| |
A leitura dispara minhas vertentes criativas
Infelizmente pouco publicado no Brasil (na extinta Animal
e no álbum O
prolongado sonho do sr. T), o espanhol Max mostra que tem muito
a dizer - inclusive em quadrinhos
Por Jairo Máximo,
de Madri (22/12/08)
Francesc Capdevila, mais conhecido como Max nasceu em Barcelona, em 1956.
É desenhista de HQ e ilustrador. Começou a publicar em revistas underground,
na cidade natal no começo dos anos 1970. A literatura é uma das suas grandes
influências.
Em 2007, ganhou o primeiro Premio Nacional del Cómic, instituído
pelo Ministério de Cultura da Espanha, pela publicação de Hechos,
dichos, ocurrencias y andanzas de Bardín, el superrealista (em português,
Fatos,ditos, ocorrências e andanças de Bardín, o super-realista),
que, segundo o júri "é uma obra graficamente deslumbrante, com um roteiro
literário, filosófico e cinematográfico repleto de referências".
Bardín também ganhou os prêmios melhor obra, melhor roteiro
e melhor desenho do Salão Internacional de HQ de Barcelona,
em 2007.
Nesta entrevista exclusiva concedida em Madri, Max (cujo site oficial
pode ser conferido aqui)
afirma: "Sou do tipo passeante, caminho sem rumo definido".
Universo HQ: Abra o quadro, Max. Coloque a primeira frase nesta entrevista.
Max:
Um hieróglifo bastante conhecido: se vê se um cachimbo desenhado e abaixo
dele a frase ceci n'est pas une pipe. Gosto destas coisas, os paradoxos
filosóficos ou matemáticos, os enigmas da esfinge, os jogos de adivinhação.
Eles são inesgotáveis, sempre têm cantos para serem explorados, disparam
a imaginação. (Aqui Max faz referência a um dos trabalhos mais famosos
do belga René Magritte, a tela A traição das imagens).
UHQ: O que você sentiu quando soube tinha ganhado o primeiro Prêmio
Nacional de HQ?
Max: Uma grande satisfação. Sempre é assim quando se tem o trabalho
reconhecido.
Ainda mais quando, como neste caso, trata-se de um prêmio recém-criado
e que, de alguma maneira, significa um reconhecimento institucional à
história em quadrinhos, equiparando-a finalmente às demais disciplinas
artísticas.
UHQ: Você acha que isto mudará alguma coisa na sua trajetória profissional?
Max:
Em principio, não. Minha trajetória está aí e os meus projetos criativos
pessoais para o futuro imediato continuam sendo os mesmos. Pode ser que
o prêmio reflita num aumento de leitores das minhas HQs.
Quem sabe também, espero, em melhores oportunidades quanto a trabalhos
de encomenda como ilustrador. Sem dúvida, este prêmio dá um prestigio
especial, mas vamos ver se repercute numa melhora das condições diárias
de trabalho, minhas e de meus colegas.
UHQ: Foi você que descobriu os quadrinhos ou eles que te descobriram?
Max: Sou do tipo passeante, caminho sem rumo definido. Sei que
aparecerão coisas no meu caminho, mas em geral não estou fazendo nenhuma
procura especial.
Não sei se eu era assim desde criança, quando um dia alguém colocou em
minhas mãos a primeira revista em quadrinhos. Na adolescência, quando
comecei a desenhá-las, o fiz sem pensar em nenhum momento que aquilo podia
chegar a se transformar na minha futura profissão.
UHQ: Em 1990, o entrevistei para a revista brasileira Animal,
que publicava suas HQs. Naquela época, você disse: "cada personagem que
crio é como um filho. Ganho dinheiro com quadrinhos". Continua assim?
Max: Quanto aos personagens, sim. No entanto, pouco depois daquela
entrevista, decidi acabar com meu personagem Peter Pank, e fiquei
uns anos longe da HQs, dedicando-me à ilustração.
Quando quis voltar aos quadrinhos, comprovei que tinha perdido muitos
leitores. Foi quando decidi a criar Bardín. Percebi que sem um
personagem, é difícil conservar o leitor. Justamente por este distanciamento
voluntário deixei de ganhar dinheiro com HQs.
Mas também é certo que todo o setor entrou em crise no final dos anos
1980, com o desaparecimento das revistas mensais. Atualmente, não poderia
sobreviver somente fazendo quadrinhos. Meu trabalho, neste momento, é
menos comercial, um pouco mais experimental, e isso se nota nas vendas.
No entanto, fui eu mesmo quem, inconscientemente, procurou esta situação.
Ganho a vida fazendo ilustrações, e desta maneira sinto-me livre para
fazer as HQs que quero fazer, sem estar sujeito às regras mercadológicas.
O único problema é que, com este sistema, tenho pouco tempo para me dedicar
aos quadrinhos e, conseqüentemente, minha produção é escassa.
UHQ: Quem é Bardín, o super-realista? Como nasceu? Como convive
com este singular personagem?
