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Empresas no Brasil investem em quadrinhos para funcionários e clientes
Por Marcus Ramone
(26/03/07)
Todo
mundo sabe, ou pelo menos deveria saber, que os quadrinhos são algumas
das ferramentas pedagógicas mais poderosas usadas em salas de aula, ajudando
crianças a melhor receber informações e reter conhecimentos.
Mas isso não está restrito apenas ao mundo infantil. Comprovadamente,
adultos não se interessam por quadrinhos se já não possuíam esse hobby
em sua infância, mas sentem-se atraídos e perdem o preconceito pelos gibis
quando, em seu local de trabalho, são apresentados aos quadrinhos institucionais
e entendem com muito mais facilidade as mesmas informações que costumavam
ser passadas por circulares, e-mails, slides e outros veículos "sem alma".
Essa constatação é fruto de pesquisas realizadas por empresas de todo
o Brasil que cada vez mais vêm utilizando gibis para transmitir informações
sobre assuntos organizacionais aos seus funcionários.
Imagine um segmento dos quadrinhos brasileiros em que os autores ganham
bem pelo trabalho, são reconhecidos e suas produções às vezes alcançam
uma tiragem muito maior do que as das quase sempre imbatíveis HQs de super-heróis.
A demanda é grande, o filão demonstra ter muito a ser explorado, os custos
são baixos e toda a produção, por ser encomendada e com distribuição gratuita,
não depende de nenhum resultado de vendas. Parece um sonho, mas isso existe.
Antes concentrados no universo infantil, com temas informativos e educativos
relacionados a esse público (vide os que a Mauricio de Sousa Produções
costuma produzir com os personagens da Turma da Mônica) e promovidos,
via de regra, por órgãos públicos, os quadrinhos institucionais entraram
de vez no mundo corporativo.
É fácil encontrar grandes empresas como Gessy Lever, Empax, Bompreço,
Extra e tantas outras distribuindo internamente (e em alguns casos
para os seus clientes) revistas em quadrinhos sobre norma ISO, segurança
no trabalho e diversos temas pertinentes a essas organizações.
Um caso bastante emblemático sobre o poder de comunicação dos quadrinhos
é o da Graber, uma prestadora de serviço de segurança patrimonial
de São Paulo. Na empresa circula o gibi Se Liga, Vig!, que em cada
edição trata de um assunto diferente. Em uma delas, ao explicar por intermédio
dos personagens Zeca e Silva o uso correto do Serviço de Atendimento ao
Vigilante, caiu para menos de 5% o número de chamadas sobre assuntos indevidos
feitas pelos vigilantes para a linha telefônica 0800. Antes, o índice
era de espantosos 90%.
Ao contrário do que possa parecer, a linguagem dos gibis institucionais
em tom de humor e com desenhos infantis não afasta os leitores adultos
pouco afeitos a HQs. Um bom exemplo disso aconteceu recentemente na Flu
Look, rede de óticas sediada em Maceió, Alagoas.
A empresa foi a primeira do segmento no Brasil a receber a certificação
ISO 9001, e é considerada benchmark do setor no quesito Qualidade
Total. Mesmo com toda essa bagagem e valendo-se dos mais variados recursos
de novos e antigos modelos de gestão baseados em QT, a Flu Look
resolveu apostar na simplicidade dos quadrinhos e distribuiu aos seus
funcionários, em todos os níveis hierárquicos, a HQ O Caminho da Qualidade
- produzida pela Montandon
& Dias Comunicações e Editora, de São Paulo, na qual os preceitos
da ISO 9001 são explicados por uma mascote que expõe a importância dessas
normas para a sobrevivência de uma empresa e o crescimento profissional
dos que nela trabalham.
"Fizemos uma pesquisa e comprovamos a força da mídia quadrinhos. Depois
de ler o gibi, alguns funcionários afirmaram que conseguiram entender
melhor o que antes, para eles, era apenas um emaranhado de conceitos sem
muito sentido prático; outros chegaram a sugerir que nosso jornal informativo
tenha quadrinhos mensais sobre esse e outros assuntos relacionados ao
Sistema da Qualidade", disse Alessandra Nutels, diretora de Marketing
da Flu Look. "O resultado foi um maior comprometimento de todos
com nossa empresa", concluiu.
