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Os Trapalhões na Bloch Editores: a história de um clássico dos quadrinhos
Em pouco mais de dez anos de publicação, esta revista em quadrinhos colecionou fãs de todas as idades e cravou seu nome na galeria dos gibis que marcaram época no mercado editorial brasileiro.
Por Marcus Ramone
(29/07/09)
"Isto aqui é uma merda!". Essas palavras, gritadas por Ely
Barbosa diante do editor do gibi Os Trapalhões, em 1979, foram
fundamentais para que a publicação deixasse de ser apenas um título fadado
ao cancelamento e ao limbo na memória dos leitores e se tornasse uma das
melhores revistas em quadrinhos já produzidas no Brasil.
A versão HQ do quarteto de humoristas surgira na esteira do sucesso de
seu programa, exibido desde o ano anterior na TV Globo, depois
de passagens pelas emissoras Record e Tupi. Também se esperava
um prazo de validade para a publicação, da mesma forma que, antes e depois,
outras personalidades da televisão brasileira viram acontecer rapidamente
com os gibis que protagonizaram.
Essa previsão teria se confirmado se Ely Barbosa não tivesse atirado um
exemplar da revista na mesa do editor da Bloch e dito a ele, curta
e diretamente, o que pensava sobre o conteúdo da publicação.
O estúdio do desenhista assumiria a criação das histórias de Os Trapalhões,
que três anos antes, em 1976, havia estreado nas bancas. O problema era
que a direção editorial não agradava ao artista.
A liberdade criativa acabava tolhida pelo estilo de fidelidade rígida
ao humor apresentado no programa de TV, que impunha aos argumentistas
e desenhistas os esquetes longos e outros elementos que funcionavam melhor
na tela pequena, bem como um visual quase realista (ou menos caricato
do que deveria ser) dos personagens. Para se ter uma ideia, no início
as capas não traziam ilustrações e se valiam de fotos posadas com Didi,
Dedé, Mussum e Zacarias.
No primeiro ano, a revista chegou a dividir mensalmente suas páginas com
histórias do Gato Félix, de Buck Zé e da dupla de bichanos Leco e Beto,
um claro exemplo de como o gibi não se sustentava apenas com aventuras
dos personagens-título.
A reação agressiva de Ely Barbosa foi um divisor de águas. A partir daquele
momento, a revista tomou um rumo diferente e, como se fosse o fruto de
um desvio de linha temporal que a salvou de um destino antes imutável,
ganhou novo visual, conceito ousado - condizente com o amplo leque de
possibilidades imaginativas de uma HQ - e ecletismo de estilos de desenho
e humor. Tudo isso capitaneado pelo estúdio que ganhou plenos poderes
para tocar a publicação à sua imagem e semelhança artística.
O resultado foi um gibi à parte do universo da televisão, seguindo um
caminho próprio que não dependia da imagem do programa (apesar de usar
quadros como a Trapasuat, paródia do seriado S.W.A.T., grande
sucesso dos anos 1970) e conquistou os públicos jovem e adulto.
E assim, por uma década, permaneceu incólume diante de fatos significativos
que aconteceram com o grupo humorístico nesse período, como a oscilação
de índices de audiência do programa televisivo e a separação e reconciliação
dos Trapalhões.
Liberdade criativa
Escracho. Surrealismo. Metalinguagem. E, por cima de tudo, uma boa dose
de politicamente incorreto.
Histórias sobre mulheres, bebidas, malandragem, machismo e violência (no
estilo caricatural dos cartuns, vale frisar); piadas de teor sexual; brincadeiras
com homossexuais e outros temas apimentados que hoje seriam tratados com
excessiva delicadeza foram marcas registradas da revista dos Trapalhões
na Bloch.
A regra era deixar o humor correr solto, fosse de qualquer gênero, desde
que não beirasse o limite do mau gosto, pois o gibi também era lido por
crianças. Além disso, os humoristas ficavam de olho no que era feito com
sua imagem nos quadrinhos, muitas vezes emitindo sugestões (à guisa de
determinações) sobre o visual e características da personalidade de suas
respectivas versões cartunescas.
