|
A DC Comics à deriva
Por Sérgio
Codespoti (18/02/09)
É impossível discorrer sobre os eventos da DC Comics dos últimos
meses sem entrar em alguns detalhes ainda inéditos no Brasil. O texto
abaixo fala de HQs ainda não publicadas pela Panini e, por isso, pode
estragar o prazer de sua leitura no futuro.
Apesar das afirmações constantes de Dan Didio, de que tudo está ocorrendo
como planejado, a DC
Comics parece estar completamente perdida, sem rumo.
Para acreditar nas afirmações de Didio, seria preciso assumir que o plano
é muito ruim, e que ninguém da editora ainda percebeu isso.
Esta
fase catastrófica começou após a Crise Infinita, em 2006. Empolgada
com o êxito de 52, a editora achou que a fórmula "revista
semanal com duração de um ano + mega-evento ligado à palavra crise"
fosse funcionar sempre e tratou de repeti-lo num curto espaço de tempo.
Esse raciocínio resultou na série semanal Contagem
Regressiva (Countdown, no original) e o evento Crise
Final, de Grant Morrison.
No meio deste caminho (algo em torno de uns 18 meses) a editora aproveitou
para criar diversos arcos em outras revistas (e minisséries) ligados
em maior ou menor grau à Crise Final.
Contagem Regressiva pode ser definida com uma palavra: bagunça.
A história, se é que podemos usar este termo, lembra a confusão após a
explosão de uma granada. Quem fica em estado de choque é o leitor.
Os problemas partem da repetição de eventos e as contradições criadas
para tentar ligar episódios desconexos - e muitas vezes sem propósito
- entre si, para que o evento se movimente em direção da Crise Final.
Na prática quando não patina e derrapa, mais atrapalha do que ajuda, criando
momentos incongruentes e chatos.
A
vontade de vender mais revistas criou um evento inchado, no qual os personagens
morrem várias vezes em revistas diferentes. Os Novos Deuses, por exemplo,
morreram na minissérie A
Morte dos Novos Deuses e na Crise Final.
O Caçador
de Marte é outro exemplo: morreu na minissérie Salvation
Run (que poderia concorrer na categoria "minissérie sem nenhum
propósito exceto roubar o leitor" de 2008), depois teve seu falecimento
reprisado na Crise Final, e "bateu as botas" pela terceira vez
no especial que serviu como homenagem fúnebre ao personagem.
Outra vítima desta síndrome foi o Batman, que teve uma morte suspeita
em sua revista durante o arco Batman
R.I.P., pulou para as páginas da Crise Final, fez aparições
em outros títulos e acabou morrendo uma segunda vez, e de forma diferente,
no último capítulo da série.
Aliás, a DC perdeu uma oportunidade de ouro de divulgar
suas revistas. A imprensa norte-americana mostrou a primeira morte (a
suspeita) de Bruce Wayne, em Batman R.I.P. e ignorou o clímax do
Batman na Crise Final (uma cena mais bacana), ofuscado pela presença
de Barack
Obama na revista do Homem-Aranha. Afinal, é difícil noticiar a morte
do mesmo personagem em dois meses, antes mesmo de ele ter "ressuscitado".
A confusão foi tamanha, que Didio e outros editores foram obrigados a
explicar a cronologia dos eventos da morte do Batman - e nem assim é possível
chegar a uma solução razoável. Com tamanha bagunça, nem com uma "bula
editorial" é possível aceitar o resultado.
Ninguém precisa explicar história boa. Basta ler.
Mas embora o trabalho de Grant Morrison na Crise Final seja hermético
e interligado a várias de suas obras anteriores, como Os
Sete Soldados da Vitória, o problema do caos na DC
não é culpa do escritor escocês.
Morrison parece ter sido vítima de alguns de seus excessos como escritor,
dos editores e da campanha de marketing da DC, que transformou
a Crise Final no Deus Ex Machina que solucionaria os
problemas do Universo DC. E isso não aconteceu.
O leitor, mesmo aquele mais fanático, sairá da Crise Final com
dúvidas a respeito não só do que aconteceu nos últimos meses - e de como
a coisa fica daqui para frente - mas também querendo saber onde foi parar
o seu dinheiro.
Existe aquela sensação de burocracia em ação, com a mão direita agindo
sem saber o que esquerda está fazendo, enquanto a cabeça afirma que tudo
está bem e de acordo com o plano.
O leitor poderá perguntar: "Mas a Marvel
não faz a mesma coisa? São eventos seguidos de eventos, um maior do que
o outro. Qual a diferença?".
Os eventos da Marvel também apresentam problemas. A trajetória
recente do Homem-Aranha é um exemplo disso. A diferença é que gostem
ou não das histórias, os leitores terminam os crossovers da "Cada
das Ideias" sabendo o que aconteceu e como a situação ficou. A narrativa
pode ser linear e simplória, mas há algum conforto na sensação de que
podemos explicar o que ocorreu.
Nos atuais eventos da DC, é preciso ser um estudioso
fanático, um mestre em enigmas e com dinheiro sobrando para tentar entender
o que está acontecendo nas revistas.
Além disso, a Marvel parece estar mais em sintonia com
o seu público. Afinal, quando se trata de revistas nas bancas (ou nas
comic shops), a editora do Homem-Aranha está vendendo mais, tanto
na quantidade de exemplares quanto em dólares, todos os meses.
É preciso dizer que quando a questão chega aos encadernados, nas livrarias,
a DC ganha fácil da Marvel, vendendo
clássicos como Watchmen, Cavaleiro das Trevas e V de Vingança.
Não se trata de afirmar que uma editora é melhor que a outra. É simplesmente
a constatação de que a Marvel parece ter um plano que
a move do ponto A para o B, e independentemente dos méritos desta estratégia
(e se o leitor gosta ou não) é fácil de entender o que a editora está
fazendo e suas histórias.
A DC dos últimos meses parece possuir um plano que só
faz sentido - se tanto - para seus editores. Os leitores saíram da Crise
Final e já entraram numa nova
crise: a de confiança.
Restaurar a confiança do leitor na editora já seria uma tarefa difícil
em tempos normais, mas com a crise econômica, principalmente nos Estados
Unidos, vai ser difícil convencer alguém de que vale a pena comprar o
próximo evento cataclísmico que mudará definitivamente o universo. Principalmente
porque, quando se trata de super-heróis, o "definitivo" dura poucos meses
- um problema que existe tanto na Marvel, quanto na DC,
diga-se.
Infelizmente, o leitor brasileiro já está sofrendo com a fase de atual
desgoverno da DC Comics e o mercado aqui é bem menor
para suportar as bobagens da pior de todas as crises da editora: a criativa.
Comente este artigo no Blog
do Universo HQ.
Sérgio Codespoti espera que Dan Didio, se ainda estiver no comando da DC, ganhe uma bússola no Natal de 2009; quem sabe assim a editora encontra seu rumo..
|
|