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A magia dos quadrinhos no reino do carnaval brasileiro
Quando eles entram no samba, quem se diverte são os fãs. E como ninguém é de ferro (salvo algumas exceções), os personagens dos gibis fazem uma pausa para curtir o carnaval do Brasil
Por Marcus Ramone
(01/02/08)
Para qualquer leitor de HQ, falar em carnaval é lembrar do Zé Carioca.
Nascido com o visual típico de passista de escola de samba e adepto confesso
do brasileiríssimo ritmo musical, o malandro ainda é presidente da Unidos
de Vila Xurupita e estrelou tantas histórias em quadrinhos carnavalescas
quanto foi possível durante o tempo em que a Editora Abril criou
as aventuras do personagem.
O Almanaque Disney de Carnaval, lançado em 1982, marcou época com
histórias do Zé Carioca e da turma de Patópolis e oferecendo de brinde
uma máscara do papagaio caloteiro. É um dos gibis mais disputados pelos
fãs desses personagens, pois é uma rara publicação temática da Disney
brasileira sobre esse grande evento.
As HQs infantis são as que mais apresentaram (e continuam apresentando)
edições em celebração ao carnaval ou, pelo menos, histórias avulsas sobre
a maior festa popular brasileira.
Menino Maluquinho, Bolinha e Luluzinha (nas aventuras produzidas no Brasil),
Gordo, Turma do Lambe-Lambe, Os Trapalhões e diversos outros personagens
já festejaram o evento, estrelando aventuras que marcaram a infância de
muito leitor.
Mas é a Turma da Mônica que tem bastante o que contar. Foram tantos
almanaques de carnaval nas editoras Abril e Globo que ela
já se tornou mestra no assunto.
Títulos
como a Coleção Um Tema Só e Você Sabia? também apresentaram
os personagens de Mauricio de Sousa em samba, suor e fantasia. Agora pela
Panini Comics, eles dão continuidade à tradição e já caíram na
folia, desde o mês passado, com Saiba
Mais! Turma da Mônica # 5, apresentando a origem e as curiosidades
sobre o carnaval.
Para gente grande
Os quadrinhos adultos também levaram o carnaval até suas páginas. Foi
assim nos anos 1960 e 1970, épocas em que eram comuns HQs eróticas e de
terror nas quais os bailes carnavalescos ou o clima de folia serviram
de cenário e mote para as histórias.
As décadas seguintes mostraram outras HQs carnavalescas para os públicos
jovem e adulto, mas os quadrinhos infantis continuaram dominando o tema.
Das produções contemporâneas, vale destacar a do talentoso cartunista
Newton Foot, que, entre outros trabalhos de destaque, concebeu a divertida
HQ Joel Madrugada e Nêga Maluca, ambientada no carnaval do Rio
de Janeiro no início do século passado.
Mais recentemente, em 2006, o premiado quadrinhista Lorenzo Mattotti lançou
o livro Carnaval
- Cores e Movimentos, uma coletânea de ilustrações e textos sobre
a tradicional festa.
Também não se pode esquecer o que o roteirista Joe Casey fez com o mutante
Wolverine, ao levá-lo até o carnaval do Rio de Janeiro e deixá-lo desvairado
com o festival de cores e sons e, claro, as mulatas em fantasias sumárias.
A inusitada visita do personagem da Marvel ao país do samba aconteceu
no especial Rio
de Sangue, lançado no Brasil em 2001, pela Pandora Books.
Ziriguidum, balacobaco e telecoteco
Se os quadrinhos receberam o carnaval de braços abertos, também é verdade
que os personagens dos gibis costumam participar da festa e cair no samba.
E não apenas na forma de foliões fantasiados nos bailes de salão ou blocos
de rua (como o Enquanto Isso na Sala de Justiça, de Olinda, Pernambuco,
em que "Batman", "Super-Homem" e mais heróis se misturam a outras criações
dos desenhos animados e HQs infantis em ritmo de músicas carnavalescas).
Desde as primeiras décadas da história das escolas de samba, a nona arte
tem comparecido como item de alas temáticas ou carros alegóricos e até
mesmo no enredo principal.
E não é preciso voltar tanto no tempo para buscar exemplos. Somente nos
anos 2000, os sambódromos de São Paulo e do Rio de Janeiro desfilaram
os mais variados ícones das histórias em quadrinhos.
No ano passado, na terra da garoa, a Unidos do Peruche homenageou
Mauricio de Sousa e a Turma da Mônica (o artista e seus personagens
já haviam desfilado pela mesma agremiação, em 2003); e na Cidade Maravilhosa,
a Vila Isabel mostrou um carro alegórico no qual uma escultura
gigante do Super-Homem se destacava entre outras de diversos super-heróis.
Ainda no Rio de Janeiro, em 1997, a Acadêmicos da Rocinha desfilou
com o enredo A Viagem Encantada do Zé Carioca à Disney, narrando
a histórica visita do papagaio malandro à Disneylândia para comemorar
os 25 anos do parque temático.
Em São Paulo, outro quadrinhista e suas criações foram homenageados na
passarela do samba: Ziraldo, que em
2003 desfilou pela Nenê de Vila Matilde, cujo samba-enredo
daquele ano foi É Melhor Ler - O Mundo Colorido de um Maluco Genial,
destacando o Menino Maluquinho.
Também na capital paulista, a Império de Casa Verde contou com
a ajuda dos personagens de gibis quando foi campeã,
em 2005. Em dois carros alegóricos, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha,
Mônica, Senninha e outras criações das HQs estavam lá para ajudar a contar
o enredo de Se Deus é por nós, quem será contra nós?.
Mas não só dos dois grandes centros de escolas de samba vive o carnaval
brasileiro e não apenas aquelas agremiações já se valeram dos quadrinhos
para reforçar seus enredos. Em Vitória, no Espírito Santo, a Independentes
de Boa Vista participou do desfile de 2004 com um carro alegórico
dedicado aos super-heróis dos gibis.
E como o espetáculo não pode parar, o carnaval de 2008 terá mais criações
dos gibis em destaque na Sapucaí. A escola de samba mirim Aprendizes
do Salgueiro apresentará o tema Aprendizes em Quadrinhos.
Na passarela, a madrinha da agremiação será Iris Stefanelli, ex-participante
do Big Brother Brasil que, recentemente, virou uma personagem de
HQ, a Sirizinha.
Inspiração
Às vezes, a influência dos quadrinhos segue além das homenagens recebidas
em um determinado ano.
É o caso do carioca Bloco Metralhas, inspirado nos impagáveis vilões
criados por Carl Barks para a Disney.
Outro exemplo vem de São Paulo, com a X-9 Paulistana, cujo nome
é bastante familiar aos veteranos fãs de HQs. Afinal, a escola de samba
é nada menos que uma grande homenagem ao Agente X-9, espião criado em
1934 por Alex Raymond.
E o carnaval brasileiro ainda deve à nona arte algumas das marchas mais
cantadas nessa época. Isso porque o já falecido cartunista e chargista
(Antonio Gabriel) Nássara - cujo currículo inclui uma passagem pelo Pasquim
- é co-autor de A-la-la-ô e outras músicas que se tornaram clássicas.
Agora, mais uma vez o povo brasileiro se prepara para a chegada de quatro
dias de festa e descontração, coroando uma antiga relação que ainda vai
dar muito samba... ou uma boa história em quadrinhos.
Marcus Ramone não gosta de samba, mas não é ruim da cabeça ou doente
do pé.
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