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Ferdinando: um caipira que sabia das coisas
Um dos maiores sucessos dos quadrinhos norte-americanos era uma ode ao bom humor e à crítica social
Por Marcelo
Naranjo (11/03/09)
Distante há um bom tempo das bancas brasileiras e, infelizmente, não cogitada
para ganhar alguma edição em nossas livrarias, a tira Ferdinando
marcou época como um dos grandes quadrinhos de todos os tempos.
Li'l Abner, no original, foi criado por Alfred Gerald Caplin, que
assinava apenas Al Capp. Por décadas, ele foi um dos mais influentes e
importantes quadrinhistas dos Estados Unidos.
Natural da cidade de New Haven, em Connecticut, e nascido em 1909, aos
nove anos de idade sofreu um acidente com um bonde e perdeu uma das pernas.
Seu pai era desenhista amador e fazia quadrinhos para divertir a família.
E foi assim que fez Capp ter contato com essa arte, até como uma forma
de terapia para o problema que o garoto enfrentava.
Capp frequentou escolas de arte e seu primeiro trabalho publicado, pela
agência Associated Press, foi a tira Col. Gilfeather, no
ano de 1927. Depois, largaria essa série para tentar a sorte em Nova York,
e seria substituído pelo então jovem promissor Milton Caniff (criador
de Terry e os Piratas).
Em Nova York, com promessas de sucesso financeiro, Al Capp assumiu como
"desenhista fantasma", sem ser creditado, a tira Joe Palooka (Joe
Sopapo, no Brasil), de Ham Fisher. Diferenciado, logo deixaria sua
marca pessoal no trabalho, que faria grande sucesso em suas mãos, entre
1933 e 1934. No entanto, quase todo o dinheiro ia para Fisher.
Insatisfeito, Capp resolveu seguir novos rumos. Levou a tira de sua criação,
Ferdinando, para os sindicatos, e conseguiu publicá-la nos jornais
ainda em 1934, pelo United Feature Syndicate. Já no ano seguinte,
ganharia a cobiçada página dominical, junto com outra de suas obras, Washable
Jones.
Em 1935, Ferdinando tornou-se um enorme sucesso e passou a ser
distribuído para diversos jornais.
O sucesso de Capp não parou por aí. Detentor dos direitos de uso da marca
de sua tira, criou uma empresa para cuidar da exploração em merchandising
e das adaptações para outras mídias, como teatro e cinema.
Foi indicado pelo escritor John Steinbeck para o Prêmio Nobel de Literatura,
e frequentou capas das revistas mais importantes de sua época, como a
Time, por exemplo.
Qual a razão do enorme êxito do trabalho de Al Capp? Numa época em que
as tiras tratavam preponderantemente de ação ou humor e eram recorrentes
as que abordavam famílias norte-americanas, ele escolheu este último nicho.
A diferença é que o recheou com forte crítica política, social e de costumes.
Junte-se a isso um enorme talento, um desenho diferenciado e uma incrível
capacidade de criar situações humorísticas das mais engraçadas e tem-se
a "receita".
Ferdinando fez muito sucesso no Brasil. Foi publicado em revistas
em quadrinhos semanais e, posteriormente, na década de 1960, teve título
próprio pela RGE, em formato americano e depois em formatinho.
Marcou presença na coleção Gibi Especial, com a história Ferdinando
e os Shmoos, e na série Gibi
de Ouro, com a reedição de seu primeiro número.
Também teve histórias publicadas no Gibi
Semanal e no Almanaque
do Gibi Nostalgia.
Além disso, foi publicado pela Saber, na década de 1970, com o
título Família Buscapé. Contudo, leitores mais exigentes reclamavam
- com razão - que a editora mutilava os quadrinhos, e não tinha o cuidado
devido com a tradução.
A saga de Ferdinando traz uma família caipira dos Estados Unidos, moradores
do Brejo Seco (Dogpatch, no original), um vilarejo esquecido nas montanhas.
Os protagonistas são o forte e burro Ferdinando Buscapé, sua mãe, a feia,
amorosa e briguenta Chulipa, seu pai, o preguiçoso assumido Lúcifer, e
sua "quase namorada" Violeta - cujo único objetivo na vida é casar com
Ferdinando.
Em meio a inúmeros coadjuvantes e personagens criados especialmente para
algumas histórias, satirizando pessoas conhecidas na época, um dos destaques
da série é o Dia da Maria Cebola, no qual as moçoilas de Brejo Seco apostam
uma corrida para capturar os solteirões. Aquela que conseguir alcançar
um deles fará a "vítima" casar-se. O solteirão mais cobiçado é Ferdinando,
que viria a casar-se com Violeta, nos quadrinhos, na década de 1950.
Uma das preciosidades criadas por Capp foi a história Ferdinando
e os Shmoos, na qual ele critica o capitalismo e o modo de vida
nos Estados Unidos, usando seres meigos que oferecem tudo que o homem
precisa, tornando o dinheiro obsoleto.
Outra trama que virou uma espécie de "série dentro da série" foram as
aventuras do detetive Joe Cometa, a leitura favorita em quadrinhos de
Ferdinando, com um investigador muito atrapalhado, uma gozação com o sucesso
de Dick Tracy.
As capas que ilustram esta coluna são da revista em formatinho Ferdinando,
que teve seis edições e um almanaque, publicados pela RGE entre
1975 e 1976; e que representaram o adeus do personagem no Brasil.
Nestas edições, de 48 páginas, foram publicadas tiras de diversas épocas,
como histórias fechadas, passando pelo Ferdinando ainda solteiro até depois
de casado (inclusive com o filho do casal, Joãozinho Honesto) e outras
com seu irmão caçula, Magriço, que se tornou uma espécie de "substituto"
do Ferdinando enquanto era solteiro.
Uma curiosidade: Capp desenhava as mulheres solteiras como beldades cobiçáveis;
já as casadas eram autênticas bruxas, horrorosas. Os solteirões eram sempre
felizes, já os casados... pobres coitados!
Ferdinando deixou de ser publicado nos Estados Unidos em 1977.
Al Capp faleceu em 1979. Mas tanto a obra quanto seu criador permanecem
vivos na memória dos leitores que amam os bons quadrinhos.
Marcelo Naranjo sabe o motivo de Capp ter diferenciado
o desenho entre as mulheres solteiras e casadas. Mas acha perigoso demais
explicar a razão disso. Nunca se sabe quem está lendo!
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do Universo HQ.
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