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Patota: os grandes criadores de HQs e suas tiras maravilhosas

Por Marcelo Naranjo (01/10/08)

Atenção, leitor: confira no blog do Universo HQ algumas das tirinhas comentadas abaixo.

Patota A década de 1970 foi pródiga com os fãs de tirinhas, publicadas em três grandes títulos que marcaram época nas bancas de jornal: Grilo , Eureka e a Patota.

Patota, da editora Artenova, durou 27 números, em formato magazine e 56 páginas, sendo publicada possivelmente entre 1973 e 1975 - a imprecisão é porque não constam datas nas edições.

Nessa época, a editora contava com uma linha de quadrinhos diversificada: além da Patota, a Artenova lançou títulos como Mutt & Jeff, Snoopy, Zé do Boné, O Mago de ID, Hagar e Kid Farofa, em formato pocket ou formatinho.

Logo no primeiro número de Patota, o leitor encontrava a maioria dos personagens e séries que seriam publicados ao longo de toda a coleção, no formato tiras e em HQs de páginas inteiras, as chamadas "páginas dominicais": Mafalda, Snoopy, Zé do Boné, Kid Farofa, O Mago de ID, Hagar o Horrível, Nancy, Kelly, Pernalonga, B.C., Mãi...ê!!!, Frank e Ernest, Os Desligados, Figments, Os Alienados, Rua da Alegria, Eek e Meek.

Patota Outras tiras entrariam posteriormente no mix, como Pogo e Miss Peach. No número # 10, uma estréia nacional: Marly, de Milson Abrel Henriques. Na edição # 15, outra tira tupiniquim: Dr. Fraud, de Renato Canini.

No primeiro número, um editorial afirmava que "A Patota é a primeira revista brasileira inteiramente dedicada às histórias em quadrinhos inteligentes destinadas ao público adulto e juvenil" e fechava afirmando que a revista "está aí para dar ao público brasileiro, em matéria de quadrinhos, permanentemente, alguma coisa mais do que o Pato Donald e super-heróis do passado. Alguma coisa para rir, curtir e relaxar das tensões, em um novo tipo de publicação periódica que é agora lançada no Brasil".

Outro editorial, na edição # 4, informou com orgulho que algumas faculdades estavam adotando a revista para estudos em cursos de Comunicação.

Patota E quase toda edição trouxe algum artigo ou matéria sobre quadrinhos. Entre eles, uma análise sobre os personagens de Charles Schulz (Snoopy); biografias de Howie Schneider, Reggie Smythe, Tom K. Ryan, Bob Thaves, Mell Lazarus, Dik Browne, Johnny Hart e outros; o surgimento dos quadrinhos e seus principais personagens, além do espaço para cartas dos leitores.

Confira agora as principais séries da revista.

Marly foi um dos grandes destaques da Patota. Seu criador, Milson Henriques, publica a personagem, com sucesso, no Espírito Santo, há mais de 30 anos. Além disso, escreve peças de teatro, livros, poesia, charges e é professor e cantor.

O embrião para a criação de Marly veio em 1972, quando o diretor de um jornal desafiou Milson a criar um personagem que fosse tipicamente capixaba, para sair em tiras diárias. A primeira idéia surgiu com o papagaio Edilberto, cuja profissão era vereador. Mas, em plena ditadura militar, e como o autor já havia sido preso por suas idéias, chegou a conclusão de que não daria certo. Solicitaram, então, uma criação que não tivesse nenhuma relação com a política.

Patota E foi quando nasceu Marly, uma solteirona frustrada, que vive ao telefone com uma amiga de nome Creuzodete, falando mal de tudo e de todos, principalmente de quem consegue ser feliz.

Inicialmente, era publicada somente em Vitória. Por isso, as brincadeiras com personagens locais fizeram muito sucesso. Em 1973, foi lançado o Almanaque da Marly, recolhido e incinerado pela Policia Federal. Foi quando o editor da Patota convidou Milson para colocar sua "cria" na publicação.

