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Dez obras não representam uma década
Antes de terminar a década (a data correta seria 2010) já começaram a sair as listas das melhores HQs dos últimos dez anos. Selecionar dez itens que representam o suprassumo da produção em quadrinhos nesse período não é uma tarefa fácil.
Por Sérgio
Codespoti (17/12/09)
O ser humano adora listas.
Umberto Eco, escritor e semioticista italiano, foi mais fundo e afirmou,
numa entrevista recente à revista Der Spiegel (reproduzida em
português aqui),
que a lista é a origem da cultura.
Não é de se estranhar, portanto, que às portas do ano 2010 começaram a
surgir as listas que tentam definir a década - mesmo que muita gente pareça
esquecer: a próxima década só começa em 2011. Este escriba mesmo fez uma
coluna
sobre as adaptações de quadrinhos para o cinema feitas nos anos 2000
(embora não tenha sido exatamente sob a forma de lista).
O site Io9
também entrou no espírito e fez uma lista ponderada, limitada à ficção
científica, não das dez melhores, mas dez entre as melhores HQs. Já o
blog Techland, que faz parte do grupo Time,
foi bem mais ambicioso e publicou a lista, assinada por Mike Williams,
Best
of the Decade: Comics (O Melhor da Década: Quadrinhos).
Essa lista ganhou destaque no site da revista Time e o assunto
foi "lincado" e "retuitado" de maneira até exagerada na internet, repercutiu
bastante, e ficou conhecida como a "lista da Time".
Para uma listagem que propõe descrever as melhores histórias em quadrinhos
da década, ela revela muitos dos problemas que assolam o mercado de quadrinhos
nos Estados Unidos, como repetição temática e a falta de abrangência.
Composta por Y-
O Último Homem (Y - The Last Man), Invencível
(Invincible), Retalhos
(Blankets), Os
Pequenos Guardiões (Mouse Guard), The
Authority, Os
Mortos-Vivos (The Walking Dead), All
Star Superman, Planetary,
100
Balas (100 Bullets) e Os Supremos (The
Ultimates), a lista de dez itens de Williams não possui nenhum
obra ruim.
São todas boas HQs. E, individualmente, cada uma dessas histórias foi
marcante dentro de um segmento específico. Juntas, essas obras formam
um belo catálogo, mas não fazem justiça ao título de O Melhor da Década.
Faltam autores, faltam outros gêneros, falta abrangência.
Dentro desse contexto é uma lista pífia, simplista.
A primeira coisa que fica óbvia - levando-se em conta apenas o que foi
publicado nos Estados Unidos (este era o escopo da "lista da Time")
- é que foram excluídos todos os trabalhos estrangeiros. Não há um mangá
ou uma HQ europeia. Será que não saiu nos EUA nenhum quadrinho europeu
ou japonês de destaque nos últimos dez anos? Claro que sim.
Em 2000 (que, só pra lembrar, de novo, faz parte da década passada), a
Dark Horse
começou a publicar, na íntegra, Lobo Solitário, a obra máxima
de Kazuo Koike e Goseki Kojima, um dos mangás mais influentes de todos
os tempos, que foi concluída nesta década.
Parte das aventuras do Lobo Solitário já haviam sido lançadas
nos Estados Unidos, pela First Comics, na década de 1980,
mas fora de ordem e sem que a série fosse concluída.
Mas havia outras escolhas. Grande parte da obra de Osamu Tezuka foi lançada
na América do Norte nos últimos dez anos, como Buddha,
Dororo, MW e Astro Boy, por exemplo. Para quem não gosta
deste tipo de mangá, outra a opção era Jiro
Taniguchi, que teve a HQ The Ice Wanderer and Other Stories
indicada ao prêmio Eisner.
Em 2003, a Pantheon lançou nos EUA Persépolis,
da iraniana radicada na França, Marjane
Satrapi, reunindo os dois primeiros volumes num só livro.
Persépolis
é uma HQ biográfica, lançada originalmente na França, que teve grande
repercussão e até foi transformada num longa-metragem de animação. Também
é da cartunista o livro Chicken
With Plums (Frango
com Ameixas).
Ignorar Persépolis é como ignorar Maus,
de Art Spiegelman.