Max: Ele nasceu como um experimento. Não queria voltar a criar
um personagem que acabasse se convertendo numa prisão para mim. Os personagens
são assim: têm uma personalidade bastante definida, uma psicologia previsível
e nada mutante, são obrigados a serem eles mesmos sempre, aconteça o que
acontecer, caia quem caia.
Tentei o contrário: um tipo sem personalidade definida, de aspecto anódino
e vulgar, aberto a tudo, com reações sempre imprevisíveis. Uma cesta na
qual pudesse colocar qualquer coisa em qualquer momento. Que me permitisse
mudar de registro, de tom, de lugar. O importante nas suas histórias não
é ele, e sim o que acontece com ele.
Pensei que dessa forma não me cansaria. E, no momento, assim é: convivemos
maravilhosamente. Com certeza, influí o fato de que não lhe forço, de
que trabalho com Bardín bastante intermitentemente, sem pressa nem pressão.
Diria que ainda tem bastante corda.
UHQ: Como foi o processo de criação do premiado Bardín, o super-realista?
Max: A partir de 1997, comecei a fazer histórias curtas, sem
um plano pré-determinado, para ver o que acontecia. Ia publicando em lugares
diferentes. Fui explorando possíveis registros gráficos e temáticos. Um
par de linhas foi se delineando: os pesadelos, os encontros com entidades
místicas, as conversas de bar.
Publiquei dois álbuns baseados neste tipo de histórias, em 2000 e 2002.
Quando tive material suficiente para pensar numa compilação em livro,
revisei e vi que o conjunto, ainda que bastante heterogêneo, tinha sentido.
Finalmente, introduzi uma história nova e longa, para dar contundência
à obra.
UHQ: Você cria sua obra em Palma de Maiorca, e a edita em Barcelona.
Que outros países compram seu trabalho?
Max: No mundo atual, é indiferente onde você viva e não importa
onde publica. Tudo circula muito, e rapidamente. O livro Bardín, o
super-realista, de fato, saiu simultaneamente em co-edição na Espanha,
França, Estados Unidos e Holanda.
Em seguida, saiu em italiano, alemão e catalão, esta um esforço
pessoal. A edição castelhana já esta na terceira tiragem, e nos Estados
Unidos e na França vai relativamente bem.
Sobre
as outras edições, ainda é cedo para se ter dados precisos.
UHQ: Qual é o papel da literatura na sua obra?
Max: Importantíssimo. Sempre me abasteço de fontes literárias.
A leitura dispara minhas vertentes criativas mais do que qualquer outra
coisa. Inspiraram-me muito os relatos mitológicos gregos. José Luis Borges,
Lewis Carroll, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e Howard Philip Lovecraft
desde a juventude.
Dylan Thomas, Robert Graves, C.G. Jung, a poesia china clássica,
o nonsense inglês… Ultimamente o chileno Roberto Bolaño e o japonês
Haruki Murakami.
UHQ:
Atualmente, onde se produz os melhores quadrinhos?
Max: Em todos os lugares. Existem pessoas boas em qualquer país.
No entanto, naqueles lugares onde a tradição é sólida, se nota mais: França,
Estados Unidos, Japão.
UHQ: A Espanha vive um auge dos quadrinhos?
Max: É preciso distinguir. Eu diria que o que se vive é um auge
editorial: publica-se muito, tanto material espanhol como internacional,
de todos os gêneros, para todos os gostos.
Além disso, parece que finalmente se consegue que determinadas HQs de
alta qualidade (etiquetadas como graphic novels), que chegam às
grandes livrarias ou os shopping centers, e parece que o público
aumenta.
Mas os auges criativos dos autores sempre estiveram aí. Nunca se deixou
de fazer boas HQs, só que na década de 1990 isso não era visível, e hoje
é.
Também existe um auge de notícias sobre quadrinhos. Os meios de comunicação
descobriram que falar de HQs nas seções de cultura os torna mais respeitáveis.
Enfim, os sintomas são bons.
UHQ: O que você achou do recolhimento da revista de HQ espanhola El
Jueves, que em 2007 foi acusada de atentar contra a honra do príncipe
Felipe, e a posterior condenação do desenhista Guillermo Torres e do roteirista
Manel Fontdevila a pagar três mil euros de multa?
Max:
É absurdo recolher uma publicação, porque, no final das contas, o que
se consegue é dar mais visibilidade para aquilo que se pretendia silenciar.
Penso que esta lição os juízes aprenderam bem. As multas, a meu ver, foram
aplicadas simplesmente para manter a pose e limpar a cara. Todos estão
expostos à sátira e à gozação, como todos estamos expostos e podemos escorregar
em uma casca de banana na rua e manter a linha, apesar de provocar risadas
de quem estiver por perto.
Acho que ninguém deve ser uma exceção. Os reis do Medievo eram mais sábios
que os de hoje em dia: tinham seu bufão, que era intocável, e possuía
licença absoluta para tirar um sarro do seu senhor com prazer. O logotipo
da El Jueves, aliás, é justamente um bufão.
