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THE UMBRELLA ACADEMY - APOCALYPSE SUITE Título: THE UMBRELLA ACADEMY - APOCALYPSE SUITE (Dark Horse - Edição especial encadernada

Autores: Gerard Way (roteiro) e Gabriel Ba (desenhos).

Preço: US$ 17,95

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Julho de 2008

Sinopse: De forma inexplicável, 47 crianças com superpoderes nascem simultaneamente de mulheres que não estavam grávidas e nem possuíam qualquer conexão aparente entre si.

Perante o assombro do mundo, o milionário e extravagante inventor Reginald Hargreeves, conhecido como "Monóculo", adota sete dessas crianças, e com elas cria a Umbrella Academy.

Dedicado a salvar o mundo de eventuais perigos, o grupo mirim tem como a primeira missão combater uma Torre Eiffel enlouquecida, pilotada pelo "robô-zumbi" Gustave Eiffel.

Ainda no primeiro capítulo, a narrativa avança para cerca de dez anos no futuro: o grupo está dissolvido, alguns membros já morreram ou simplesmente desapareceram (como o "número cinco") e os que restaram são assombrados por problemas emocionais atribuídos não só aos anos de batalhas, mas também à frieza com que foram educados por seu pai adotivo.

Mas com a morte do velho Hargreeves e o reaparecimento do "número cinco", que traz terríveis notícias sobre um futuro apocalíptico, parte dos membros restantes volta a se reunir para enfrentar uma ameaça desconhecida, enquanto outros seguem caminhos bem menos nobres.

Positivo/Negativo: A título de introdução e curiosidade, para quem não sabe, o autor de Umbrella Academy - Apocalypse Suite, Gerard Way, é vocalista de uma banda que faz muito sucesso atualmente entre os adolescentes, chamada My Chemical Romance.

Mas antes que alguém seja levado a crer que The Umbrella Academy é apenas um mero capricho de um novo astro do rock, convém esclarecer logo que não é nada disso. Na verdade, durante toda a trama, o autor demonstra que, para um principiante, detém respeitável domínio da técnica narrativa dos quadrinhos, e consegue elaborar um enredo consistente.

A qualidade da estrutura narrativa fica evidente ao analisar-se um elemento importante: embora este seja o arco inicial do universo ficcional de Umbrella Academy, o autor resolveu apresentar seus personagens de forma pouco convencional.

Assim, apesar de contar rapidamente a origem e a primeira aventura do grupo, a história começa realmente num momento no futuro em que os membros, além de separados, já amadureceram com todas as conseqüências da vida adulta: alguns tem filhos e estão divorciados, outros tentaram ganhar algum dinheiro vendendo uma biografia escandalosa da equipe, e uns, apesar de continuarem combatendo o crime, alimentam grande amargura pela época em que eram tutelados por Reginald Hargreeves.

Mas esses destinos "em preto-e-branco" são contrabalançados pelas cores do clima insólito e fantasioso do mundo em que vivem os personagens. Dessa forma, o local e a época em que o grupo nasceu evoca muito a atmosfera da Liga dos Cavaleiros Extraordinários, pois grande parte da história se passa na fictícia City, que indisfarçavelmente lembra uma Londres a um só tempo antiga e repleta de maravilhas tecnológicas extravagantes.

Por outro lado, a bizarra natureza do vínculo que une os heróis recorda as histórias da Patrulha do Destino escritas por Grant Morrison, que, aliás, assina uma introdução para esta versão encadernada.

Por falar em Morrison, ele e o editor Scott Allie, responsável por um posfácio desta edição, utilizam em seus textos uma mesma palavra para definir The Umbrella Academy e sua primeira aventura, Apocalypse Suite: surreal.

E, de fato, há algo de surrealismo em todo o universo criado por Gerard Way, mesmo para os padrões dos quadrinhos.

Assim, o primeiro combate dos heróis é com uma Torre Eiffel enlouquecida que joga os visitantes do alto. Também inventivo é o poder de uma das personagens, Rumor, que consiste em tornar verdade todo boato que espalha. Da mesma forma, o modo como se manifestam os poderes do principal inimigo que o grupo enfrenta é bem criativo. Também é digna de nota a forma com que Gerard Way presta homenagens a sua outra paixão, a música.

A história consegue equilibrar as cenas de diálogos e os momentos de ação. Os diálogos são temperados com humor negro e ironia. No que diz respeito à ação, a violência é muito freqüente, e talvez um tanto exagerada em alguns momentos. O que se nota é que Gerard Way não poupa seus personagens, se isso for necessário para garantir uma boa trama.

Mas The Umbrella Academy - Apocalypse Suite não está isenta de críticas. Estabelecer como pano de fundo da história o nascimento misterioso de um grupo de crianças superpoderosas em diversos lugares da Terra, sem que exista uma aparente conexão entre elas ou explicação plausível, é uma alusão evidente aos X-Men.

Nenhum problema com essa "inspiração", se ela já não tivesse sido utilizada em outras tantas histórias, como em Heroes, Rising Stars e, até mesmo, numa novela da televisão brasileira. Ou seja, com o tempo essa falta de explicação imediata para o nascimento de uma geração de superpoderosos se torna repetitiva e óbvia.

Também há uma certa superficialidade na caracterização dos personagens, cujas personalidades carecem de maior aprofundamento - coisa que um escritor mais experiente conseguiria realizar em um punhado de páginas.

