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Os dez quadrinhistas mais importantes da história da nona arte
Eles ajudaram as HQs a crescer e a se firmar como uma arte respeitada em todo o mundo.
Por Marcus Ramone
(06/02/08)
Os quadrinhos já passaram dos 100 anos de idade e continuam em forma.
Uma crise ali, um obstáculo acolá, mas, ainda assim, no mundo inteiro,
movimentam milhões de fãs e cifras também milionárias, influenciando outras
mídias, divertindo, emocionando, educando e afetando a sociedade.
Para chegar nesse estágio, a nona arte contou com a apaixonada ajuda de
uma imensa legião de artistas. Eles são muitos, mas poucos foram tão importantes
a ponto de reformular os quadrinhos, ditar conceitos e regras para essa
mídia ou fazê-la se sobressair entre as demais.
A seguir, será apresentada uma lista dos mais importantes nomes das HQs
em todos os tempos, mostrando os dez destaques que ultrapassaram fronteiras
e viraram lendas em todo o planeta - nos próximos dias, o Universo
HQ publicará outra seleção de quadrinhistas, dessa vez uma galeria
com os dez principais nomes que traçaram os caminhos dos quadrinhos brasileiros
e colocaram o País entre os produtores de grandes artistas da área.
Essa lista não tem a pretensão de ser uma "edição definitiva", mas apenas
um resumo criterioso dos que fizeram bastante diferença na longa e rica
história dos quadrinhos, influenciaram os rumos do segmento e causaram
impacto no mercado, artística ou comercialmente falando. Por isso, a qualidade
das obras, embora fundamental, não foi o único critério adotado para a
escolha dos nomes.
Algumas das indicações são duplas criativas, pois
a idéia é "fundi-los" em um único nome.
Afinal, foi atuando em equipe que esses quadrinhistas produziram os trabalhos
responsáveis por sua entrada no panteão das personalidades mais importantes
das HQs.
Pela diferença dos gêneros nos quais os quadrinhistas se sobressaíram
e pelos momentos distintos em que cada um se destacou na história da nona
arte, os nomes estão listados em ordem aleatória de importância, pois
a criação de um ranking poderia soar injusta diante de tudo que
esses artistas ainda representam para a indústria dos quadrinhos.
Stan Lee (1922) e Jack Kirby (1917 - 1994), Estados Unidos:
Em parceria com outros quadrinhistas, Stan Lee e Jack Kirby criaram verdadeiros
ícones dos quadrinhos, como Homem-Aranha e Capitão América, respectivamente.
Juntos, entretanto, não apenas conceberam para a Marvel Comics
outra galeria de personagens que permanecem até hoje ativos no imaginário
popular - Hulk e X-Men são alguns exemplos -, como também produziram histórias
que fazem parte dos maiores clássicos da nona arte e os consagraram como
uma das grandes duplas das HQs.
As razões para o casamento perfeito entre os dois são fáceis de ser explicadas.
Basta saber o que, individualmente, eles "aprontaram" na indústria dos
quadrinhos.
Lee é reconhecidamente o responsável pela transformação da "Casa das Idéias"
no império multimídia da atualidade e seu nome se confunde com o da corporação.
Ele também deu aos super-heróis a condição de humanos normais que os aproximaram
dos leitores e que ditou regras ainda hoje seguidas no gênero. E apesar
de sua idade avançada, condição que, comumente, tem resultado em ostracismo
para a maioria dos quadrinhistas, continua colecionando aparições na mídia,
recebendo prêmios diversos, homenagens e convites para escrever HQs (inclusive
para a DC Comics), criando personagens e um reality
show e até participar dos filmes baseados em suas criações.
Quanto a Kirby, artistas e leitores já convencionaram falar a alcunha
"rei" antes de seu nome. A inovação que ele promoveu graficamente nas
HQs que produzia fez escola, influenciando as gerações seguintes de desenhistas.
Ângulos cinematográficos, movimentos dinâmicos e uma mestria no desenho
de máquinas são apenas algumas das características marcantes de suas obras
publicadas na Marvel e na concorrente DC, para a qual também
criou alguns personagens, como os Novos Deuses. Uma das atuais premiações
concedidas pela indústria dos quadrinhos norte-americanos, o Kirby
Awards, foi batizado em sua homenagem.
 Jerry
Siegel (1914 - 1996) e Joe Shuster (1914 - 1992), Estados Unidos:
Simplesmente, eles criaram o primeiro super-herói dos quadrinhos. Mais
que isso, o personagem em questão se tornou um dos maiores fenômenos da
cultura pop mundial, ganhou um emblema reconhecido de imediato até por
quem não lê gibi e serviu de cópia e inspiração para muito do que surgiu
nas HQs depois de 1938, ano de sua criação.
O Super-Homem
de Siegel e Shuster é hoje uma das marcas de maior valor comercial em
todo o planeta e já movimentou bilhões de dólares desde que surgiu nas
tiras de jornais. E pensar que, ainda no final da década de 1930, os autores
venderam os direitos do Homem de Aço por 200 dólares...
