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Ponto de Fuga

Não culpe Rob Liefeld

Por Diego Figueira e Zé Oliboni, responsáveis pelo Pop Balões (09/09/09)

Rob Liefeld Algumas semanas atrás, durante a WizardWorld Chicago, um leitor chamado Ryan Coons ganhou destaque ao dirigir a palavra ao polêmico desenhista Rob Liefeld durante uma sessão de autógrafos. Na ocasião, Coons proclamou: "Sou um grande fã do Capitão América e exijo desculpas por Heróis Renascem".

Em seguida, Ryan comprou um exemplar do famoso livro How to Draw Comics in the Marvel Way, de Stan Lee e John Buscema, fez uma dedicatória e deixou sobre a mesa em que estava Liefeld antes de se retirar.

A partir daí, com um vídeo no YouTube e a repercussão em diversos blogs sobre quadrinhos, Coon foi aplaudido e reverenciado por muitos outros leitores que compartilhavam do desprezo por Liefeld ou simplesmente gostaram de ver a rotina da convenção abalada pelo ocorrido.

Rob Liefeld Coons se colocou como porta-voz de uma campanha anti-Liefeld que não é recente. Trata-se de algo que existe desde meados da década de 1990, quando o autor passou rapidamente de jovem e promissor expoente de uma nova safra de desenhistas a representante máximo da decadência dos super-heróis.

É quase um clichê, uma piada interna que circulou incessantemente em revistas especializadas, sites, blogs e agora aparece de novo na voz de Ryan Coons.

A atitude do fã não deixa de ser compreensível, já que é normal eleger um "culpado" para algo que geralmente envolve a responsabilidade de muitos outros. No caso do projeto Heróis Renascem, da Marvel, na época Liefeld já era alvo de inúmeras críticas, que iam além do aspecto artístico e envolviam sua conduta como sócio fundador da Image Comics, com direito a ataques pessoais de seus ex-colegas na sua saída da editora.

Arte de Rob Liefeld Enquanto isso, Jim Lee, o outro sócio da Image contratado pela Marvel para desenvolver Heróis Renascem, era o astro do momento. E esse é o lado curioso da história.

Embora haja uma clara diferença na qualidade dos desenhos de Lee e Liefeld - ninguém questiona isso -, ambos são representantes da mesma tendência no modo de fazer super-heróis e, junto com outros tantos outros artistas, consolidaram as práticas que muitos fãs criticam tão ferrenhamente atualmente.

Lembre-se de tudo que foi moda nos anos 90 e hoje é apontado como o caminho para a decadência das editoras na época. A exploração especulativa das revistas, as capas duplas e variantes para uma mesma edição, a avalanche de produtos derivados (cards colecionáveis, pôsteres, brinquedos), tudo sempre deixando as histórias em segundo plano.

Curiosamente, o pronunciamento de Ryan Coons foi feito em uma das principais convenções de quadrinhos dos Estados Unidos; e esses eventos se tornaram o expoente máximo dessa expansão da indústria de HQs por lá.

Rob Liefeld As convenções norte-americanas há muito tempo são eventos comerciais, para licenciantes de produtos preocupados em fechar negócios e apresentar em grande estilo suas adaptações de personagens para cinema, animação, videogames etc.

O pouco espaço dedicado a se falar de quadrinhos é ocupado pelos painéis de lançamentos, cada vez mais compostos por megaeventos entre os títulos mensais.

Olhando hoje, fica fácil entender como tudo isso fazia parte de um momento terrível para a Marvel. Foi nesse mesmo período que a empresa entrou em processo de falência, para ser totalmente reformulada alguns anos depois.

Arte de Rob Liefeld E da mesma forma que Heróis Renascem (e também A Saga do Clone, do Homem-Aranha) é considerado um símbolo dessa queda, as histórias do selo Marvel Knights (como a fase de Kevin Smith no Demolidor) e o começo da linha Ultimate representam esse ressurgimento da "Casa das Ideias" com um novo padrão estético.

Dessa forma, a falência da Marvel seria, para muitos, a prova de que a "Era Image" foi o inferno astral dos quadrinhos.

Mas, vale lembrar, foi na Marvel que os fundadores da Image plantaram a semente da estética que foi levada ao extremo pela editora, e que tornou a concorrência difícil para a "Casa das Ideias".

Portanto, o ditado espanhol "Cria cuervos y te sacarán los ojos" seria mais do que apropriado à Marvel.

