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Holanda realiza exposição de histórias em quadrinhos africanas
Os pichas, como são chamadas as HQs na língua suali, mostram toda sua diversidade na terra das tulipas
Por Sonia M. Bibe Luyten, da Holanda (27/05/08)
De 26 a 31 agosto de 2008 acontecerá na Holanda, no Africa Museum,
situado numa pequena cidade chamada Berg en Dal, a 1ª
Exposição de HQ africanas.
Picha, o nome da mostra, é também a forma como são designadas as
histórias em quadrinhos em língua suali e pode ser traduzida como "desenho".
Na realidade, trata-se de uma corruptela da palavra picture, em
inglês, da mesma forma que os animês, em japonês, vem de animation.
A exposição é uma iniciativa do NCDO, uma organização holandesa
para a conscientização da cooperação internacional, que teve um peso considerável
para a realização desta mostra. Um grande grupo de pesquisadores foi responsável
pela coleta de informações e o curador Joost Pollmann é o mesmo que realiza
o famoso festival Sripdagen, a cada dois anos em Haarlem.
A
escolha do local, o Africa Museum, foi a opção ideal para a mostra.
Ele abriga em seu interior uma coleção especializada de arte africana
e, do lado de fora, há exemplos da arquitetura das coloridas casas de
Gana, Mali, Lesoto e Benin, especialmente construídas no local para que
os visitantes tenham a oportunidade de vê-las ao fazer uma caminhada por
um pequeno bosque ao redor do museu.
Para se ter uma idéia da importância do Africa Museum, cerca de
80 mil visitantes são recebidos anualmente de todas as partes da Holanda
e de países estrangeiros.
A riqueza e a diversidade dos quadrinhos africanos
A
exposição foi realizada em uma de suas dependências do African Museum
de forma criativa e didática, para que o público possa compreender e admirar
a diversidade e riqueza da cultura e arte dos quadrinhos africanos que
são, sem dúvida, um espelho da vida social e política do continente.
A mostra oferece a possibilidade de se admirar os quadrinhos originais
de 18 desenhistas - a grande estrela da exposição é a roteirista Marguerite
Abouet, autora de Aya , que foi considerado o melhor álbum de quadrinhos
no Festival de Angoulême em 2006.
Há também vários displays com revistas, álbuns, cartuns e charges
publicados em jornais e revistas.
Além disso, a mostra é uma verdadeira enciclopédia para os estudiosos
de quadrinhos, pois contém informações e pesquisa sobre mais de 140 desenhistas
e cartunistas de 55 países da África.
Este banco de dados, assim como a exposição, é muito rico, pois poucos
especialistas no assunto organizaram sistematicamente e fizeram um mapeamento
detalhado da cultura dos quadrinhos na África, como Joost Pollmann e Alain
Brezault, roteirista francês e especialista em quadrinhos de países colonizados
pela França,
Um dos objetivos desta mostra é percorrer vários países, inclusive o Brasil,
para que o mundo possa ter uma idéia do que se produz atualmente no continente
africano, mesmo com uma infra-estrutura limitada de distribuição.
A mostra dos 18 mestres dos quadrinhos africanos
Para a abertura da exposição, foram convidados três desenhistas e uma
roteirista: Adjim Danngar, do Chade; Mohammed Nadrani, de Marrocos; Jean-Claude
Ngumire, de Ruanda; e a roteirista Marguerite Abouet, da Costa do Marfim.
Todos deram entrevistas para TVs, jornais e revistas holandesas.
Além deles, outros desenhistas estiveram presentes com suas obras representando
seus países: Farid Boudjellal, da Argélia; Hector Sonon, de Benin; Barly
Baruti e Pat Masioni, da República Democrática do Congo; Ramón Esono Ebalé,
da Guiné Equatorial; Pahé, do Gabão; Didier Kassai, da República Centro-Africana;
Bob Kanza, do Congo; Kola Fayemi e Tayo Fatunla, da Nigéria; Dwa, de Madagascar;
T.T. Fons, do Senegal; Karlien de Villiers e Themba Siwela, da África
do Sul; e vários autores do Egito, cuja especialidade são os quadrinhos
infantis.
Como informação para os estudiosos, também está disponível um material
sobre a produção de quadrinhos do norte da África que é composta por dois
segmentos: os países que compõem o leste africano (como Líbia e Egito)
e o oeste (como Marrocos, Tunísia e Argélia).
Na Líbia há poucos desenhistas, enquanto no Egito, particularmente na
cidade do Cairo, há um número considerável de artistas e publicações enfatizando
em suas histórias segmentos da identidade nacional. As crianças são o
público-alvo, a começar pelo artista Mohedienne Ellabbad, que desenhou
e roteirizou a HQ Notebook of an illustrator para seus próprios
filhos tratando especialmente da temática das diferenças entre as culturas
egípcia e do Ocidente.
Os quadrinhos como um poderoso meio de comunicação e arte
A cultura dos quadrinhos africanos é florescente e bastante diversificada.
Em todos os países do continente, os desenhistas estão cada vez mais ativos
e conscientes deste poderoso meio de comunicação. Por isso, estão publicando,
fazendo mostras e festivais.
O Senegal, por exemplo, tem uma série popular de TV baseada em um personagem
dos pichas (o Googoorlu) e biografias de líderes famosos, como
Mandela, também já foram feitas em quadrinhos.
Os pichas também têm um impacto social e pedagógico em vários países,
especialmente em Moçambique, Angola e Senegal, onde ensinam os soldados
e a população a prevenir a Aids. Na política, também têm atuação preponderante,
denunciando corrupção, fraudes e formando líderes de opinião.
Hoje, há três fatores básicos que facilitam a propagação dos quadrinhos
na África: material barato, comunicação simples e eficiente e os desenhistas
não precisarem ser formados em universidades, diferentemente de outros
países europeus, por exemplo, em que é preciso ter diploma de alguma academia
de arte. Os artistas, no entanto, enfrentam obstáculos como a distribuição
e, mesmo as edições sendo baratas, o povo não tem poder aquisitivo suficiente
para comprá-las.
Joost Pollmann, o curador da mostra, encontrou no Universo HQ diversas
informações sobre os pichas. Foi na coluna Quadrinhos pelo Mundo,
assinada por esta pesquisadora. Vários trechos do artigo Histórias
em Quadrinhos da África: a pujança de um continente foram utilizados
para formar o banco de dados da exposição.
E, vendo-se a exposição, fica evidente o potencial que o mercado africano
de quadrinhos tem a desenvolver.
Sonia Luyten, além de participar da abertura da exposição e fazer
entrevistas com os autores presentes, já deu os primeiros passos para
trazer esta mostra ao Brasil
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