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FIQ: mais independente do que nunca
O maior evento do mercado de quadrinhos do Brasil traz convidados importantes, tem programação eclética, mas continua sendo ignorado pelas grandes editoras; e aí, felizmente, quem faz a festa são os autores independentes.
Por Sidney Gusman
(14/10/09)
Angoulême, na França; San Diego, nos Estados Unidos; Amadora, em Portugal;
e muitos outros festivais de quadrinhos pelo mundo têm uma particularidade
em comum: são tão importantes para seus respectivos mercados, que as editoras
de cada país programam diversos lançamentos para os poucos dias em que
as cidades recebem artistas e "respiram" a nona arte. No Brasil, lamentavelmente,
isso não acontece.
Quem acompanha o Universo HQ verá nesta matéria uma crítica que
se repetiu em 2007,
2005
e 2003:
as editoras de quadrinhos do País ignoram o Festival
Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte e em nada contribuem
com o evento, que, mesmo com seus problemas (listados mais abaixo), cresce
a cada edição.
Novamente, o FIQ, que é organizado pela Casa
21, com apoio da prefeitura de Belo Horizonte, transformou a cidade
na capital brasileira dos quadrinhos. A sexta edição, realizada de 6 a
12 de outubro, desta vez no Palácio das Artes e no Parque Municipal,
teve diversas atrações: a exemplo do que começou a acontecer em 2007,
esteve bastante eclética, com atrações para os mais variados fãs de quadrinhos,
autores nacionais e estrangeiros de renome, belas exposições,
avaliação de portfólios e uma programação de palestras e debates interessantíssima.
Mas
isso não bastou para atrair as editoras de quadrinhos. A única que tinha
um estande realmente voltado para o evento foi a Quadrinhos na Cia.
Se a "culpa" é das editoras ou da organização? Difícil saber. Mas é fato
que quem mais perde com essa ausência é o leitor. Por exemplo: num evento
que atrai um público na sua maioria adulto, muita gente perguntava por
que a Panini não estava por lá para vender seus recém-lançados
títulos da Vertigo. A multinacional italiana marcava presença apenas
com um estande cheio de revistas velhas, no qual negociava assinaturas.
A única livraria presente no FIQ, a Leitura, também não
tinha materiais de editoras como a Desiderata. A Conrad,
que publica tantos materiais adultos, não tinha em Belo Horizonte nem
sequer um representante.
Assim, a única editora que aproveitou o festival para realizar lançamentos
foi a Zarabatana,
com Macanudo
# 2, de Liniers e Shenzhen,
de Guy Delisle.
Quem é "Maomé" e quem é a "montanha" nessa relação pouco amistosa não
fica claro, mas já passou da hora de uma aproximação entre FIQ
e editoras acontecer. Que algum dos lados dê, logo, o primeiro passo.
Dentro
desse quadro, quem fez a festa, ainda bem, foram os quadrinhistas independentes.
O "I" do FIQ, neste ano, foi mais de Independente do que de Internacional.
Em estandes próprios, autores do Quarto
Mundo, dos Quadrinhos Dependentes, da Aurora Comics,
do Café com Nanquim e dos 10 Pãezinhos (este com um time
de primeiro nível) realmente aproveitaram o evento, vendendo suas revistas
e apresentando seus trabalhos aos poucos editores presentes - para ser
mais exato, dois: Cláudio Martini, da Zarabatana, e André Conti,
da Quadrinhos
na Cia.
Prova disso é Estevão Ribeiro, que está desenvolvendo o álbum Pequenos
heróis, uma homenagem aos maiores heróis da DC, e obteve
o aval de Eddie Berganza para continuar o projeto, que tem desenhos de
Vitor Cafaggi, Raphael Salimena, Ric Milk e outros.
Em
todos os dias do FIQ era possível comprar edições independentes.
E de autores que vinham de diversas partes do País, com mochilas repletas
de revistas ou fanzines. Uma excelente amostra da diversidade da produção
atual. Confira alguns desses títulos:
Almanaque Gótico (formato americano, 56 páginas, R$ 5,90), de Felipe
Cazelli, Rafael Leite, Cláudia Gomes e Fábio Turbay, de Vitória/ES.
Brabos Comics (formato 10,5 x 14,5 cm, 16 páginas, R$ 7,00), de
Pablo Mayer, de Joinville/SC.
A vida é mesmo uma maravilha (formato 11 x 15 cm, 20 páginas, R$
4,00) e Macaco # 0 (formato 21 x 29,7 cm, 32 páginas, R$ 7,00),
da Monstro Comics, capitaneada por Márcio Júnior, de Goiânia/GO.
Ryotiras
# 2 (formato 11 x 15 cm, 28 páginas, R$ 4,00), de Ricardo Tokumoto,
de Belo Horizonte.
Ato 5 (formato 17 x 25 cm, 28 páginas, R$ 5,00), de André Diniz
e José Aguiar, de Petrópolis/RJ e Curitiba/PR, respectivamente.