Ao mesmo tempo, a editora carioca Ecab fez um contrato para distribuir a personagem nacionalmente, e Marly chegou a ser publicada em 11 estados. Com isso, o tom central das piadas mudou um pouco, passando da fofoca pura e simples para a desesperada carência por homens.

Entre as proezas da personagem, já foi capa de cardápio de restaurante em Manaus, tema de escola de samba e virou até boneca de pano.

Patota Em 1983, Milson parou com Marly. E voltou com a personagem em 1992, quando escreveu uma peça de teatro chamada Hello, Creuzodete!, retomando também as tiras de jornal, com o intuito principal de promover o espetáculo.

Dr. Fraud: Criação do genial gaúcho Renato Canini, Fraud é um psicanalista que convive com os mais divertidos traumas de seus pacientes, além de ter "tratado" quase todos os personagens clássicos dos quadrinhos. A série também marcou presença em outros títulos.

Mãi...ê!: Uma mãe possessiva, carente, ciumenta e irônica, que gostaria de ter seus filhos sempre sob suas asas. Mas eles cresceram, e sobrou para essa matriarca usar de toda chantagem emocional possível.

Criação de Mel Lazarus, que tomou por base o estereótipo das mães judias, essa tira fez grande sucesso nas décadas de 1960/1970. Outro trabalho deste autor também publicado na Patota foi Miss Peach, sobre uma professora que lida com uma turminha de garotos contestadores.

B.C.: Homens das cavernas, animais e plantas em discussões surreais, numa crítica ao dito "mundo moderno" e à condição do ser humano, criação de Johnny Hart, que também foi responsável, juntamente com Brant Parker, pela ótima tira O Mago de ID (The Wizard of ID).

Patota O Mago de ID : um rei tirânico e cínico, um mago atrapalhado e sua horripilante esposa, um escudeiro covarde, um prisioneiro político e outros fizeram desta uma das grandes tirinhas da década de 1970.

Assim como a maioria dos trabalhos de então, nada mais era que uma sátira e crítica - como no caso de B.C. e outras - ao contexto da época. Porém, feita com muita elegância, competência e senso de humor refinado, acompanhado de um traço cartunesco dos mais divertidos.

Mafalda: Quino e sua cria dispensam apresentações. O cartunista argentino é um dos maiores artistas do mundo em sua área. E a pequena contestadora é protagonista de uma das melhores e mais engraçadas tirinhas de todos os tempos, com o enorme mérito de divertir enquanto faz pensar.

Sempre acompanhada da pequeno-burguesa Susanita, o "capitalista" Manolito, o sonhador Filipe e os pais, Mafalda tinha uma trupe de coadjuvantes de primeiro escalão.

Patota Zé do Boné: Criação do inglês Reggie Smyth, Andy Capp (no original) é um beberrão, vagabundo, cara-de-pau e desempregado cujas únicas motivações são ficar no bar ou ir para casa e atormentar sua esposa Flo. Fez enorme sucesso na Inglaterra e foi publicado em vários países.

Não é difícil entender tanto sucesso: até hoje, as características pessoais (quiçá universais) do personagem e as situações apresentadas sempre acabam por lembrar algum conhecido, ou um acontecimento vivenciado ao menos uma vez.

O eterno mau humor de Zé do Bone, suas bebedeiras, a ressaca, o prazer pela jogatina: quanto mais politicamente incorreta, mais engraçada a situação.

Nancy: Surgiu nos Estados Unidos, das mãos de Ernie Bushmiller, e tornou-se um enorme sucesso de público - mas não de crítica. Situações simples, piadas diretas, desenhos "bonitinhos", teve grande influência em diversas séries criadas posteriormente, como Luluzinha, e foi continuada por outros criadores.

Patota No Brasil, também foi batizada de Tica e Teco.

Rua da Alegria: Criação de Phil Krohn, traz os problemas e o cotidiano frustrante dos moradores de uma rua, com boa dose de sarcasmo.

