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Ponto de Fuga

Por que a Vertigo é tão importante?

Por Diego Figueira e Zé Oliboni, responsáveis pelo Pop Balões (06/05/09)

Preacher A declaração da Ediouro, dada semana passada ao Universo HQ, de que o contrato da Pixel com a DC Comics foi rescindido, veio para confirmar os temores dos fãs de quadrinhos que há meses aguardavam uma definição para os rumos da editora.

Mesmo antes dessa confirmação, porém, já circulavam pela internet centenas de depoimentos queixosos pela interrupção de títulos da Pixel, em especial os do selo Vertigo, da DC.

Mas o que chama a atenção é que é extremamente desproporcional a quantidade dessas queixas com relação aos títulos da Vertigo e a preocupação com as demais publicados pela Pixel - como os álbuns de Corto Maltese e de autores nacionais.

Por quê? Afinal, por que a Vertigo tem tanta importância? Por que, dentre todas as séries incompletas no mercado nacional, as do selo adulto da DC Comics são, de longe, as mais lamentadas pelo público?

É claro que o caso de uma série como Preacher é suficiente para deixar os fãs de cabelos brancos. Afinal, foi publicada por diversas editoras, com seus arcos iniciais relançados algumas vezes, mas o último deles permanece inédito. Contudo, o trauma causado por mais uma saída da Vertigo das bancas e livrarias brasileiras parece ir mais além.

Mais do que uma questão de honra ligada a alguns dos principais títulos em quadrinhos das últimas três décadas, a obsessão com a Vertigo tem a ver com o seu papel na difusão de um ideal de quadrinhos que é muito forte até hoje.

100 BalasEmbora tenham existido várias publicações anteriores com quadrinhos autorais, de temáticas mais diversificadas, feitas por criadores de diferentes partes do mundo, as primeiras publicações da Vertigo no Brasil foram as responsáveis por consolidar este espaço para esse nicho de HQs.

A revista Vertigo, por exemplo, publicada pela Editora Abril em 1995 e cancelada no começo do ano seguinte, foi uma das primeiras a causar grande comoção. Publicada no formato mix - um dos mais viáveis no Brasil -, apresentou e viciou em larga escala os leitores de todo o País em várias séries desse selo.

Essas histórias contavam com o endosso da crítica, tanto a estrangeira quanto a nacional, que se consolidava no começo da década de 1990. E, dessa forma, a linha Vertigo assumiu no Brasil um papel semelhante ao que tem nos Estados Unidos, com algumas consequências também parecidas.

Para os leitores norte-americanos, os quadrinhos da Vertigo são, em geral, a primeira opção para fugir das HQs de super-heróis. O processo é visto até como uma forma de evolução, acompanhando o amadurecimento do fã, que, com o tempo, passaria a se interessar por tramas mais "adultas".

Como mencionou o crítico Douglas Wolk em seu livro Reading Comics, as histórias de super-heróis se tornariam uma espécie de "prazer com culpa", algo que os fãs relutam em admitir que gostam, a não ser quando a trama apresenta características em comum com outros quadrinhos "adultos" - seja lá o que isso signifique.

HellblazerMuitas vezes, os mesmo autores que agradam o leitor com histórias de super-heróis também têm trabalhos para a Vertigo (ou outras linhas editoriais similares) e acabam atraindo público. Exemplos notórios são os escritores Warren Ellis e Grant Morrison, que entre um arco e outro feito para a DC ou a Marvel, lançam por algum outro selo suas obras autorais, nas quais suas imaginações nada ortodoxas não encontram limite ou censura.

Ellis chega a dizer que apenas escreve roteiros de super-heróis para chamar a atenção para seus outros trabalhos.

Até mesmo na forma de publicação, elas se aproximam dos gibis de super-heróis, dentro do mesmo mainstream, com suas edições mensais de 24 páginas apresentando capítulos de séries longas. É um formato ao qual o público está acostumado, que aproveita uma lógica narrativa que se absorve lendo os mesmos superseres uniformizados.

As histórias da Vertigo são um remédio eficaz para a "culpa" que alguns leitores sentem por terem acompanhado apenas gibis de super-heróis. A saída é buscar quadrinhos "adultos". As revistas fazem questão de estampar esse rótulo na capa, mesmo que não exista nenhum consenso sobre o que essa expressão signifique.

Isso porque trata-se de uma discussão que existe apenas nos Estados Unidos e que não faz mais do que ecoar por aqui, dado o peso que o material gringo tem no nosso mercado.

TransmetropolitanNa Europa, os álbuns de Hugo Pratt e mesmo os de Milo Manara não precisam ser identificados como quadrinhos adultos. Não porque os leitores saibam de antemão que eles o são, mas, principalmente, porque essa distinção não acrescenta nada à obra.

Pelo contrário, pode se transformar em uma barreira quando se espera que a obra tenha um público maior e mais diversificado possível.

Essa autoafirmação compulsiva só faz sentido em um cenário saturado como o mercado norte-americano que, vale insistir, tem seus ecos no cenário brasileiro. Os super-heróis dominam não apenas as bancas daqui, mas também os fóruns e sites sobre quadrinhos, estabelecendo uma situação parecida com a dos leitores dos Estados Unidos.

Portanto, quando a Pixel anuncia que não publicará mais quadrinhos da Vertigo, o lamento é maior porque não significa apenas a interrupção de excelentes histórias, como eram as outras publicações da editora.

É também a interrupção de uma ideia bem difundida de quadrinhos "adultos", um remédio que não deixa de conter em si um pouco do próprio veneno que se pretende tratar.

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Diego Figueira e Zé Oliboni tomam seus remédios e venenos todos os dias para escrever para o Universo HQ e o Pop Balões.

 


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