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Tintim completa 80 anos de aventuras
Mesmo sem uma aventura inédita há décadas, criação máxima do belga Hergé continua em alta no mundo todo
Por Sérgio
Codespoti (12/01/09)
Tintim surgiu em 10 de janeiro de 1929, no suplemento juvenil Le Petit
Vingtième, do jornal belga Le Vingtième Siècle, pelas mãos
de Hergé (pseudônimo de Georges Remi).
O herói, portanto, completou 80 anos no dia 10 de janeiro de 2009. Durante
essas oito décadas, o personagem foi publicado em quase 60 idiomas (inclusive
vários dialetos como alsaciano, occitano e valão), virou filme com marionetes,
desenho animado, seriado de TV, peça
de teatro, comédia musical, dois filmes (na década de 1960, com Jean-Pierre
Talbot no papel principal) e deve
voltar aos cinemas no século 21, pelas mãos de dois mestres da aventura:
Steven Spielberg e Peter Jackson.
O
jovem repórter também já passou por diversos museus, incluindo: exposição
permanente no Museu de Quadrinhos de Bruxelas; mostra
permanente no castelo de Cheverny, no vale do Loire (que foi usado como
referência para o castelo de Moulinsart, a residência do capitão Haddock)
e até no Centro
George Pompidou, em Paris, na França.
Hergé, o "pai" de Tintim, ganhou um museu
próprio em 2007, que deverá abrir as portas em maio deste ano.
Além disso, Tintim e Hergé já foram alvo de diversas homenagens, incluindo
estátuas,
moedas
comemorativas, dezenas
de selos e até relógios da Swatch.
Hergé cristalizou, com Tintim, o estilo de desenho conhecido
como linha clara (que já era utilizado por alguns artistas como Alain
Saint-Ogan) e se tornou o símbolo e o principal exemplo desta vertente
popular até hoje. Por isso, Hergé é conhecido como o "pai" da linha clara.
Para dar uma ideia da importância de Tintim dentro não só dos
quadrinhos europeus, mas mundiais, o catálogo enciclopédico das HQs franco-belgas,
Trésors
de la bande dessinée BDM, dedicou 78 páginas a livros e álbuns
de Tintim e Hergé. Incluindo não apenas os oficiais da série, mas todos
os especiais, livros teóricos (que são centenas) e até publicações piratas.
Os álbuns da série podem ser divididos em duas partes: na primeira, Tintim
se aventura apenas acompanhado de seu cachorro Milu, e ocasionalmente
dos detetives Dupont e Dupond. Na segunda, está acompanhado do capitão
Haddock, um velho marinheiro beberrão, e de outros coadjuvantes, como
o professor Girassol e o mordomo Nestor.
Tintim é uma evolução da primeira série de Hergé, sobre Totor
um escoteiro líder da patrulha dos Hannetons, lançada em julho de 1926.
Paul Remi, irmão de Hergé, que era um oficial do exército belga, também
serviu de inspiração para Tintim.
Segundo uma teoria atual, o nome Tintim teria sido uma homenagem de Hergé
ao álbum Tintin Lutin, de 1897, de Benjamin Rabier e Fred Isly.
Tintim foi a primeira série de Hergé cujos diálogos saíam das
bocas dos personagens, como já acontecia nos quadrinhos norte-americanos
da época.
Sua aventura inicial, Tintim
no País dos Sovietes, foi lançada em 10 de janeiro de 1929, como uma
história seriada na edição número 11 do suplemento Le Petit Vingtième.
O repórter Tintim é enviado à então União Soviética, e tem de lidar com
os bolchevistas. Hergé publicava duas páginas por semana, ligando-as aos
episódios anteriores, mas não tinha muita certeza do que fazer com a história.
A jornada terminou em 8 de maio de 1930.
Tintim havia se tornado um personagem muito popular e entraria para a
história como um dos clássicos dos quadrinhos. Para celebrar o término
da primeira aventura, em 8 de maio de 1930, ocorreu o retorno triunfal
do repórter na Gare du Nord, de Bruxelas (estação norte, dos
trens vindo de Colônia, na Alemanha).
A ideia foi do padre Wallez, editor do suplemento. Hergé selecionou e
vestiu um jovem para interpretar Tintim, que foi acolhido como herói por
centenas de fãs em seu retorno de trem, supostamente da União Soviética.
Esta relação entre Tintim, os trens e a ferrovia belga é celebrada até
hoje, com um grande painel na estação central de Bruxelas.
Em 1930, foi lançado o primeiro álbum encadernado de Tintim, compilando
a aventura recém-publicada pela Éditions du Petit Vingtième.
Uma edição dessa época foi vendida
num leilão em 2007, por 7 mil euros, no câmbio atual, o equivalente
a R$ 21.630,00.
Ainda em 1930, Tintim começou a quebrar fronteiras e passou a ser publicado
na França. No total, foram lançados 24 álbuns. Os primeiro nove volumes
saíram originalmente em preto e branco e, atualmente, a Casterman
disponibiliza não apenas as versões coloridas e modernas dessas histórias,
mas também as edições fac-símiles dos originais, que são reproduções
fiéis de como o material foi publicado na época.
