não muito eficiente.
Na
época, pululavam gibis com temática romântica, reduzindo a isso o que
as editoras pareciam entender ser o único interesse das leitoras de quadrinhos.
Por sua vez, os shojo tratam de assuntos como crises existenciais,
conflitos de gerações, drogas, alcoolismo, menstruação, sensualidade e
até homossexualismo, além do romantismo que não poderia faltar nesse caldo
de sentimentos e situações vividos por adolescentes de qualquer parte
do mundo.
Outro dado interessante sobre os mangás nos Estados Unidos é que as produções caseiras vendem, em média, quase o dobro da quantidade que os títulos traduzidos dos originais japoneses conseguem alcançar. Isso fez com que se abrisse uma nova "frente de trabalho", já no início da década atual, e muitos novos autores vêm despontando nesse cenário.
Há poucas semanas, surgiu uma discussão que ganhou certa repercussão em sites, blogs e fóruns na grande rede nos Estados Unidos: a adoção do tamanho dos mangás ou de outros formatos de menor custo nos gibis mensais, em detrimento do prestige (formato americano), como alternativa para tornar os preços dos comics mais acessíveis. Isso implicaria não apenas na redução do tamanho, mas na mudança do tipo de papel usado nas revistas de super-heróis, por exemplo.
Isso
mesmo! O que no Brasil seria sinônimo de retrocesso, nos Estados Unidos
está sendo apontado, embora sem muita pretensão, como uma possível solução
para reaquecer as vendas de quadrinhos naquele país.
Claro que essa discussão não resultará em muito mais do que meros exercícios de imaginação e, com toda a certeza, nada irá mudar no mercado norte-americano, como as oposições ferrenhas de muitos leitores e chefões de editoras de quadrinhos tradicionais bastam para confirmar isso (e aqui mesmo no Brasil já se sabe, por experiência, que nem sempre tamanho reduzido e "preço de banana" garantem o sucesso nas vendas).
Mas não deixa de ser curioso que tal alternativa esteja sendo cogitada e disseminada nos Estados Unidos. E tudo por causa desses gibis que saíram do Japão, seduziram e dominaram o mundo de forma amistosa e ainda ousaram influenciar o maior mercado consumidor de quadrinhos do planeta.
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