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Os 80 anos dos quadrinhos Disney
Das tiras de jornais aos gibis, os personagens de Walt Disney se tornaram nas HQs o que seu criador esperava deles nos desenhos animados.
Por Marcus Ramone,
no Twitter @MarcusRamoneUHQ
(13/01/10)
Tudo começou com um rato...
Essa frase, repetida como clichê para se referir ao início da carreira
de Walt Disney - o que não traduz a verdade histórica, levando-se em conta
que o cineasta e produtor realizou dezenas de trabalhos comerciais antes
de criar o camundongo mais famoso do mundo do entretenimento e que o Coelho
Osvaldo tenha precedido o outro roedor -, também pontua a gênese de
uma trajetória vitoriosa e longeva de seus personagens nos quadrinhos,
uma seara que nunca foi o foco do artista e muito menos mereceu sua atenção.
Há exatos 80 anos, no dia 13 de janeiro de 1930, Mickey Mouse saía da
tela grande para estrear nas tiras de jornais. A King Features,
que desde o ano anterior assediava Disney com a proposta de transformar
o rato em uma série no ainda incipiente mercado de quadrinhos, passou
a publicar em diversos jornais dos Estados Unidos a aventura Lost on
a Desert Island (Mickey na Ilha Misteriosa, no Brasil), cujo
sucesso fez com que o personagem, em poucos meses, veiculasse diariamente
em 40 periódicos de 22 países.
Walt
Disney colaborou nos roteiros das primeiras sequências de tiras, desenhadas
por Ub Iwerks - cocriador do camundongo - e arte-finalizadas por Win Smith.
Cerca de dois meses depois, com o pedido de desligamento dos dois desenhistas
e a disponibilidade de tempo cada vez menor de Disney, o in-betweenner
(intercalador de cenas) do estúdio de animação, Floyd Gottfredson, assumiu
a criação integral da série.
Em toda sua vida, os interesses profissionais - que jamais deixaram de
ser, também, pessoais - de Disney navegaram por diversas áreas, dos desenhos
animados à criação da Disneylândia, passando pela miniaturização
de cidades e fabricação de trens em escala reduzida, além de outros hobbies
que se confundiam com trabalho.
Os quadrinhos, no entanto, jamais exerceram o menor fascínio no artista.
O que o levou a firmar contrato com a King Features foi nada mais
que o interesse em tornar a marca Mickey Mouse ainda mais famosa
e lucrativa.
Na época, os primeiros produtos comercializados com o a imagem e o nome
do personagem começavam a surgir e, juntamente com o Clube do Mickey
(uma grande ideia de marketing sugerida e organizada pelo gerente do cinema
Fox Dome, em Ocean Park, Califórnia), fizeram daquele rato um fenômeno
popular e cultural - e até mesmo social - sem precedentes nos Estados
Unidos. Um ícone que, com uma força não menos avassaladora, ganhou popularidade
em diversos outros países.
"Achei positivo que uma façanha publicitária como essa,
combinada com uma tira em quadrinhos (...), possa nos ajudar a transformar
essa série em uma das maiores coisas que já apareceram", escreveu Disney
em uma carta particular citada pelo escritor Neal Gabler no livro Walt
Disney: O Triunfo da imaginação americana.
Os
primeiros gibis
A
primeira revista em quadrinhos Disney, no formato e estilo
editorial que definem esse gênero de publicação, foi lançada em janeiro
de 1931, nos Estados Unidos, pela editora David McKay.
Mickey Mouse Series era um gibi que reunia, em 62 páginas em preto
e branco, as tiras originalmente publicadas nos jornais. Tinha periodicidade
anual e durou quatro edições.
Alguns historiadores apontam o álbum Mickey Mouse Story Book, lançado
pela mesma editora no dia 15 de novembro de 1929, como o primeiro título
em quadrinhos Disney. A confusão é compreensível: apesar de ser
um livro de prosa ilustrada, com adaptações das aventuras dos desenhos
animados, a publicação apresentava algumas páginas com painéis sequenciais
semelhantes a tiras.