Mas havia outras opções interessantes, de gêneros variados, como Exit
Wounds, de Rutu Modan; Aya,
de Marguerite Abouet e Clement Obrerie; O
Gato do Rabino, de Joann Sfar; Dungeon: The Early Years,
de Joann Sfar, Lewis Trondheim, e Christophe Blaine; Ordinary Victories
(Le
Combat Ordinaire), de Manu Larcenet; Miss Don't Touch Me
(Miss
Pas Touche), de Hubert e Kerascoët
ou até Chaland Anthology: Freddy Lombard, de Yves
Chaland. Todas essas obras estrangeiras foram indicadas a prêmios
nas terras de Tio Sam.
A segunda coisa óbvia é que a lista possui um alto grau de redundância,
de HQs muito similares no tom, na temática e até em sua autoria.
Robert Kirkman, Warren Ellis, Bryan Hitch e Mark Millar se destacam com
dois títulos cada um.
Kirkman com Os Mortos-Vivos e Invencível; Ellis com
The Authority e Planetary; Millar com The Authority
e Os Supremos; Hitch com The Authority e Os Supremos.
E aqui vale uma explicação. Como a lista não define qual volume de The
Authority foi incluso, e como tecnicamente a fase Ellis/Hitch terminou
em maio de 2000, presume-se que o autor da seleção tinha a intenção -
equivocada, já que p material é da década passada - de incluir os 29 volumes
originais da primeira série.
Quanto às similaridades temáticas, Os Supremos é uma história
claramente derivada do conceito e até da interpretação moderna que Warren
Ellis desenvolveu em Storm Watch e que chegou ao ápice em The
Authority.
Aliás, The Authority, Os Supremos, Invencível, Planetary
e All Star Superman são todos interpretações modernas de super-heróis
e da cultura pop.
The Authority surgiu em maio de 1999, publicado pela Wildstorm,
quando a editora de Jim Lee já havia sido comprada pela DC Comics,
embora mantivesse sua independência editorial.
Warren Ellis e Bryan Hitch transformaram Storm Watch, uma revista
de supergrupo de categoria "C", num dos mais interessantes títulos do
final da década de 1990. A série acabou se transformando em The Authority
e as 12 edições de Ellis e Hitch influenciaram vários títulos durante
toda a década seguinte.
Com a saída de Ellis e Hitch, entraram Mark Millar e Frank Quitely, em
junho de 2000, e o título passou a sofrer vários problemas, incluindo
a censura que culminou na saída do desenhista da revista.
Diversos artistas (e um escritor) se revezaram para completar o arco.
Arthur Adams, que deveria ter fechado a história iniciada por Quitely,
também se afastou depois de duas edições por causa de alterações feitas
pelos editores em sua arte.
Millar e Hitch se reuniram para redefinir parte do Universo Marvel
nesta década com Os Supremos, lançado em março de 2002. The
Ultimates (o nome original da série) é um título campeão de vendas,
que, apesar dos atrasos, influenciou não apenas outras revistas da "Casa
das Ideias", mas até algumas produções de cinema que adaptavam heróis
da editora.
Uma lista séria com "o melhor da década" poderia incluir Os Supremos
ou The Authority. Existe mérito para isso, mas não as duas. É
redundante. Principalmente quando o rol só possui dez itens.
Voltando a Warren Ellis, o escritor, juntamente com John Cassaday, criou
uma das mais divertidas releituras da cultura pop sob a ótica dos super-heróis
em Planetary, que surgiu na Wildstorm em 1999
e, assim como The Authority e Os Supremos, sofreu diversos
atrasos nos Estados Unidos.
A série foi interrompida entre 2001 e 2003, voltou a ser publicada e só
terminou em 2009. Foi preciso uma década para que tivesse suas 27
edições lançadas.
Aqui também é possível apontar uma ausência enorme de temática similar
a Planetary: A Liga Extraordinária (The League of
Extraordinary Gentlemen), de Alan Moore e Kevin O'Neill. São 14 edições
(contando as individuais das minisséries) que revisitam a literatura vitoriana
e transforma seus personagens (e os dos pulps do início do século
seguinte) em action heroes na virada do século 19 para o 20.