Essa falha fica evidenciada por Gerard recorrer à saída fácil de fazer uma quase analogia entre os membros da Umbrella Academy e alguns heróis icônicos. Luther Hargreeves (vulgo Spaceboy, ou "número um") é o líder nato que não possui uma Fortaleza da Solidão no Alasca, mas em compensação tem uma estação na Lua, na qual mora sozinho com seu robô (há semelhanças também com Tom Strong, pois além do robô, ele tem como grande amigo um primata falante com trejeitos de lorde inglês).

Spaceboy vive em conflitos com o segundo membro do antigo grupo, Kraken (Diego Hargreeves, também conhecido por "número dois"), sujeito sombrio e amargurado por sua infância. Kraken tem temperamento rebelde, tanto que se recusa a trabalhar em equipe: investiga sozinho os crimes, com o apoio de um investigador de polícia.

Ou seja, quaisquer semelhanças com um herói kryptoniano e um vigilante de Gotham não são, decididamente, mera coincidência.

Não caberia qualquer crítica à "homenagem", se o uso de personagens icônicos, notadamente a caracterização de polaridade luz e trevas entre dois heróis masculinos, já não fosse um recurso exaustivamente usado por outros autores (em Authority e Esquadrão Supremo, por exemplo), e que começa a cansar o leitor.

Para tornar mais estereotipado ainda o grupo, não falta um membro (Sèance ou "número quatro" - Klaus Hargreeves) que, durante os mais difíceis momentos nos combates, faz comentários humorísticos.

Quanto aos desenhos, sem qualquer ufanismo, Gabriel Bá já está entre os talentos mais promissores do cenário internacional, tendo sido indicado, inclusive, ao prêmio de melhor artista tanto no Scream quanto no The Harvey Awards de 2008, pela sua participação em The Umbrella Academy - Apocalypse Suite. Após a crítica americana ter acolhido seu trabalho em Casanova, o artista paulistano agora consolida sua posição.

E, de fato, o sucesso da obra se deve também ao seu traço ligeiro e econômico, que contribui para o clima pouco convencional do universo de Gerard Way. Bá, que é dono de um estilo próprio inconfundível (coisa que artistas levam anos para desenvolver), neste que é seu primeiro trabalho no mundo dos "super-heróis", escapa do lugar-comum de retratar personagens musculosos e mulheres curvilíneas em cada página.

Valem ainda duas observações finais sobre a escolha do roteirista em começar a história pulando da origem dos personagens para um momento no futuro em que já são adultos amargurados.

Ao contrário do que pode parecer, com isso Gerard Way concede a si mesmo uma gigantesca gama de linhas narrativas a serem seguidas futuramente. Afinal, vários eventos do passado dos personagens ou não são esclarecidos totalmente ao leitor ou são um mistério para os próprios, o que já propicia muito material a ser trabalhado em próximas histórias.

Outra observação é que, além de ser uma opção inusitada, o salto da origem imediatamente para o "final" do grupo talvez demonstre que a afirmação de Grant Morrison no prefácio (de que "os super-heróis do século 21 estão aqui finalmente") embora exagerada, possui algum fundo de verdade.

Gerard parece ter tentado representar, no primeiro capítulo, toda a trajetória dos quadrinhos de super-heróis nas últimas décadas até o século 21: da original inocência das aventuras em que lutavam contra monstros em combates quase infantis, até as atuais histórias dos universos Marvel e DC, em que são retratados de forma pretensamente "madura".

Essa dicotomia atualmente existente neste universo, em que heróis usando uniformes coloridos são inseridos pelos autores em histórias "adultas", nas quais não faltam eventos traumáticos (estupros, lavagens cerebrais, conflitos políticos etc.), é simbolizada de forma curiosa pela caracterização do personagem "número cinco", um sujeito já muito velho que, após testemunhar um amargo futuro e perder todas as ilusões, retorna ao presente, mas fica preso no corpo de uma criança.

Por fim, o encadernado, além de todas as capas feitas por James Jean, conta com alguns extras dignos de menção, como desenhos feitos pelo próprio Gerard Way para retratar os personagens. Nessas artes é possível notar duas coisas: 1) Way também tem talento de ilustrador (freqüentou, inclusive, aulas na School of Visual Arts de Nova York); 2) Ba conferiu o seu próprio estilo a cada personagem, modificando muitas vezes as propostas originais do roteirista, notadamente para melhor.

Mas os extras mais interessantes são duas histórias curtas. A primeira, Mon Dieu, foi escrita para ser um preview na internet. No entanto, é pequena demais e pouco rende. Já a segunda, …But the Past Ain't Through With You, publicada originalmente na edição promocional da Dark Horse feita para o Free Comic Book Day de 2007, é bem interessante e nela já se encontram o clima surreal e o humor obscuro que permeiam toda a história principal.

Em suma, tendo em vista que se trata do primeiro arco, e que Gerard é um principiante nos quadrinhos, Umbrella Academy - The Apocalypse Suite mostra-se um respeitável início de carreira para o autor, pois sua obra já foi indicada ao prêmio de melhor revista, no Scream 2008, e melhor série contínua ou limitada, no Harvey Awards também deste ano.

Sem contar que a obra venceu o prêmio de melhor minissérie no Eisner Award e ajudou James Jean a levar o troféu de melhor capista e Dave Stewart, o de melhor colorista.

Umbrella Academy - The Apocalypse Suite não é uma história fantástica, mas tem muitos méritos. Por isso, espera-se que os próximos arcos sejam melhores, com o amadurecimento técnico do autor.

Classificação: - Victor Lisboa

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