Kid Farofa: Outra tira de sucesso. O título original é Tumbleweeds e fez sua estréia em 1965, criado por Tom K. Ryan. Um caubói pra lá de burro, índios sacanas (no bom sentido), um xerife covarde, o jogador, o bêbado, enfim, todos os estereótipos do Velho Oeste virados de cabeça para baixo, em ótimas gags.

Figments: Dale Hale, criador da série, foi assistente de Charles Schulz, trabalhou com animação, televisão e teatro. Criou a série baseado em sua família, um assunto que afirmava "conhecer a fundo".

A tira representa sempre uma situação diferente, enquanto o protagonista imagina algo relacionado ao que está acontecendo.

Patota Pogo: Tira de grande sucesso que começou a ser publicada em 1949 nos Estados Unidos, pouco conhecida no Brasil. Walt Kelly, seu criador, chegou a trabalhar com animação nos Estúdios Disney - o traço é um dos destaques da série, que tem como protagonistas diversos animais em situações que refletem uma constante crítica social e buscam a reflexão, além de satirizar figuras políticas da época.

É considerada uma das primeiras tiras "intelectuais".

Frank e Ernest: A dupla protagonista da série faz de tudo: são mendigos, vendedores, vigaristas, médicos e aparecem em muitos outros papéis. Criação do cartunista e psicologista norte-americano Bob Thaves, foi publicada em inúmeros jornais e países diversos.

Eek e Meek: Criada por Howie Schneider em 1965, a tira apresenta dois ratinhos numa reflexão do dia-a-dia. Da mesma "escola" de Peanuts e tantas outras da época, em que as idéias são mais importantes que a arte em si.

Patota Schneider também é o criador de O Circo de P.T.Bimbo, outra série publicada na Patota, que tem como protagonistas diversos artistas circenses.

Charlie Brown: Um dos maiores êxitos de todos os tempos nos comics, a turma de Charlie Brown e em especial o cãozinho Snoopy são conhecidos mundialmente, seja pelos quadrinhos ou pelos inúmeros itens de merchandising que estampam.

Falar de Snoopy renderia uma matéria à parte. A criação de Charles Schulz, que surgiu em 1950, é, junto com Pogo, uma das primeiras tirinhas ditas "intelectuais", ultrapassou fronteiras e tornou-se um fenômeno mundial, estabelecendo a tendência de boa parte das tiras de jornais dali em diante.

Não só isso, foi objeto de estudos acadêmicos, teses de mestrado e discussões sociológicas.

Patota O fracassado Charlie Brown, a mandona Lucy, o adorável Snoopy, o atrapalhado Linus e muitos outros personagens garantiram bons momentos de reflexão e entretenimento para gerações de leitores.

Hagar: O "terrível" guerreiro viking, criação de Dik Browne, é outro personagem de sucesso perene - mais que merecido, além de sempre ter marcado presença em jornais e revistas Brasil afora.

A maior graça provém de suas características peculiares: não gosta de tomar banho e só quer saber de comer e beber. O personagem tem muito do próprio criador.

Difícil não rir com as pilhagens e monstros fantásticos que Hagar encontra pelo caminho, quando não tem que livrar dos problemas provocados pelo atrapalhado Eddie Sortudo, pela filha que só pensa em se casar, pelo filho que não tem a menor vocação para guerreiro, e ainda mentir para a esposa, da qual morre de medo.

Os Desligados: De Howard Post, chegou a ter revista própria no Brasil, com o título Os Náufragos. E, como o nome diz, mostra dois rapazes perdidos numa ilha.

Por tudo acima relatado, a revista Patota teve papel significativo na trajetória dos quadrinhos no Brasil, em especial pelo seu foco nas tiras, gênero fundamental da rica trajetória das HQs em nosso País.

E, convenhamos, pelo timaço que compunha suas páginas, a Patota realmente fazia jus ao nome.

Marcelo Naranjo gosta do termo "patota". Isso porque ele é daquela época em que era possível comprar Riquinho, Brotoeja, Bolinha, Luluzinha, Mortadelo e Salaminho e muitos outros títulos nas bancas. Faz tempo, hein?.

 


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