Escolher entre as duas é uma tarefa difícil e certamente mais orientada
pelo gosto do que pelo senso critico.
Invencível, de Robert Kirkman e Cory Walker foi publicado pela
Image Comics
em janeiro de 2003 (embora o personagem Mark Grayson tenha surgido em
Tech Jacket # 1, em novembro de 2002). É outra releitura - mas
do gênero super-herói - e um dos títulos mais interessantes dos últimos
anos nesse nicho.
Individualmente, essas quatros séries são muito expressivas e de bastante
sucesso, mas juntas representam 40% de uma lista que pretende indicar
as dez melhores HQs da década. E esse não é o caso.
Outra coisa que fica clara é que quase todas as histórias da lista foram
publicadas em selos especiais ou editoras independentes: Vertigo
(Y - O Último Homem e 100 Balas), Top
Shelf (Retalhos), Archaia Studios Press
(Os Pequenos Guardiões), Wildstorm (Planetary,
The Authority), Image
Comics (Invencível e Os Mortos-Vivos).
Os Supremos embora seja da Marvel,
saiu pelo selo Ultimates (Marvel Millennium,
no Brasil) e All Star Superman, foi publicado pela DC.
All
Star Superman, de Grant Morrison e Frank Quitely, é uma série independente,
sem vínculos com o resto da cronologia e com as outras revistas do Super-Homem.
É o único título dessa lista que saiu pela linha principal de uma das
duas grandes editoras estadunidenses.
Morrison e Quitely sintetizaram a Era de Prata do Superman em 12 edições,
mostrando que o mais clássico de todos os super-heróis ainda pode ser
relevante. O resultado foi uma das melhores fases que o personagem teve
desde sua criação, em 1938.
Outra opção explorando este mesmo gênero é o titulo vencedor do Eisner
de 2005, DC
- A Nova Fronteira (DC: The New Frontier), de Darwyn
Cooke.
Y
- O Último Homem, de Brian K. Vaughn e Pia Guerra (e outros desenhistas)
é uma série de 60 edições publicada entre 2002 e 2008, pela Vertigo
(que, para quem não sabe, é um selo da DC Comics). É
um trabalho exemplar.
Embora Y - O Último Homem seja uma das boas séries desta década,
é possível achar opções, pois outros títulos importantes foram esquecidos
como, por exemplo, Promethea.
Promethea é uma série de Alan Moore (junto com J. H. Williams
III), lançada pelo selo ABC, da Wildstorm,
que poderia entrar com facilidade numa listagem das melhores HQs dos últimos
dez anos. Mas ficou de fora da "lista da Time".
Desde a década de 1980, Alan Moore vem escrevendo HQs marcantes e muitas
vezes polêmicas, que mostram a importância do autor até hoje. A lista
é longa: Monstro do Pântano, V de Vingança, Watchmen, Miracleman,
Do Inferno, Tom Strong, Promethea, Top 10, Liga Extraordinária e
Lost Girls . O autor publicou várias HQs importantes nesta década.
Ao menos uma delas merecia estar na tal lista.
Os Pequenos Guardiões (Mouse Guard), de David Petersen,
é outra HQ que individualmente apresenta um pedigree impressionante:
boa qualidade de texto e arte e vencedora de dois prêmios Eisner
em 2008.
Mas a inclusão desta série numa lista das melhores obras da década vai
gerar a pergunta "não havia nada mais importante?".
Owly,
de Andy Runton, por exemplo é um título interessante que pode ser sugerido
como alternativa. Ganhou cinco prêmios entre 2004 e 2006 (dois Ignatz,
um Harvey, um Eisner e o Howard
E. Day Prize). É um trabalho excepcional, dedicado ao público
infantil, que se destaca pela ausência de texto. Os balões de diálogos
da história fazem uso das imagens para se comunicar com os leitores.
Um nome esquecido na "lista da Time" é o de Chris Ware, que,
só nesta década, ganhou cinco prêmios Eisner. Independentemente
desse e de outros triunfos, Ware deveria constar de qualquer rol, pois
ele é um dos poucos artistas que realmente está explorando os limites
dos quadrinhos, experimentando com a diagramação e o design criando
páginas de complexidade poucas vezes vistas.
