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Universo HQ - 10 anos

Por Octavio Aragão (05/01/10)

O universo no bolso

Um miniconto da Intempol para Sidney Gusman e o pessoal do Universo HQ

Numa São Paulo com criminalidade zerada, o agente G. espera. Em suas mãos, uma revista em quadrinhos recém-composta na banca da esquina a partir de dados de seu hypno-pod. Aquela era, literalmente, uma revista dos sonhos, que contava uma história única e específica, resultado da combinação de arquétipos extraídos do inconsciente do usuário.

Tudo que o agente G. queria era ler sua revista em paz, naquele lugar idílico, ocupando a mesa de um restaurante caro na Paulista. Infelizmente, nem aquele mundo era perfeito, pois Valladão, seu chefe imediato na Intempol, puxou uma cadeira e sentou sem pedir licença.

- Vem cá, ninguém nunca te chamou de Agente Ponto G?

Sem tirar os olhos da revista, G. respondeu de bate-pronto.

- Só a tua mulher, ontem à noite.

O garçom, alto, sério e albino, aproximou-se como cardápio roxo.

- Traz dois chopes

- Bebendo em serviço? - perguntou G., que segurava uma xícara de café.

- Não estou de serviço porque este mundo não existe, logo, compadre, traz ao menos o meu chope, por favor?

O garçom guardou o cardápio no bolso do avental, deu meia volta e saiu em passo de ganso.

- Veio aqui fazer o quê, Valladão? Me prender?

- O que te mata é esse teu mau humor. Relaxa, vá. Você sabe que não conseguiria esconder este mitoverso pirata por muito tempo, não é? A gente não é um bando de amadores, pô. A chefia está de olho em você faz uma cara e ontem resolveram dar um basta nesta zona. Sabe como é, nada contra você faturar uns caraminguás, mas mandar uma bola nas costas da Empresa é suicídio, cara. E montar um mitoverso particular é uma má ideia, principalmente se tem o desplante de criar um site na internet para disfarçar as comunicações entre seus comparsas. Nem vou comentar o detalhe de ter batizado o site de "Universo". Você deve sofrer de algum tipo de tendência suicida.

- Não montei nada. Isto aqui já existia antes.

- Ah, o papo do Jung, né? Inconsciente coletivo, blá, bla, blá. Olha, o Jung está na nossa folha de pagamentos, rapaz. Ele escreveu aquilo porque a chefia mandou. Foi praticamente uma carta psicografada, certo? Agora deixa de conversa fiada e vamos embora assim que eu terminar o meu chope Tem uma cela bem legal esperando por você e pelo seu pessoal lá na Prisão dos Homens que Nunca Existiram.

O Agente G. sorveu um gole de café. Seus olhos iam da esquerda para a direita, voltavam e repetiam o trajeto.

- Sabe qual a diferença entre um desenho animado e uma revista em quadrinhos? - perguntou.

- Sei, um serve para divertir e a outra, para limpar a bunda.

- Só se você for um idiota iletrado.

- Ou aliterado, talvez?

- Aliteração é magia fonética, uma das ferramentas para a manipulação deste universo. Mas a diferença entre quadrinhos e animações é o Tempo. Com T maiúsculo. Enquanto o tempo de uma animação escorre diante de seus olhos, numa história em quadrinhos, o leitor está no controle, vira páginas, vai para frente ou para trás, lê ao contrário ou salteado. O sentido é determinado pela vontade do usuário, Valladão. E, ao entrar neste mitoverso, que nada mais é que o receptáculo de todos os mitos primordiais da humanidade, você se colocou literalmente no meu bolso.

Valladão pensou em sacar a Terminator 9mm e enfiá-la na cara do Agente G., mas sentiu-se impelido a repetir uma frase sobre Jung, num déjà vú lúcido.

- Viu? - disse o Agente G. - voltei dois quadrinhos e li a sua fala outra vez. O universo apenas acompanhou minha vontade. Se você quiser, posso fazer isso a vida inteira. Quer?

Valladão suava frio. Não queria passar a eternidade falando bobagens num restaurante inexistente numa São Paulo de faz de conta, mas velhos hábitos morrem lentamente e desistir da captura não lhe parecia aceitável.

- Isto na minha mão não é apenas uma revista em quadrinhos. Nenhuma revista é. Trata-se de uma mapa bidimensional da quarta dimensão. Por intermédio deste artefato de papel impresso, eu consigo ajustar mentalmente os fatos, as Eras e até o meu próprio passado, num efeito que batizei de retcon. Posso desejar que jamais tenha existido uma Intempol, que tal? Quem sabe o mundo não se tornaria num lugar melhor? Ou como este, sem criminalidade menor, sem miséria, onde os bons vencem os maus e os finais quase sempre são felizes?

- É verdade, aqui é ótimo - disse Valladão, acendendo um cigarro - É o local onde ninguém morre de verdade, mas também poucos nascem. Onde o mal é combatido, mas não erradicado e sempre que ressurge, vem com uma novidade que ameaça ferir milhões de pessoas. Claro, isto aqui é a oitava maravilha do mundo.

- Cansei de você, homenzinho. Leve seu pessimismo para longe.

- Não sem você, Todo-Poderoso da Silva.

Com os olhos ainda em movimentos rapidíssimos, virando páginas, o Agente G. bateu de leve no bolso da camisa, onde estava o hypno-pod.

- Desculpe por isso, chefia - disse a Valladão - mas você não me deixa escolha. E a Luz desfez-se.

Dez anos, hein? - disse o fã ao editor do Universo HQ - Parabéns por mais essa conquista.

A festa estava cheia de gente, incluindo editores, artistas e até um ou dois diretores de cinema de segundo escalão, o que não era pouca coisa. Sinal de que o portal informativo era um sucesso inquestionável e participar da festa angariava algum prestígio.

Valladão adentrou o restaurante caro na Paulista e pensou que as coisas deveriam estar bem para o pessoal. Bateu no ombro do editor e apresentou-se:

- Opa, sou Valladão, roteirista daquele álbum que vocês resenharam no mês passado.

- Aquele sobre uma polícia temporal que persegue criminosos pela história? Rapaz, aquilo fico bem legal, parabéns.

- Obrigado, mas vocês que merecem os nossos agradecimentos e parabenizações. Sem o auxílio do site, jamais conseguiríamos tanto reconhecimento.

E Valladão partiu, feliz da vida, para filar uns salgadinhos mais adiante. O editor, conhecido em alguns universos como o Agente G., limpou as lentes dos óculos nas fraldas da camisa. Pensava que a revolução estava apenas começando.

Octavio Aragão é professor, ilustrador, designer, pesquisador, escritor e roteirista. É criador do universo ficcional Intempol, que deu origem ao álbum The Long Yesterday.

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