Enquanto isso, na Itália, já a partir do dia 16 de abril de 1931, quando
apareceu no jornal L'Illustrazione del Popolo, Mickey dava o pontapé
inicial para uma saga vitoriosa dos quadrinhos Disney naquele país,
que ao lado da Inglaterra está entre os primeiros a produzir histórias
da turma de Patópolis fora dos Estados Unidos.
Em dezembro de 1932, o personagem estrelava o tabloide Topolino Giornale,
nem sempre apresentando materiais originais ou autorizados pela Disney.
O periódico se transformou, de fato, numa revista em quadrinhos somente
em abril de 1949, quando adotou o tamanho tradicional de gibi - em 2009,
o formato completou
60 anos e foi comemorado com uma edição especial.
Tutti buona gente
A Itália merece um capítulo à parte nessa aventura de oito décadas. O
país foi e continua sendo o maior produtor de histórias em quadrinhos
da Família
Pato e de outros personagens dos distintos núcleos editoriais das
criações de (e atribuídas a) Walt Disney.
Ainda em 1938, quando o regime fascista de Benito Mussolini proibiu a
entrada de quaisquer quadrinhos norte-americanos no país e seguiu assim
durante a Segunda
Guerra Mundial, iniciou-se por lá uma produção própria dessas HQs.
O resultado é sentido até hoje. Os quadrinhos da turma de Patópolis
estão dentre os mais consumidos na Itália, que se "apoderou" dessa galeria
de personagens como se fosse sua e a tornou uma poderosa instituição editorial
que se mistura com a própria origem da nona arte italiana e já se enraizou
na cultura local.
Júlio Schneider, redator responsável pela tradução dos quadrinhos da Sergio
Bonelli Editore publicados no Brasil pela Mythos Editora, viu
isso de perto. Em outubro do ano passado, ele participou da 37ª Mostra
Internacional de Quadrinhistas de Rapallo, cujo tema foram os super-heróis
da Disney, com destaque para o alter ego heroico do Pato Donald.
"Os patinhos me levaram à Itália para, junto a alguns dos autores das
historinhas que sempre me fizeram sonhar, comemorar o aniversário do Superpato,
que, criado pelos disneyanos da 'Velha Bota', foi às bancas em
1969", celebra Schneider, recordando a mostra que realizou no evento,
na qual apresentou reproduções de imagens dos heróis Disney criados
por artistas brasileiros - o catálogo da exposição publicou ainda um artigo
do tradutor sobre o assunto.
A despeito da aversão que as HQ italianas da Disney provocam atualmente
nos fãs brasileiros - graças à alegada queda de qualidade e artistas sem
o mesmo brilho de ícones como Romano
Scarpa, Giovan Battista Carpi e Giorgio
Cavazzano, para citar alguns nomes clássicos que ganharam fama mundial
escrevendo e desenhando aventuras para Mickey, Pato Donald, Tio Patinhas
e outros -, não é exagero afirmar que há muitos anos elas são o esteio
dessa turma em todo o mundo, ao lado de Suécia, Dinamarca, Alemanha e
Holanda, países que continuam produzindo e exportando esses quadrinhos.
É da Itália que tem surgido a maior parte dos novos personagens e onde
os antigos e tradicionais estão fora do limbo, ainda ganhando aventuras
inéditas. De lá, também são exportadas as HQs que compõem a totalidade
ou a maior parte do mix de dezenas de revistas em quadrinhos Disney
que ainda se sustentam em alguns poucos países, incluindo os Estados Unidos.
Não à toa, notícias como o declínio das vendas de alguns desses gibis
e o cancelamento
de outros, como vem acontecendo há pelo menos três anos naquele país,
despertam a preocupação em fãs de qualquer parte do mundo, principalmente
nos de certo país da América do Sul que mantém estreita relação com os
gibis Disney há muitas gerações.