Esse é um nicho de mercado que está em ascensão. Em todo o Brasil, são
muitos os profissionais, agências de publicidade e estúdios especializados
em produzir quadrinhos institucionais para empresas privadas e órgãos
públicos.
O ilustrador paulista André Luiz é um desses especialistas. Sua atuação
no setor, além da criação de HQs desse gênero, inclui a organização de
oficinas e workshops com o título Quadrinhos como Ferramenta
de Campanhas Institucionais. Em seu site,
o artista expõe dez excelentes motivos pelos quais as empresas devem utilizar
os gibis como apoio a ações corporativas ou de marketing.
A Artecétera,
de São Paulo, também se dedica exclusivamente a essa área, e ainda encontra
tempo para produzir algumas histórias em quadrinhos tradicionais para
o gibi do Menino Maluquinho. Em seu portfólio há trabalhos para
os setores odontológico, varejista, gestão do meio ambiente, marketing,
RH e muitos outros.
O estúdio também foi o responsável pela produção da revista em quadrinhos
A
gente sabe, a gente faz, minissérie em oito edições lançada em
2005 pela Editora Globo e promovida pelo Sebrae - Serviço Brasileiro
de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, em parceria com o cartunista
Ziraldo. A publicação era um curso de vendas em quadrinhos e, em cada
edição semanal, apresentava com muito humor e didatismo um capítulo das
venturas e desventuras de uma família e sua microempresa, além de uma
história real de pessoas empreendedoras.
A grande sacada de A gente sabe, a gente faz foi humanizar os personagens
e torná-los identificáveis com seu público leitor. Mais que isso, a trajetória
do ex-jogador de futebol que se tornou dono de uma pequena empresa que
prosperava era mostrada cronologicamente. Até mesmo o envelhecimento dos
personagens e suas mudanças de atitude com o passar da idade foram mostrados.
No final das contas, a HQ - que, curiosamente, era vendida nas bancas
- foi uma boa pedida destinada não só a quem necessitava de dicas úteis
para iniciar ou incrementar seu negócio, mas também para qualquer adepto
de uma boa leitura de revistas em quadrinhos.
Mas os bons exemplos do Sebrae não se limitam a esse. A entidade
ainda utiliza os gibis 5S em quadrinhos, Manual do Programa de Qualidade
Total para Micro e Pequenas Empresas e outros em seus trabalhos de
consultoria de implantação do Sistema da Qualidade Total.
A utilização de quadrinhos e charges na divulgação de produtos e serviços
em jornais e revistas também era bastante comum até o final dos anos 1980,
mas esse recurso sucumbiu na última década diante das novas tecnologias
a serviço da propaganda.
Entretanto, alguns recentes cases publicitários
apontam para o retorno tímido dessas ferramentas no âmbito institucional,
como atestam a série de charges em anúncios da operadora Intelig;
as tiras criadas pelo cartunista Laerte para a academia de fitness
Companhia Athletica e as de Ziraldo - mesclando fotos e desenhos
- para o Banco do Brasil, entre mais exemplos.
Outros conhecidos cartunistas têm em seu currículo atuações nessa área.
Antônio Cedraz (Turma
do Xaxado) e Ruy Jobim Neto (Jarbas)
também costumam empregar sua arte em quadrinhos institucionais para empresas.
"Revistas em quadrinhos institucionais atingem um universo
bem heterogêneo de pessoas, de uma forma simples, agradável e divertida,
sem perder a seriedade dos assuntos abordados. Potencializam a assimilação
da informação e atraem muito mais do que um folder ou um informativo
só com textos, pois oferecem entretenimento aos leitores", afirmou Cedraz.
Sobre o assunto, Ruy Jobim foi enfático: "É superútil, mesmo!".
Uma utilidade, sem dúvida, válida para todas as partes envolvidas: artistas,
empresas e público-alvo.
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