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O que aconteceu com Frank Miller?
Por Sidney Gusman
| Ilustração: J.J. Marreiro e Flávio Teixeira de Jesus
(01/04/09)
Frank
Miller sempre foi um de meus roteiristas favoritos. Tanto que, há alguns
anos, quando ainda editava a revista Wizard, numa de minhas colunas
coloquei o nome dele ao lado dos de Alan Moore e Neil Gaiman no que classificava
como a tríade de craques do quadrinho norte-americano desde a década de
1980. Afinal, ele traz no currículo obras como O
Cavaleiro das Trevas, Batman
- Ano Um, Elektra
Assassina, a brilhante fase à frente do Demolidor, Ronin,
Os
300 de Esparta, Sin
City e outras.
Mas, como se nota na primeira frase deste texto, o verbo está no passado.
Isso porque, desde Os 300 de Esparta, de 1998, não leio nada que
preste de Frank Miller.
Há mais de um ano tenho divergido completamente de meu amigo Eduardo Nasi,
no que se refere a Grandes Astros - Batman, desenhado por Jim Lee.
Num ponto, contudo, concordamos: a série é um lixo. Mas o Nasi, que resenha
o título, considera que essa ruindade é proposital, uma afronta de Miller
ao mercado, como se dissesse: "Viram, nerds babacas? Eu posso
fazer essa porcaria. E ainda me pagam - e bem - por isso". Pra mim, ele
está mesmo em péssima fase. Perdeu a mão. E faz tempo.
O Batman neurótico e estapafúrdio de Miller foi colecionando, na mesma
proporção, momentos deprimentes (o que foi a edição em que o herói se
pinta de amarelo para encarar o Lanterna Verde?), atrasos constantes e
pauladas da imprensa e dos leitores. Pra piorar sua situação, Grandes
Astros - Superman, escrito por Grant Morrison e desenhado por Frank
Quitely, mostrou-se uma série extremamente bem-sucedida junto ao público
e à crítica.
Nas conversas com o Nasi, argumentei que, para mim, a prova cabal da decadência
de Miller viria com o filme Spirit. Qualquer pessoa com um conhecimento
razoável do mercado de quadrinhos sabe que ele idolatrava Will Eisner
(chegaram até a lançar, juntos, em 2005, o livro Eisner/Miller,
publicado nos Estados Unidos pela Dark Horse) e jamais macularia
a principal criação do seu velho mestre de forma "proposital", como estaria
fazendo com Grandes Astros - Batman.
E após assistir a Spirit, filme escrito e dirigido por Frank Miller,
o desejo que eu nutria de estar errado foi-se embora. Nos 108 minutos
em que fiquei ali, em frente à telona, imaginei Will Eisner se revirando
no túmulo. Que coisa lamentável! E que fique claro: durante a exibição,
não foi a palavra "coisa" que me vinha à cabeça para definir o que estava
vendo.
Alguém pode argumentar que Miller, apesar de experiências anteriores no
cinema, é um estreante como diretor e teria pagado pelo noviciado nessa
área. Mas é preciso lembrar que ele também es-cre-veu o roteiro.
E mal!
Spirit não é uma adaptação horrível apenas por Miller ter desvirtuado
o clássico de Eisner (o que ele, efetivamente, fez), mas porque o roteiro
é ruim de doer. Mal escrito, não prende o leitor em momento algum e nem
se sustenta. O humor presente nas HQs do defensor de Central City virou
um pastelão. O personagem ficou superpoderoso - algo que não existia nos
quadrinhos. Por mais paradoxal que pareça, o diretor não conseguiu transpor
para a telona os enquadramentos cinematográficos que se via nos gibis.
E, visualmente, como se notou desde os primeiros trailers, o longa-metragem
é quase uma cópia de Sin City.
Enfim,
Spirit apenas foi a pá de cal de um declínio que começou em O
Cavaleiro das Trevas 2, o que alguns fãs - talvez míopes pela idolatria
ao grande Frank Miller do passado - não quiseram (e ainda não querem)
enxergar.
Aliás, algum tempo após o lançamento daquela tralha, até tentei me incluir
dentre os que achavam que aquilo era uma mera provocação do autor àqueles
que tanto o amolaram para fazer uma continuação da obra seminal dos quadrinhos
de super-heróis, ao lado de Watchmen.
Mas isso durou pouco. A história é, mesmo, algo que jamais deveria ter
sido feito e merece apenas o esquecimento.
É triste constatar que, nos últimos anos, no mercado de quadrinhos, Frank
Miller foi mais noticiado por declarações "polêmicas" sobre a revista
Wizard do que pelos grandes trabalhos que, há bastante tempo, eram
a sua marca registrada.
Como construiu sua carreira no gênero super-heróis, há leitores que brincam,
dizendo que este Frank Miller dos últimos anos deve ser uma versão distorcida
de uma das 52 Terras do Multiverso ou, então, que ele teria sido substituído
por um skrull. Infelizmente, não. Nenhuma dessas patacoadas seria suficiente
para encobrir o que realmente está acontecendo: o autor não é mais aquele!
Seus dias de gênio da nona arte ficaram para trás, como atestam o acúmulo
de erros e a produtividade cada vez mais esparsa.
Pior: Miller parece ter perdido o interesse pelos quadrinhos, e se mostra
acomodado pelo muito que conquistou durante sua carreira. É um direito
que tem, óbvio, mas ele não assume isso publicamente por razões óbvias:
este mercado sempre lhe será um porto seguro, independentemente das lambanças
que faça no cinema.
Além disso, para Frank Miller, é cômodo alimentar a especulação de que
tem feito HQs sofríveis de forma proposital. Afinal, isso é muito melhor
do que admitir que, criativamente, o outrora craque da arte sequencial
está em franca decadência.
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do Universo HQ.
Sidney Gusman, apesar de tudo, é um otimista: ainda
crê que o "velho" Frank Miller ressurja. Afinal, quem sabe ele não se
inspire num certo Bruce Wayne cinquentão que reencontrou o prazer no que
fazia mesmo depois de aposentado?
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