Estes nove álbuns são:
1- As Aventuras de Tintim repórter do "Petit Viengtième" no País dos
Sovietes (publicado em tiras no jornal Le Petit Vingtième
em 1929, e como álbum em 1930);
2- As Aventuras de Tintim - Tintim no Congo, volume lançado anteriormente
no Brasil com o título Tintim na África (publicado em tiras no
jornal Le Petit Vingtième em 1930, e como álbum em 1931);
3- As Aventuras de Tintim - Tintim na América (publicado em tiras
no jornal Le Petit Vingtième em 1931, e como álbum em 1932);
4- As
Aventuras de Tintim - Os Charutos do Faraó (publicado em tiras
no jornal Le Petit Vingtième em 1932, e como álbum em 1934);
5- As Aventuras de Tintim - O Lótus Azul (publicado em tiras
no jornal Le Petit Vingtième em 1934, e como álbum em 1936);
6- As Aventuras de Tintim - O Ídolo Roubado (publicado em tiras
no jornal Le Petit Vingtième em 1936, e como álbum em 1937);
7- As Aventuras de Tintim - A Ilha Negra (publicado em tiras
no jornal Le Petit Vingtième em 1937, e como álbum em 1938);
8- As Aventuras de Tintim - O Cetro de Ottokar (publicado
em tiras no jornal Le Petit Vingtième em 1938, e como álbum em
1939);
9- As Aventuras de Tintim - O Caranguejo das Pinças de Ouro,
volume lançado anteriormente no Brasil com o título O Caranguejo das
Tenazes de Ouro (publicado em tiras em 1940, no Le Soir Jeunesse,
e como álbum em 1941);
O livro Tintin - Noir sur Blanc, da Casterman,
de Marcel Wilmet, é um índice muito minucioso do trajeto editorial e de
todas as versões em variantes dos álbuns em preto e branco, com detalhes
de publicação, tiragens, diferenças de capa e conteúdo etc.
Um detalhe importante dessa época se deve à Segunda Guerra Mundial e à
chegada do nazismo. Com a Bélgica e a França ocupada pelos nazistas, Hergé
teve dificuldades crescentes para publicar as aventuras de Tintim nos
jornais, não apenas devido à censura, mas também por causa da escassez
de papel.
Em 10 de maio de 1940, os alemães fecharam o jornal Le Vingtième Siècle,
consequentemente cancelando Tintim. Em 1939, Hergé havia começado
a publicar a história Tintim no País do Ouro Negro, que foi interrompida
bruscamente em 1940, e só foi retomada em 1948. E no seu lugar começou
a aventura O Caranguejo das Pinças de Ouro.
É por isso que a participação do capitão Haddock nesta aventura é um pouco
estranha e abrupta. O personagem não havia sido criado quando a aventura
começou, em 1939, mas já tinha participado de várias histórias em 1948,
quando o álbum foi retomado na revista semanal Journal de Tintin.
Curiosamente, neste período a história também foi interrompida entre julho
e outubro de 1949, devido a uma depressão de Hergé.
Todos esses volumes, exceto Tintim no País dos Sovietes, foram
relançados em cores. Alguns sofreram pequenas modificações e um deles
acabou sendo completamente redesenhado: Tintim no Congo, que
teve seu conteúdo modificado devido ao tom colonialista do original, algo
comum na época, mas que nos dias atuais é visto como racismo,
particularmente quando examinado fora de seu contexto histórico.
A
Ilha Negra, lançado em cores em 1943, foi completamente redesenhado
quando chegou o momento de publicar esta aventura na Inglaterra pela primeira
vez, em 1966. O responsável por esta atualização, principalmente de cenário,
roupas, veículos e objetos, da década de 1930 para 1960 foi Bob de Moor,
um dos assistentes de Hergé.