Arte de Rob Liefeld O problema dos quadrinhos de super-heróis daquela época foi a saturação e o desgaste de ideias. Todas as revistas pareciam iguais, com o mesmo estilo de desenho, e nos roteiros era impossível que, com tantos títulos dos mesmos personagens exigidos pelo mercado, todos fossem bons.

Não há nada no estilo de desenho de Lee ou Liefeld (na prática, são a mesma escola) que fosse ruim por si só, o problema é que tudo na época se parecia com aquilo, fosse uma história do Quarteto Fantástico ou do Motoqueiro-Fantasma.

Muitas vezes, o estilo de desenho não era adequado à imagem do personagem ou ao conteúdo do enredo.

Isso, claro, quando as falhas não eram próprias de um desenhista específico. Como era o caso de Rob Liefeld.

Mas Liefeld não foi o primeiro nem será o último desenhista ruim da história, talvez nem mesmo o pior deles. Eles estão aí até hoje, em um número que parece crescer por um motivo diferente daquela época.

Arte de Rob Liefeld Antes, era o excesso de títulos, agora é a dificuldade dos artistas de "primeira linha" cumprirem os prazos de trabalho que abre espaço para esses desenhistas sem qualificação.

Tanto que o retorno de Liefeld às revistas da DC e da Marvel recentemente não representou absolutamente nada, a não ser para alguém como Ryan Coons.

Isso porque as revistas desenhadas por Liefeld atualmente não se parecem com tudo que é feito com super-heróis. Dentre os títulos preferidos dos leitores, nem existe mais aquela semelhança de estilo. Pelo contrário, hoje, aparentemente, se aprecia mais a diversidade do que naquela época.

Sem dúvida, é injusto culpar Liefeld por Heróis Renascem. Afinal, quadrinhos são uma indústria apoiada em uma arte coletiva, que envolve diversas pessoas, de artistas a editores, alguns com talento e outros sem - nas duas áreas.

Mas e quanto ao que a obra de Liefeld realmente representa?

Talvez nisso a DC leve uma vantagem em relação à Marvel. Com quase o dobro de tempo de atividade que a "Casa das Ideias", a editora de Batman e Superman já aprendeu a conviver com altos e baixos e mudanças de paradigma no estilo de se fazer quadrinhos.

Arte de Rob Liefeld Com todo esse tempo de publicação, é impossível que os personagens da DC não passem por transformações (vindas do próprio contexto cultural) e que os leitores de hoje se interessem pelas mesmas histórias que os dos anos 50 a ponto de sustentar as vendas.

A memória dos quadrinhos de super-heróis é seletiva.

Apenas o que agrada aos leitores de hoje é resgatado das histórias do passado. Vez ou outra aparece algum Geoff Johns ou Grant Morrison que remexe o baú do porão e traz uns itens diferentes para a decoração da sala de visitas.

Mesmo assim, nunca haverá espaço para tudo que foi produzido nessa indústria cultural, cujo inventário cresce a cada mês.

A Marvel por outro, lado, se orgulhava de nunca de ter descartado nada da sua cronologia ("Nunca precisamos de uma Crise", diziam), que era toda formada de marcos da história dos quadrinhos. Cada criação da editora, dos anos 60 a 80, foi uma pequena revolução, uma renovação positiva dos super-heróis, digna de ser lembrada.

Arte de Rob Liefeld Isso mudou nos anos 90, marcados pelo excesso de títulos dos X-Men e o estilo de desenho que (para pequeno alívio da Marvel) ficou conhecido como "Era Image".

O melhor, para a Marvel, os leitores e o pobre Rob Liefeld seria seguir o exemplo da DC e deixar que as revistas daquela época sejam assimiladas por essa memória seletiva.

Não faz sentido se lamentar hoje pela qualidade de revistas de 15 anos atrás ou pelos seus responsáveis, sendo que elas exercem pouco ou nenhum impacto no mercado atualmente.

Afinal, não é novidade que a indústria de quadrinhos vive do seu próprio passado, mas somente da parte que lhe interessa. O que não nos serve deve ser descartado sem remorso, sabendo que, se as gerações futuras de leitores optarem pelo contrário, tudo estará no porão da nossa memória.

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Diego Figueira e Zé Oliboni, antes de escreverem este artigo, tentaram contar quantos dentes havia na boca dos personagens desenhados por Rob Liefeld. Desistiram....

 


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