Eles deixaram de produzir as aventuras do herói em 1947. Somente em meados
dos anos 1970 conseguiram vencer a longa batalha judicial contra a DC
Comics por uma participação nos rendimentos da marca Super-Homem.
A partir daí, passaram a receber uma pensão da editora e viram seus nomes
obrigatoriamente creditados em toda HQ do personagem lançada pela editora.
Shuster já havia abandonado definitivamente os quadrinhos nos anos 1940.
Siegel continuou criando outros personagens, sem alcançar sucesso, chegando
a escrever histórias do Tio Patinhas para a Disney italiana.
Carl Barks (1901 - 2000), Estados Unidos:
Quem já não se perguntou o que seria dos quadrinhos Disney sem
o Homem dos Patos?
Além de criar vários personagens - entre eles o "quaquilionário" Tio
Patinhas, outro ícone da cultura popular que virou um sinônimo, neste
caso o que define avareza -, o escritor e desenhista revolucionou as HQs
Disney com narrativas visuais ousadas e um humor escrachado, mas
também sutil e ácido, em aventuras cheias de referências históricas, geográficas
ou mesmo ideológicas, que uniram crianças e adultos em uma grande fileira
de fãs em vários países.
É um dos raros casos de artistas dos quadrinhos cuja genialidade não faz
distinção do gênero no qual se destacaram. Ou seja, falar de Carl Barks
não é só apontá-lo como o mais cultuado dos quadrinhistas da turma de
Patópolis em todos os tempos, mas enquadrá-lo entre os maiores gênios
da nona arte.
Autor de mais de 500 histórias em quadrinhos, na quase totalidade delas
atuando em todo o processo criativo (textos, desenhos e arte-final), Barks
atingiu a celebridade, curiosamente, depois de se aposentar, em meados
da década de 1960. Foi quando os fãs conheceram o dono daquelas histórias
cujos roteiros e artes se destacavam dos demais publicados nos gibis da
Disney.
Sua influência também atingiu autores fora do circuito infantil. E dentro
da turma dos patos e de um certo camundongo orelhudo, inspirou muitas
gerações de artistas que seguiam seu estilo de narração ou de traço.
O mais fiel seguidor de Barks é o norte-americano Keno Don Rosa, cuja
obra é baseada no que seu confesso inspirador produziu e, por isso mesmo,
foi alçado à condição de mestre dos quadrinhos contemporâneos.
Em vários países, como o Brasil, publicações especiais de luxo com as
obras de Carl Barks não param de ser lançadas, perpetuando o legado do
artista e ajudando as novas gerações de leitores a descobrir os quadrinhos
Disney.
Osamu Tezuka (1928 - 1989), Japão:
Reconhecido como o maior de todos os mangakás, o japonês Osamu
Tezuka marcou sua carreira pelo pioneirismo. Sua importância para
o mangá e o animê o faz ser apontado como o "pai" moderno dessas artes.
E não é para menos. O Deus Mangá, como é conhecido, tornou populares os
quadrinhos e os desenhos animados japoneses em seu país e no resto do
mundo.
Prolífico ao extremo, é dono de uma imensa galeria de criações de sucesso
internacional, mas o de maior destaque é o herói Astro Boy, surgido no
início dos anos 1950 e responsável pelo estouro da cultura dos mangás
e animês.
Para se ter uma idéia da influência de Tezuka, foi ele quem definiu as
características que já se tornaram indissociáveis das HQs e animações
japonesas: a estilização dos traços, incluindo os olhos enormes dos personagens.
Will Eisner (1917 - 2005), Estados Unidos:
Por seu estúdio passaram grandes nomes dos quadrinhos mundiais, como Bob
Kane (criador do Batman) e Jack Kirby. Criou, em 1940, o personagem Spirit,
um dos mais cultuados personagens dos gibis. Em 1978, com o álbum especial
Um
contrato com Deus, forjou os nomes e os conceitos de graphic
novel e, mais tarde, arte seqüencial. Escreveu livros sobre a nona
arte e técnicas de desenho e narrativas textuais e visuais que se tornaram
verdadeiros guias para profissionais ou aficionados pelo assunto. O Eisner
Awards, considerado o Oscar dos quadrinhos norte-americanos,
foi criado em sua homenagem.
Por tudo isso e muito mais, Will
Eisner é citado por artistas de várias gerações como principal influência,
seja no despertar do gosto pelas HQs, como também no estilo de escrever
ou desenhar.
A própria indústria dos quadrinhos deve bastante a Eisner. Suas técnicas
de vanguarda em texto e ilustração, com desenhos expressivos e cheios
de enquadramentos ousados e inéditos para as determinadas épocas em que
o artista os apresentou ao mundo, ajudaram a mudar o conceito de que gibi
é diversão apenas para crianças.
Para tirar a prova, nada melhor que ler qualquer aventura clássica de
Spirit e constatar que ela parece ter sido produzida na década atual.