Meu
Brasil brasileiro
Quando, ainda no início dos anos 1930, as tiras em preto e branco de Mickey
Mouse estrearam em O
Tico-Tico, rebatizando o camundongo como Ratinho Curioso, começava
a longa história dos quadrinhos Disney no Brasil.
Em 1934, as tiras seguiram para outro tabloide, o Suplemento Juvenil
de Adolfo Aizen, editor que ficou conhecido como o "pai das histórias
em quadrinhos no Brasil" e em alguns anos fundaria a Ebal
- Editora Brasil-América.
Aizen escolheu os personagens Disney para estrelar o primeiro gibi
da Ebal, lançado em 1946: Seleções
Coloridas, cujo número de estreia, com 32 páginas em formato americano,
trouxe o Pato Donald na capa e, no decorrer das 17 edições publicadas,
apresentou diversas outras criações da mesma galeria.
Mas foi em julho de 1950, com o lançamento de O Pato Donald, pela
Editora Abril, que as HQs Disney ganharam uma casa definitiva
no País. Uma morada que em 2010 completará 60 anos, muitos dos quais servindo
de porta de entrada de milhares de leitores no universo dos gibis ou como
auxiliar nos primeiros passos do aprendizado da leitura.
São seis décadas nas quais os leitores acompanharam o que de melhor foi
produzido por artistas de outros países, mas em que também assistiram
ao surgimento de quadrinhistas nacionais que emprestaram um sabor brasileiro
a Patópolis e alcançaram um sucesso pouco - ou nunca antes - visto no
mercado editorial do Brasil, empurrando o conjunto de títulos desses gibis
ao patamar de milhões de exemplares vendidos por mês, uma história de
ascensão, glória e queda que pode ser conferida no artigo HQs
Disney no Brasil: criadores e criaturas, publicado no Universo
HQ em 2004.
"Meu maior desafio, todos os dias, é manter vivo esse legado", diz Paulo
Maffia, que participa da edição e pesquisa das edições Disney publicadas
atualmente pela editora.
Maffia afirma que a grandiosidade e a importância dos quadrinhos Disney
transformam seu trabalho em um exercício diário de humildade. "Ainda mais
quando se faz isso em um lugar como a Editora Abril, que ao longo
de todo esse tempo de parceria influenciou e influencia de maneira positiva
a vida de tantos leitores, por meio do trabalho de profissionais do nível
de Ivan
Saidenberg, Renato
Canini, Euclides Miyaura, Gérson Teixeira, Julio de Andrade Filho
e o grande mestre de todos nós: Primaggio
Mantovi".
Júlio Schneider não dispensa o saudosismo ao tocar no assunto. "Vivi mil
aventuras com o Tio Patinhas; desvendei crimes com o Mickey e voei com
o Superpateta; dei boas risadas com a teimosia do Pato Donald e com as
trapalhadas do Peninha; acompanhei o surgimento do sobrinho do Peninha,
o Biquinho; e, algum tempo depois, joguei bola com a turma do Zé Carioca.
Mas o que eu sempre curti demais foram os passeios ao sítio da Vovó Donalda:
os afazeres dali eram parecidos com os da minha avó. E a minha dívida
com os patinhos só aumenta".
Não falta quem sinta o mesmo. "Eu lia Disney antes de aprender
a ler. Não sabia ainda formar as palavras, mas esforçava-me para entender
as histórias do Pato Donald", lembra o jornalista e escritor Gonçalo Junior,
autor do livro A
Guerra dos Gibis e nome de destaque na imprensa especializada
em quadrinhos.
Para ele, o personagem ranzinza e azarado é uma figura marcante de sua
infância. "Por dois ou três anos foi assim: eu só consumia Pato Donald,
dentro do meu universo restrito de criança urbana, que ignorava a existência
de outros personagens. Até que, um dia, deparei-me com um anúncio do Manual
do Escoteiro Mirim, que passei a desejar de modo obsessivo - como
o dinheiro lá em casa era pouco (meu pai gastava fortunas com meus problemas
de saúde), só consegui um exemplar em 2001, presenteado por ninguém menos
que seu criador, Cláudio de Souza, quando eu escrevia o livro O
Homem-Abril".