As aventuras seguintes, que já tiveram seus álbuns publicados em cores
são:
10- As Aventuras de Tintim - A Ilha Misteriosa (publicado em
tiras - em preto e branco - no jornal Le Soir Jeunesse em 1941,
e como álbum colorido em 1942);
11- As Aventuras de Tintim - O Segredo do Licorne (publicado
em tiras - em preto e branco - no jornal Le Soir Jeunesse em
1942, e como álbum colorido e reformatado em 1943);
12-
As Aventuras de Tintim - O Tesouro de Rackham, o Terrível (publicado
em tiras - em preto e branco - no jornal Le Soir Jeunesse em
1943, e como álbum colorido e reformatado em 1944);
13- As Aventuras de Tintim - As Sete Bolas de Cristal (publicado
em tiras - em preto e branco - no jornal Le Soir Jeunesse em
1943, e como álbum colorido e reformatado em 1948);
14- As Aventuras de Tintim - O Templo do Sol (publicado em tiras
coloridas na revista Jornal de Tintin em 1946, e como álbum colorido
e reformatado em 1949);
15- As Aventuras de Tintim - Tintim no País do Ouro Negro (publicado
em tiras coloridas na revista Jornal de Tintin em 1948, e como
álbum colorido em 1950);
16-
As Aventuras de Tintim - Tintim Rumo à Lua (publicado em tiras
coloridas na revista Jornal de Tintin em 1950, e como álbum colorido
em 1953);
17- As
Aventuras de Tintim - Tintim Explorando a Lua (publicado em tiras
coloridas na revista Jornal de Tintin em 1952, e como álbum colorido
em 1954);
18- As Aventuras de Tintim - O Caso Girassol (publicado em tiras
coloridas na revista Jornal de Tintin em 1954, e como álbum colorido
em 1956);
19- As Aventuras de Tintim - Perdidos no Mar (publicado em tiras
coloridas na revista Jornal de Tintin em 1956, e como álbum colorido
em 1958);
20- As
Aventuras de Tintim - Tintim no Tibete (publicado em tiras coloridas
na revista Jornal de Tintin em 1958, e como álbum colorido em
1960);
21- As Aventuras de Tintim - As Jóias da Castafiore (publicado
em tiras coloridas na revista Jornal de Tintin em 1962, e como
álbum colorido em 1963);
22- As Aventuras de Tintim - Vôo 714 para Sidney (publicado
em tiras coloridas na revista Jornal de Tintin em 1966, e como
álbum colorido em 1968);
23- Tintim e os Pícaros (publicado em tiras coloridas na revista
Jornal de Tintin em 1975, e como álbum colorido em 1976);
24- Tintim e a Alfa-Arte (aventura incompleta publicada postumamente
como álbum em 1986);
A exemplo dos álbuns em preto e branco, estes volumes também foram alterados
em maior ou menor grau. Os volumes O Segredo do Licorne e O
Tesouro de Rackham, o Terrível foram relançados em duas edições fac-símiles
especiais, mostrando o formato pequeno, em preto e branco, original das
aventuras publicadas durante a Segunda Guerra Mundial.
Já As Sete Bolas de Cristal, que deveria se prolongar, foi interrompida
devido à libertação da Bélgica pelos aliados. Na época, Hergé foi impedido
de publicar e forçado a se explicar, pois havia trabalhado - lançando
as tiras de Tintim - no jornal Le Soir, que colaborava com os
alemães.
Esta história teve sua sequência na revista Journal de Tintin,
em 1946, na aventura O Templo do Sol. Em 2006, a Casterman
lançou uma edição especial de O Templo do Sol no formato horizontal,
como a história foi publicada originalmente na revista Journal de
Tintin, em episódios semanais de página dupla.
Tintim no País do Ouro Negro foi modificado outra vez em 1972,
alterando partes da história que lidavam com o contexto político da criação
de Israel, quando a Palestina ainda estava ocupada por tropas inglesas,
mudando a história para o estado árabe fictício de Khemed. Como se pode
ver nos noticiários atuais, o assunto continua polêmico e gerando novos
conflitos no Oriente Médio.
A revista semanal Journal de Tintin, fundamental para contar
as histórias do repórter Tintim, surgiu em 1946 e foi publicada (com algumas
interrupções no final da década de 1980) até 1993. Por ela passaram artistas
e séries importantes, além de Tintim, como Blake e Mortimer
(de Edgar Pierre Jacobs), Alix (de Jacques Martin), Michel
Vaillant (de Jean Graton), Ric Hochet (de Tibet), Oumpah-pah
(de Goscinny e Uderzo), Bruno Brazil (de William Vance) e Bernard
Prince (de Hermann).
Para comemorar, a revista a Éditions Moulinsart lançou
o volume Le
Journal de Tintin, celebrando não apenas o título, mas os 60
anos da editora Le
Lombard, que começou com Tintim.
Um volume que não pertence à série oficial é Tintim e o Lago dos Tubarões,
uma adaptação para os quadrinhos do desenho animado de mesmo nome lançado
em 1972 e dirigido por Raymond LeBlanc, com roteiro original de Greg (Michel
Regnier). O álbum usa como arte os originais do desenho animado.
No Brasil, Tintim começou a ser publicado na década de 1960 e 1970, pelas
editoras Flamboyant e Record. Atualmente,
quem detém
os direitos da série é a Companhia
das Letras, que recentemente completou
a coleção com os 24 álbuns oficiais.
Quem tiver alguma dessas antigas edições poderá encontrar certas diferenças
em relação aos álbuns lançados pela Companhia das Letras,
particularmente no volume Tintim no País do Ouro Negro.
Já Tintim e o Lago dos Tubarões foi lançado no Brasil pela Record,
e não foi republicado pela Companhia das Letras.
Depois de 80 anos e há décadas sem uma aventura inédita (o que não deve
acontecer nunca mais), Tintim permanece um personagem extremamente popular
no mundo inteiro, e as aventuras do jornalista continuam a despertar o
interesse de milhares de fãs.
Sérgio Codespoti confessa que o primeiro personagem de quadrinhos que cativou seu interesse foi Tintim, quando ainda tinha cinco anos de idade e lia as histórias de Tintim e Milu junto com seu pai.

   
   
  
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