Mas isso não impedia que a Censura - aquela com "C" maiúsculo, que imperava
nos tempos da ditadura militar no Brasil - aprontasse com as HQs que estavam
prestes a ser publicadas em Os Trapalhões.
O cartunista Bira,
que trabalhou na revista entre 1980 e 1982 e no expediente assinava como
Ubiratan Dantas, conta que fez o argumento e os desenhos de uma história
- roteirizada por Orlando Costa - em que os super-heróis resolveram entrar
em greve e exigiam, dentre outros benefícios, férias remuneradas e FGTS.
À frente deles estava o Homem-Lula, referência nem um pouco sutil a Luís
Inácio Lula da Silva, então líder sindical que provocava dores de cabeça
nos militares.
A HQ foi alterada por ordem da editora.
"As ideias nonsense surgiam mesmo dos roteiristas. Sérgio Valezin,
Genival Souza e Orlando Costa tinham uma imaginação muito fértil e se
divertiam criando as situações mais inusitadas, como personagens soltos
no vazio das páginas. O próprio Ely tinha histórias completamente doidas",
lembra Bira.
Um bom exemplo dessa loucura criativa é uma piada rápida de página única,
na qual Didi está parado ao lado de um ponto de ônibus e, repentinamente,
surgem dois olhos com pernas e braços, que formam uma fila atrás dele.
Diante da expressão curiosa de alguém que passa por ali e vê a estranha
cena, vem a explicação infame do trapalhão: "Isso é um ponto de vista".
Tiradas
Os famosos super-heróis dos quadrinhos eram alguns dos principais motes
para piadas. Super-Ômi, Super-Veio, Nega Maravilha (e seu grotesco poder
de usar o odor das axilas para derrotar os vilões), Frangasma, He-Gay,
Batimão e Robinho - este último, comumente afeminado - e muito mais supertipos
foram alvos de diversas sátiras.
Outras criações dos gibis compareceram às páginas de Os Trapalhões,
como Asterix, que virou Didirix, o "cearês" inimigo do império de Brizolanus
- paródia de Leonel Brizola, ex-governador do Rio de Janeiro.
Sobrava também para as atrações da televisão. Uma delas foi a minissérie
policial Bandidos da Falange, produzida e exibida pela TV Globo
em 1983, transformada em Bandidos da Solange no gibi. E ainda havia
espaço para alfinetar programas de auditório badalados como o Cassino
do Chacrinha.
Personalidades como Michael
Jackson, Silvio Santos, Xuxa e diversas outras não escaparam da verve
satírica da revista e foram responsáveis por momentos clássicos da publicação,
iconoclasta por natureza.
E se política, religião e futebol não devem ser discutidos, os quadrinhos
dos Trapalhões não conheciam essa máxima. Por suas páginas desfilaram
tiradas contra governadores de estado e presidentes da República, passando
pelo sumo pontífice da Igreja Católica, papa João Paulo II, e não esquecendo
de cutucar qualquer clube de futebol que calhava de estar mal das pernas
no campeonato ou era rival do time de algum roteirista.
Na prancheta
Toda essa diversidade não se limitava aos roteiros. O estilo de cada desenhista
era respeitado e permitia ao gibi uma fuga da padronização gráfica de
quadrinhos como os da Turma da Mônica e da Luluzinha, sucessos
contemporâneos de Os Trapalhões.
O model sheet criado pelo chileno Carlo Cárcamo, da primeira equipe
de artistas da revista, era apenas um norte. "A gente seguia esse modelo
com uma certa liberdade", afirma Bira.
Graças a isso, era possível ao leitor ter o seu desenhista predileto.
Pelo gibi passaram nomes fortes no cenário das HQs nacionais, como Watson
Portela e o ex-quadrinhista Disney Fernando Bonini.
Mas era o traço inconfundível de Eduardo Vetillo o que mais chamava a
atenção. Isso explica a prolífica produção do artista no tempo em que
esteve na revista.
O dinamismo e o exagero visual dos desenhos de Vetillo garantiam a comicidade
das histórias ao simples passar de olhos do leitor.