Embora O Pato Donald não tenha sido a primeira publicação da Abril
- foi Raio Vermelho, em maio de 1950, que abriu as portas da editora
e durou apenas duas edições -, a revista se tornou o marco do grupo editorial,
ao ponto de ser atribuída a seu fundador, Victor Civita, a paráfrase "Tudo
começou com um pato".
Gonçalo revela que, em 2000, durante uma entrevista com o presidente do
conselho editorial da Abril, Roberto Civita, para o jornal Gazeta
Mercantil, ouviu do empresário a afirmação de que "enquanto existir
Abril, haverá um gibi do pato em circulação, mesmo que em forma
holográfica".
"Uma consultoria de uma empresa argentina havia recomendado à editora
cancelar todos os títulos Disney, porque suas vendas estavam muito
baixas e aquém do porte da Abril. Contou-se, na época, que Civita
recebera a sugestão com irritação e a jogou na lata de lixo. Creio que
isso explica porque a Abril continua a editar as revistinhas Disney",
disse o jornalista.
A promessa de Civita deverá servir de alento para quem observa o atual
cenário dos quadrinhos Disney no Brasil, com poucos títulos, muitos
cancelamentos e tiragens que nada lembram os velhos e melhores tempos.
Essas dificuldades, entretanto, estão longe de ser um problema exclusivamente
brasileiro.
Para sempre
Se na Itália e em outros países da Europa, de onde saem as HQs Disney
inéditas que circulam pelo mundo, revistas são canceladas e novos títulos
deixaram de ser lançados com a freqüência de outrora, situação pior vive
os Estados Unidos.
Em 2003, os gibis voltaram a circular no país depois de quatro anos ausentes
das comic shops. Ao assumir a publicação dos personagens Disney
naquele ano, a Gemstone Publishing prometia abastecer o mercado
com muitos lançamentos.
A alegria durou pouco. As vendas caíram, os cancelamentos aconteceram
e os gibis saíram
novamente de circulação em 2009.
Ainda no ano passado, a Boom! Studios reviveu
os quadrinhos Disney nos Estados Unidos, de forma comedida,
apostando em dois títulos baseados em criações recentes dos desenhos animados
e mais dois que trazem HQs italianas protagonizadas por personagens clássicos,
como Mickey, Pateta e Donald, em versões aventureiras nos estilos super-heroico
e magia e fantasia.
Dentre os títulos ressuscitados, está Walt Disney Comics and Stories,
o primeiro gibi dos personagens a editar somente aventuras inéditas e
exclusivas, lançado em outubro de 1940 e, até julho de 1942, composta
somente por republicações. A revista, que durante sua existência saltou
entre editoras sem perder a sequência original de numeração de capa, completará
70 anos em 2010 - se chegar até o fim do ano.
Não é absurdo imaginar que os quadrinhos Disney, mesmo com todos
os percalços por que vêm passando, percorrerão mais 80 anos produzindo
novas e marcantes histórias em papel ou no que servir de plataforma para
uma HQ no futuro distante.
Desde que Walter Elias Disney entregou Mickey Mouse a essa mídia para
promover a imagem do camundongo e perpetuar sua marca, o grande conglomerado
de entretenimento em que se transformou o pequeno estúdio de animação
do "Mago de Burbank" não dispensa os gibis para divulgar seu maior patrimônio:
os personagens, em torno dos quais a companhia continuará girando.
Enquanto existir Disney e quadrinhos, os dois elementos certamente
estarão juntos. Mas é sempre bom contar com a prodigiosa sorte do ganso
Gastão para mantê-los assim.
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do Universo HQ.
Marcus Ramone estará sempre junto dos quadrinhos Disney, mesmo que, algum dia, reste a ele apenas a opção de reler os gibis antigos de sua coleção.
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