Camiño di Rato # 5 (formato 21 x 28 cm, 48 páginas, R$ 5,00), editada
por Matheus Moura, de Uberlândia/MG.
Clube da Voadora # 1 (formato 15,5 x 22,5 cm, 24 páginas, R$ 5,00),
de Hugo Nanni, de Jundiaí/SP.
Caraminhola # 1 (formato 15 x 21 cm, 24 páginas, R$ 5,00), de Caio
Yo, de Campinas/SP.
Encore (formato 17 x 26 cm, 16 páginas, R$ 5,00), de Rafael Albuquerque,
Mateus Santolouco e Eduardo Medeiros, de Porto Alegre/RS.
Grande
Clã # 2 (formato 14,8 x 23 cm, 72 páginas, R$ 5,00), editada por Guilherme
Gardinni, de Goiânia.
Aurora Comics # 0 (formato americano, 24 páginas, R$ 5,00), de
Oliver Borges, de Salvador/BA.
Talismã (formato 17 x 24 cm, 56 páginas, R$ 5,00), organizada por
Erick Azevedo, de Belo Horizonte.
Quebraqueixo - A banda desenhada (formato 15,5 x 23,2 cm, 16 páginas,
R$ 5,00), capitaneada por Evandro Esfolando, de Brasília/DF.
Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo
(formato, 28 páginas, gratuito), de Pedro Franz, de Florianópolis/SC.
Adeus, tia Chica (formato 21 x 21 cm, 40 páginas, R$ 5,00), editado
por Maumau e Azeitona, de Porto Alegre.
Brado Retumbante # 5 (formato 15,5 x 23 cm, 36 páginas, R$ 4,00),
editada por Lula Borges, de Natal/RN.
Duo
(formato 14,7 x 22,5 cm, 36 páginas, R$ 4,00), de Pablo Casado e Felipe
Cunha, respectivamente de Maceió/AL e São Paulo/SP.
Tarja preta # 6 (formato 15,5 x 26,5 cm, 96 páginas, R$ 5,00),
editada por Matias Maxx, do Rio de Janeiro/RJ.
Sketchbook # 1 - Jônatas Campos (formato 15 x 21 cm, 28 páginas,
R$ 5,00), do Big Jack Studios, de Belo Horizonte.
Sketchbook # 2 - Alisson Borges da Costa (formato 15 x 21 cm, 28
páginas, R$ 5,00), do Big Jack Studios, de Belo Horizonte.
Sketchbook # 3 - Rodney Buchemi (formato 15 x 21 cm, 28 páginas,
R$ 5,00), do Big Jack Studios, de Belo Horizonte.
Sketchbook # 4 - Cristiano Seixas (formato 15 x 21 cm, 28 páginas,
R$ 5,00), do Big Jack Studios, de Belo Horizonte.
Café
Espacial # 5 (formato 14 x 21 cm, 56 páginas, R$ 6,00), editada por
Sérgio Chaves, de Vera Cruz/SP.
Beleléu (formato 18 x 18 cm, 80 páginas, R$ R$ 20,00), de Tiago
Lacerda, Daniel Lafayette, Eduardo Arruda e Stêvz, do Rio de Janeiro/RJ.
Exposições para gostos variados
Neste ano, o FIQ apostou - acertadamente - na diversidade
de suas exposições. A que mais atraía a atenção era, sem dúvida, Batman
70 anos, organizada pelo colecionador Ivan Freitas da Costa, que trazia
dezenas de originais, pôsteres, estatuetas, réplicas dos vários batmóveis
e até uma carta datilografada de Dick Sprang.
Outra que mereceu olhares atentos foi Mundo Canini, sobre a obra
de Renato Canini, um dos homenageados do evento. O artista que criou o
mais inesquecível Zé Carioca dos quadrinhos Disney teve sua carreira
dissecada em painéis bastante explicativos, que abordavam também trabalhos
como Tibica, Kaktus Kid, Dr. Fraud e ilustrações
para a revista Recreio e livros. A curadoria foi de Rodrigo Rosa
e Lancast.
Isto
é França, a única mostra do FIQ que teve direito a um catálogo,
apresentou 30 artistas (15 franceses e 15 brasileiros) expondo sua visão
sobre o país europeu. Havia obras de autores como Laerte, Laudo, Luiz
Gê, José Aguiar, François Boucq, Ivan Brun e Florence Cestac.
Uma exposição que chamava a atenção justamente por só trazer autores desconhecidos
do público brasileiro, porém de excelente qualidade, era Quadrinhos
chineses. Havia trabalhos de: Benjamin (que era um dos convidados
do FIQ), Rain, Zhang Lei, Xia Da, Song Yang e outros.
A mostra mais inusitada era Supermercado Ferraile, na qual os quadrinhistas
franceses Cizo e Frédéric Felder, da Associação Criativa Requins Marteaux,
bolaram embalagens divertidas e sacanas para produtos que geralmente são
consumidos por donas de casa. E todos estavam à venda!