UHQ: O profeta Maomé não pode pertencer ao universo do humor, mas Cristo
e o rei Juan Carlos podem. Qual é a saída?
Max: Não existe saída, especialmente se cedermos um só milímetro
conquistado na luta pela liberdade de expressão. Esta é uma batalha cotidiana,
e os censores se encorajam a cada triunfo e buscam mais.
Quando se cede com Maomé, logo virão os cristãos para solicitar o mesmo
tratamento.
UHQ: Como vê o governo do primeiro-ministro socialista espanhol, José
Luis Rodríguez Zapatero?
Max: Ufa! Bastante medroso. Começaram com bastante energia,
mas, de repente, passaram a ter medo até da igreja católica. Será que
ainda acreditam que atualmente alguém ainda escuta os bispos?
UHQ:
Você nuca pensou em criar um personagem chamado ZP (sigla pela qual o
primeiro-ministro espanhol Zapatero é popularmente conhecido no país)?
Max: Nunca me interessou a referência às situações ou personagens
determinados da realidade.
A minha linha é transportar a realidade a lugares imaginados ou fantásticos,
tirá-lo do contexto cotidiano e, assim, revelar aspectos dela que de outra
maneira passariam despercebidos.
Eu já usava esta técnica com Peter Pank (tribos "urbanas" na selva),
e continuo utilizando-a com Bardín.
UHQ: O que você sente quando fica sabendo que houve um atentado
no Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina, Paquistão? Isso é democracia?
Max: Isto é loucura e fanatismo. Mas não vamos posar de puristas.
Aqui na Espanha todos são muito democratas, mas se organizou uma guerra
civil não faz tanto tempo. E na Europa se organizou uma matança atroz.
Sinto muito, também penso que a civilização é só uma capa muito fina que
se rasga com grande facilidade. Além disso, acho que o humor é imprescindível
para fazer esta capa um pouco mais resistente.
Nunca vejo nenhuma graça em todos estes endemoninhados que pensam que
fazendo jorrar sangue as coisas lhes serão melhores.
UHQ:
Como vê a inevitável miscigenação que vive a Espanha desde os anos 1990
do século passado?
Max: É inevitável. As cosas mudam, mas nós custamos a nos adaptar.
As incertezas nos deixam nervosos. Mas nada voltará, por mais que alguns
se empenhem.
Os seres humanos têm medo do novo, que exige mudanças de atitude, de adaptação.
Temos que estar espertos, faz falta a curiosidade e, mais uma vez, o bom
humor...
UHQ: A série infantil norte-americana Vila Sésamo recentemente
foi classificada, em seu próprio país, como só para adultos. Será que
os desenhistas e roteiristas são uns depravados? Ou seriam os inofensivos
monstros comedores das bolachas?
Max: Os monstros das bolachas só levam à reflexão. Pode ser
que isto seja alguma depravação? Sem dúvida, para os outros monstros,
os de verdade, os que não são peludos, desprezam as bolachas, nunca estão
de bom humor e preferem devorar consciências.
UHQ:
Um desenho pode ser uma arma de destruição de massa?
Max: Evidentemente que não. Do mesmo modo que o violão de Pete
Seeger, contra o que proclamava, jamais matou nenhum fascista. Do mesmo
jeito que minha pena não é minha espada.
Um desenho é uma maquininha de pensar, e bastante modesta, diga-se de
passagem. Ela me faz pensar e pode (somente pode) fazer pensar
quem a lê ou vê. Ainda que, para alguns, isso possa lhes parecer bastante
depravado.
UHQ: Qual a mensagem que gostaria de enviar para os novos desenhistas?
Max: Hum… A mensagem de sempre. Este é um trabalho duríssimo,
cheio de incertezas e quase sempre mal remunerado. Assim, ou se têm um
amor desaforado pelos quadrinhos, ou é melhor procurar outra profissão.
Em compensação, a satisfação pessoal de inventar e desenhar histórias
é uma coisa indescritível.
UHQ: Você poderia citar um ditado popular dentre os que mais gosta?
Max:
Nunca me recordo dessas coisas quando me perguntam. Não tenho nenhuma
frase pendurada nas minhas paredes. "Tudo flui, nada permanece", continua
sendo, a meu ver, a grande verdade desta vida.
UHQ: Qual é a dor e o prazer de chegar aos 50 anos?
Max: O prazer é ver tudo de uma distância um pouco relativizadora,
não me ver arrastado por todos os ventos. Provavelmente seja uma ilusão...
(risos), mas é prazeroso.
A dor é bem mais concreta (a minha, nas costas). O corpo já nem sempre
segue docilmente a cabeça. E o tempo, que escorre como água entre os dedos...
Com isso, lido bastante mal.
UHQ: Bem, agora feche o quadro com uma frase.
Max: Uma adivinhação (fácil): Qual é o lugar onde terminam todas
as histórias?
|
|