Alex Raymond (1909 - 1956), Estados Unidos:
Outro clássico e decantado influenciador de quadrinhistas. Criador de
Flash
Gordon (sucesso também em filmes, seriados de TV e desenhos animados)
e de outros personagens que deixaram sua marca na história dos quadrinhos,
como Jim das Selvas e Nick Holmes (Rip Kirby), Alex Raymond possuía um
estilo de texto fluido e um traço bastante detalhista que evidenciava
uma estética própria em cenários, roupas e maquinários.
Mas a influência de Raymond foi mais além. Nas tiras de Flash Gordon,
na década de 1930, surgiu a minissaia, uma peça do vestuário feminino
que se tornou realidade somente na década de 1960.
Também na década de 1930, o aventureiro espacial disse em uma tira que
a Terra é azul vista do espaço. Essa constatação foi comprovada em 1961,
quando o astronauta soviético Yuri Gagarin viu o planeta do alto e repetiu
as palavras de Flash Gordon.
E não fica só nisso. A Nasa, agência espacial dos Estados Unidos,
se inspirou na aerodinâmica das naves interplanetárias desenhadas por
Alex Raymond para criar foguetes e ônibus espaciais.
Alan Moore (1953), Inglaterra:
Gênio moderno dos quadrinhos, Alan
Moore escreveu obras como Watchmen,
V
de Vingança, A
Liga Extraordinária e diversas outras nos gêneros super-herói,
terror, fantasia, erotismo e mais, que em maior ou menor grau mudaram
a forma de se fazer ou pensar quadrinhos.
Teorias científicas ou sociais, iconoclastia, ciência, História e muitos
outros elementos fazem parte do caldo do "mago bardo" inglês, mestre na
metalinguagem e referências literárias.
Premiado em vários países e cultuado como o divisor de águas nos quadrinhos
de super-heróis, sua mais conhecida obra, em parceria com o desenhista
Dave Gibbons, continua sendo a minissérie Watchmen, cuja destacada
qualidade é cantada há mais de 20 anos e permanece influenciando as novas
gerações de quadrinhistas.
Watchmen foi eleita pela revista norte-americana Time
como um dos 100 mais importantes romances do século passado.
René Goscinny (1926 - 1977) e Albert Uderzo (1927), França:
Goscinny e Uderzo criaram muitos personagens, como o impagável
índio Umpa-pá.
Foi Asterix, entretanto, a série que fez da dupla uma das mais
importantes para as HQs mundiais.
No livro Mauricio
- Quadrinho a Quadrinho, escrito pelo jornalista Sidney Gusman
e lançado em 2006 pela Editora Globo, o criador da Turma da
Mônica apresentou uma descrição definitiva para o personagem e, por
conseqüência, para a qualidade do trabalho de Goscinny e Uderzo. "Asterix
é uma das coisas mais inteligentes surgidas nos quadrinhos. Eu sugiro
suas histórias como um ritual de passagem do leitor mirim para o juvenil.
É criativo, pesquisado, inteligente e satírico. Diversão garantida".
Protagonista de versões para cinema e TV e com fãs nos mais diversos países,
é um raro fenômeno pop nesse gênero. O lançamento de seu último álbum,
por exemplo, resultou em enormes filas de espera nas lojas especializadas
e ações de divulgação como gigantescas pinturas de Asterix e Obelix nos
aviões das SN Brussels Airlines, na Bélgica.
Poucos autores receberam condecorações de presidentes e reis pela qualidade
de sua obra e significância para os quadrinhos. Goscinny e Uderzo estão
nesse rol.
Neil Gaiman (1960), Inglaterra:
Quadrinhos reconhecidos como obra literária? Ganhando prêmios como o World
Fantasy Award, nos Estados Unidos, nunca antes (nem depois) conferido
a uma HQ?
Esses são apenas alguns dos feitos que Neil
Gaiman alcançou com seu personagem mais conhecido: Sandman.
O autor foi alçado à categoria de celebridade no showbusiness e
de "deus" entre os fãs de quadrinhos. Tudo porque as histórias (não apenas
de Sandman) que concebeu foram fundamentais para a nona arte ser vista
com olhos menos preconceituosos e mais admirados por quem não lia HQs.
Entre dezenas de outros prêmios, Gaiman recebeu nada menos que 13 Eisner
Awards.
Richard
Felton Outcault (1863 - 1928), Estados Unidos:
Há muitas controvérsias sobre quem foi o primeiro autor de histórias em
quadrinhos. Registros documentados apontam para artistas mais antigos
que Richard Felton Outcault - incluindo o ítalo-brasileiro Angelo Agostini.
O que pesa em favor do cartunista norte-americano, entretanto, é que os
elementos de uma HQ completa foram usados pela primeira vez nas tiras
de Yellow Kid (Menino Amarelo), em 1894.
Como a representação dos balões de diálogos, símbolos máximos das HQs,
que faltavam nos quadrinhos anteriores aos do personagem de Outcault,
e que surgiram nas aventuras do simpático Yellow Kid. A ele também pertencem
as primeiras tiras coloridas de que se tem notícia.
Marcus Ramone é o mais importante colecionador de
quadrinhos da história de sua família.
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