É de autoria de Ware o livro Jimmy
Corrigan (recém-lançado no Brasil pela Quadrinhos na Cia.),
vencedor do Eisner, do Harvey, de Angoulême
(entre vários outros) e aclamado pela revista New Yorker como
a primeira obra-prima formal dos quadrinhos. Ware e seu trabalho foram
esnobados ou esquecidos.
100 Balas é outra série que marcou época. Só o fato de ser um
título policial que surgiu na Vertigo (em 1999), quando
o selo só se concentrava em horror, mistério e assuntos afins já faz dele
um marco. Mas, no decorrer de 100 edições, Brian Azzarello e Eduardo
Risso deram um show de história em quadrinhos, com enredos
envolventes, personagens marcantes e uma arte simplesmente brilhante.
Embora não tenha sido a precursora do retorno das HQs policiais, o sucesso
de 100 Balas abriu caminho para várias outras obras do gênero,
inclusive a excelente Criminal,
de Ed Brubaker.
Quem prefere uma obra mais sintética, poderia escolher a excelente The
Hunter, de Darwyn Cooke, HQ policial que adapta o livro de Richard
Stark.
Dentro do espaço rarefeito das HQs policiais desta década, que inclui
um punhado de bons títulos, 100 Balas se destaca não apenas pela
longevidade, mas pela constância da qualidade.
Os Mortos-Vivos é um dos trabalhos mais notáveis de Robert Kirkman.
A série foi lançada discretamente em 2003 e, aos poucos, foi ganhando
público e ressuscitou praticamente sozinha o gênero dos zumbis - vide
Marvel Zombies. E isso não apenas nos quadrinhos, mas também
nos cinemas e na literatura - sem esta HQ, não teríamos Pride and
Prejudice and Zombies, de Seth Grahame-Smith.
Felizmente para Kirkman (e para os leitores), apesar da overdose de zumbis
que atualmente assola as mais variadas áreas da cultura, Os Morto-Vivos
continua sendo uma das melhores obras do gênero.
Retalhos,
de Craig Thompson, pertence à categoria das HQs autobiográficas. É uma
obra de grandes méritos (venceu o Eisner, o Ignatz,
o Harvey e o prêmio da Associação dos Críticos
de Quadrinhos da França). O livro foi uma das unanimidades dentre
os "Melhores do mês" do Blog
do Universo HQ, em 2009.
Mas a lista de trabalhos biográficos independentes desta década é tão
grande quanto o volume de prêmios que eles receberam. Dependendo do gosto
do autor da lista, poderiam estar inclusas
obras como O
Chinês Americano (American
Born Chinese), de Gene Luen Young (a
primeira HQ a receber o prêmio Michael L. Printz);
Epiléptico,
de David B; Umbigo
sem Fundo, de Dash Shaw; algum dos livros de Guy Delisle, como
Pyongyang;
Palestina
ou Área
de Segurança - Gorazde, ambos de Joe Sacco; ou até o recente Asterios
Polyp, de David Mazzucchelli.
Uma década é um período grande de tempo. E selecionar o melhor da produção
de quadrinhos, limitando-se a apenas dez itens não é uma tarefa pequena.
Seria necessária uma lista mais criteriosa e abrangente.
Qualquer lista desagradará a alguns leitores. Afinal, qualquer que seja
a escolha, sempre haverá algo de fora. Mas é possível criar uma listagem
abrangente, limitando a polêmica em torno de alguns itens.
O que não dá para aceitar é uma lista criada supostamente a partir de
uma "longa pesquisa" e conversa com outros leitores, que se limite a um
pequeno nicho dos quadrinhos estadunidenses, com uma ou duas exceções
independentes.
Essa tal lista, vale repetir, é pífia e não representa
uma década de histórias em quadrinhos, mas sim, no máximo, o gosto de
seu autor.
A historia em quadrinhos, como mídia, como cultura, teve uma década muito
maior e mais importante do que as escolhas de apenas um país.
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do UHQ.
Sérgio Codespoti acha que, como o presidente Barack Obama está tentando reimaginar o papel dos Estados Unidos no contexto mundial, estava na hora de certos críticos abrirem os olhos e descobrirem que o planeta se estende além das fronteiras norte-americanas. Sim, existe muita coisa boa sendo produzida por aí.
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