Era também o artista que mais ousava na diagramação das páginas, invariavelmente
lançando mão do artifício das cenas "sangradas", em que os personagens
ou o cenário não obedecem aos limites dos quadros.
Por um breve período dos anos 1980, o desenhista fez um trabalho paralelo
em outro gibi da Bloch, Spectreman, adaptação do seriado
japonês homônimo exibido no Brasil.
Na década de 1990, Vetillo desenhou algumas HQs Disney para a Editora
Abril, na qual precisou adaptar sua arte frenética ao estilo gráfico
mais comedido dos personagens da turma de Patópolis.
Nas bancas
Foram 83 edições de Os Trapalhões publicadas até 1986. Durante
esse tempo, outros títulos dos personagens foram lançados e formaram uma
família com almanaques, superalmanaques e o spin-off Aventuras do Didi,
título mensal que apresentava somente histórias do trapalhão mais destacado
da trupe.
Um álbum com 210 figurinhas autocolantes, lançado pela Bloch em
1982, também fez parte dessa fase de multiplicação de títulos.
Em 1987, a revista aposentou o formatinho, cresceu para o formato americano
e virou Super Trapalhões, que em cada edição trazia histórias sobre
um único tema, a maioria envolvendo super-heróis. No rol dos clássicos
está a edição de estreia, com uma impagável sátira a Guerra nas Estrelas
(Star Wars).
Na mesma época, a revista Aventuras do Didi também mudou de conceito
e formato, alterando o nome para Didi: Passatempos e Quadrinhos.
Ambos os gibis foram descontinuados no final daquele ano, depois de nove
edições de cada título.
Quando perguntado sobre os motivos que levaram ao fim as HQs dos Trapalhões
na editora Bloch, Ely Barbosa não soube (ou preferia não) responder
com certeza. Mas especulava que os quatro humoristas tinham planos financeiramente
mais rentáveis e, por essa razão, não renovaram o licenciamento.
"Na época, alegaram que as vendas estavam caindo. Mas acho que foi problema
de contrato entre o Renato Aragão (o Didi) e a editora", faz coro o veterano
Bira.
Se há alguma dúvida sobre isso, basta lembrar que em janeiro de 1988,
cerca de três meses depois de suas derradeiras edições na Bloch,
Os Trapalhões aportou na Editora Abril em uma versão diferente:
dessa vez, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias eram crianças e suas aventuras
passaram a ser produzidas por um novo estúdio, o do quadrinhista César
Sandoval, criador da Turma do Arrepio.
Publicados por uma editora de maior porte e com revisão de posicionamento
de mercado, os personagens, agora voltados exclusivamente para o público
infantil, alcançaram sucesso na área de licenciamento e estamparam as
embalagens dos mais variados produtos de diversos segmentos do varejo,
condição nunca imaginada por sua encarnação anterior, que não gozava desse
apelo.
Os pequenos trapalhões sobreviveram na Abril até 1994. Dois anos
depois, a Bloch ensaiou a volta dos personagens adultos em As
Aventuras do Didi, que não trazia as versões de Mussum e Zacarias
- os humoristas haviam falecido no início daquela década.
Sem o mesmo estilo gráfico e conceitual da fase áurea que consagrou o
gibi dos Trapalhões, a tentativa de revivê-la durou apenas três edições.
Um melancólico final que não abalou a rica história dos Trapalhões na
editora.
Parte das informações apresentadas nesta matéria foi resultado de dois
anos de amistosas conversas por e-mail entre este articulista e o saudoso
quadrinhista Ely Barbosa e resgatadas recentemente de um arquivo eletrônico.
Optou-se por omitir algumas revelações cujos registros se perderam e estão
guardados apenas na falível memória humana. Os agradecimentos especiais
vão para o cartunista Bira, pelas curiosidades de bastidores que relatou
em entrevista concedida ao Universo HQ.
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do Universo HQ.
Marcus Ramone ganhou, em 1979, um pôster autografado pelos Trapalhões, graças a um concurso cultural promovido pelo gibi dos humoristas. Metade do prêmio continua intacta, justamente a parte que não tem os autógrafos.
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