| |
Tex, um sessentão em plena forma
O personagem, que até hoje é o carro-chefe da Sergio Bonelli Editore, completa seis décadas de aventuras como um dos caubóis mais famosos dos quadrinhos
Por G. G. Carsan
(30/09/08)
Desde a criação das primeiras histórias em quadrinhos até os dias atuais,
é enorme a lista de heróis e super-heróis que passou pelas mãos de leitores
do mundo todo, divertindo-os, educando-os, formando sonhos e desejos,
ensinando-os as virtudes e os valores éticos. Na maioria das vezes, eles
mostram que o mal deve ser combatido e transporta quem está com a revista
nas mãos para um mundo de fantasia, onde não existem as barreiras do tempo
ou do espaço, onde tudo é possível.
Várias gerações cresceram folheando as aventuras de Capitão Marvel, Tarzan,
Fantasma, Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, Pato Donald, Zé Carioca,
Mônica, Corto Maltese, Mulher-Maravilha, Thor, Hulk, Flash Gordon, Dick
Tracy, Asterix, Zorro, Zagor e... Tex.
Tex, o caubói criado em 1948, na Itália, por Gian Luigi Bonelli e Aurelio
Galleppini, vivendo aventuras no Velho Oeste dos Estados Unidos, trilhou
um caminho de sucesso perene e ascendente, que resultou numa multidão
de fãs fiéis, fanáticos e persistentes. No Brasil, ele só estrearia em
25 de fevereiro de 1951, na 28ª edição da revista semanal Júnior,
da Rio Gráfica Editora.
E o personagem completa 60 anos de vida editorial num ambiente aparentemente
adverso, como será mostrado a seguir.
É difícil explicar como os leitores continuam consumindo um produto que
se baseia em algo que se esgotou há tempos, como é o caso da expansão
norte-americana aos territórios do Oeste. Filmes, gibis, contos e romances
já exploraram todas as histórias reais e fictícias desse período sob várias
perspectivas.
Quem, afinal, já conheceu um caubói de verdade? Ou adentrou num saloon
apinhado de vaqueiros sujos e bêbados com dois revólveres na cintura e,
ao se dirigir ao balcão, se defrontou com cinco bandidos abrindo fogo?
Quantos peles-vermelhas já encontrou até hoje, sob o risco de perder a
cabeleira? Quantos podem narrar uma viagem numa diligência sacolejante
perseguida por apaches furiosos?
Por isso, é ainda mais complicado encontrar as razões para Tex se manter
em alta num país como o Brasil, onde a distribuição das revistas não atinge
todos os pontos de venda e, sabidamente, a população lê pouco e tem dificuldade
para adquirir livros.
Segundo os "visionários" e pessimistas, o fenômeno Tex não sobreviveria
à expansão da era da tecnologia representada pela Internet, que viria
para acabar com rádio, jornais e HQs e uma porção de outras coisas. E
aí está ele, firme e forte!
Tex superou a concorrência, o tempo, o pessimismo, as inovações, as mudanças
de editora (ele teve quatro "casas": Vecchi, RGE, Globo
e Mythos) e a tecnologia. E o mais importante: tirando proveito
das qualidades de cada um desses empecilhos para se manter firme num mercado
de quadrinhos cada vez mais seletivo, exigente e mutável.
Para explicar tanto sucesso de Tex (o personagem é publicado em dezenas
de países) seria necessário evocar um apego ao passado e à aventura ou
seria simplesmente uma prazerosa fuga da realidade? Ou teria algo mais?
Alguns creditam o sucesso à política editorial da Sergio
Bonelli Editore que, preocupada com a uniformidade do personagem,
praticamente imutável no tempo, tratou de fazê-lo conviver com fatos históricos
e meras ficções da sua época. Mas sempre calcada em amplas pesquisas que
possibilitaram sempre uma áurea de verdade e confiança às suas aventuras.
Outros citam as diversas qualidades inerentes aos heróis (ética, solidariedade,
amizade, responsabilidade, coragem, bondade, honra), as habilidades físicas
e mentais (força, inteligência, rapidez, beleza, porte) e os relacionamentos
sociais (trabalho, amigos, informantes).
É inegável que tudo isso contribuiu um pouco para a longevidade do ranger.
Os adjetivos positivos foram sendo incorporados a Tex de forma gradativa,
desde o princípio de sua caminhada (até agora) sexagenária. Mas um ponto
marcante desta carreira aconteceu, sem dúvida, no episódio Um Contra
Vinte, publicado pela primeira vez na revista Júnior # 271
e depois relançado em Tex Coleção # 3, da Globo.
Foi nesta aventura, a primeira em que atuou em parceria com Kit Carson,
que Tex passou a sedimentar os degraus que o levariam a se tornar um fenômeno
editorial.
Tex nunca foi super, porque não tem superpoderes, mas a palavra herói
lhe cai tão bem quanto sua camisa amarela. Afinal, ele reúne diversas
qualidades. É um sujeito justo e companheiro (daqueles que qualquer um
gostaria de ter como pai, irmão ou amigo), com uma boa rede de amigos
espalhada pelo continente e que combate o mal e a injustiça.
E por esse tom de realidade - apesar de ele quase sempre escapar intocado
de saraivadas de tiros -, que faz Tex, mesmo sem ter nascido num planeta
distante ou adquirido qualquer dom num incidente nuclear ou com insetos,
ser considerado "super" por seus fãs. Super em longevidade, superação,
divertimento e por conseguir assegurar a paixão dos leitores e colecionadores
há 60 anos.
E em todo esse tempo quanta gente boa emprestou seu talento a Tex! Escritores
como Gian Luigi Bonelli, Claudio Nizzi, Sergio Bonelli, Giancarlo
Berardi e Mauro Boselli. Isso sem contar a galeria imensa de talentos
do traço que, na revista mensal ou em especiais, emprestaram seu traço
a Tex; nomes como: Aurelio Galleppini, Aldo Capitanio, Carlo Ambrosini,
Cláudio Villa, Ferdinando Fusco, Fábio Civitelli, Giovanni Ticci, Alfio
Ticci, José Ortiz, Ivo Milazzo, Bruno Brindisi, Jesus Blasco, Rafaelle
della Monica, Victor de la Fuente, Vicenzo Monti, Guglielmo Letteri, Joe
Kubert, Jordi Bernet, Magnus (Roberto Raviola), Goran Parlov, Guido Buzzelli,
Francesco Gambá, Erio Nicolò, Colin Wilson e tantos outros.
Agora é hora de festejar as seis décadas de lucidez e grandes realizações
deste que, para muitos, é muito mais do que um personagem. Incluindo este
escriba, pois "como Tex não há nenhum e estou muito feliz de poder fazer
parte desse momento, junto ao meu ídolo e amigo".
Este, portanto, é um momento de regozijo para editores e leitores que
desejam que o título do ranger persista por muito tempo preenchendo
os anseios aventureiros e as demandas dos fãs e colecionadores.
Viva Tex! Parabéns!
O paraibano G.G.Carsan tem 43 anos é fotógrafo, mas, com mil demônio,
se pudesse ter um desejo concedido por um gênio da lâmpada qualquer, com
certeza viraria o quinto pard e viveria aventuras ao lado de Tex, Kit
Carson, Jack Tigre e Kit Willer.

|
|