Em
véspera de Copa do Mundo, os visitantes podiam conferir Cartum e futebol,
que simulava um pebolim gigante com cartuns de diversos artistas no lugar
dos jogadores.
E havia ainda as exposições sobre a obra do argentino Liniers, do brasileiro
Joe Bennett (que não pôde ir ao evento por ter contraído gripe suína)
e da ilustradora Ciça Fittipaldi, outra homenageada pela organização.
Além das mostras sobre HQs alemãs, webtiras (que eram exibidas
numa televisão), Solar - 15 anos, contando a trajetória do personagem
criado pelo roteirista mineiro Wellington Srbek, e Neorama - Mostra
mundial de quadrinhos, na qual Marko Ajdaric exibia mais de 240 publicações
de diversos pontos do planeta.
Fora da sede principal do FIQ, ainda havia exposições de Bira Dantas
(Mestres do Soul e do Blues), no Centro Cultural Vila Marçola;
Laudo (Clube da Esquina), no Centro Cultural Venda Nova;
Chantal, no Centro Cultural Salgado Filho; da Graffiti 76% Quadrinhos,
com Mulheres, no Centro de Cultura Lagoa do Nado; e dos
artistas franceses, em diversos pontos da capital mineira.
O único senão é que a maioria dos convidados não foi a essas mostras fora
da sede principal do festival.
Convidados em pauta
Para esta sexta edição, a organização do FIQ montou um timaço de
convidados. Do exterior vieram: Craig Thompson (Retalhos),
Guy Delisle (Pyongyang
e Crônicas
Birmanesas), Liniers (Macanudo),
Juan Diaz Canales (roteirista de (Blacksad),
Ben Templesmith (desenhista de 30
dias de noite), Ivan Brandon (escritor de 24Seven), Becky
Cloonan e Vasilis Lolos (5)
e os menos conhecidos Olivier Tallec, Cizo e Felder, da França; Benjamin,
da China; Teresa Valero, editora espanhola; e Jens Harder e Reinhard Kleist,
da Alemanha.
Já a "seleção brasileira" foi formada por Mauricio de Sousa, Gabriel Bá,
Fábio Moon, José Aguiar, Will Conrad, Ivan Reis, Rafael Grampá, Rodrigo
Rosa, Adão Iturrusgarai, João Marcos, Rafael Albuquerque, Gustavo Duarte,
Duke, Eddy Barrows, Daniel HDR, Joe Prado, Rod Reis, Luiz Gê, André Toral,
Mário Cau, Mateus Santolouco, Jozz, Eduardo Medeiros, Daniel Esteves e
outros .
E o mais interessante é que o público pôde acompanhar esses autores em
diversos debates, palestras, oficinas e sessões de autógrafos. O campeão
de audiência foi Mauricio de Sousa, que falou para cerca de 1200 alunos
de escolas inscritas previamente no Grande teatro do Palácio das Artes.
A programação de eventos do FIQ teve ainda outros debates que atraíram
bom público, como os sobre quadrinhos e educação, com a participação de
Waldomiro Vergueiro (USP), Paulo Ramos (Blog
dos Quadrinhos) e Vitor Amaro Lacerda; e internet e scans,
com Amauri de Paula, Joe Prado e este jornalista.
Outra atração para quem sonha em publicar fora do Brasil foram as avaliações
de portfólios feitas por Eddie Berganza, editor da DC, e David
Campitti, da Glass House, que agencia vários desenhistas nacionais
para o exterior.
É preciso melhorar
Durante as conversas entre profissionais do mercado nacional que já foram
a eventos de quadrinhos fora do Brasil, era unânime a opinião de que o
FIQ, a cada edição, mostra mais potencial para entrar no seleto
rol das grandes convenções da arte sequencial no mundo.
No que tange às exposições, à programação e aos convidados, esse caminho
parece mais curto, mas ainda há sérios problemas de infraestrutura que
precisam ser sanados para futuras edições.
Este ano fizeram muita falta um sistema de som para avisar aos visitantes
das atrações da programação, uma sala de imprensa bem equipada, espaços
planejados para as sessões de autógrafos (Delisle e Liniers, por exemplo,
ficaram em mesinhas colocadas num corredor), uma programação noturna oficial
para os convidados, mais opções para quem quisesse se alimentar no local
e catálogos de outras exposições - especialmente as principais, de Renato
Canini e do Batman.
Melhorar esses pontos é vital para que o festival cresça - e seja reconhecido
- como um evento de nível internacional. Os convidados estrangeiros já
se mostram encantados com o carinho que recebem do público (esse contato
mais direto não acontece em outros países); falta agora mostrar que, além
disso, o FIQ pode também ser mais organizado.
O maior evento de quadrinhos do Brasil, o público e os convidados merecem.
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Sidney Gusman traz de cada FIQ uma série de lembranças inesquecíveis; desta vez, com certeza, será o encontro com o mestre Renato Canini.
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