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Universo HQ - 10 anos
Por Sidney Gusman (05/01/10)
No dia 5 de janeiro de 2000, eu fui um dos poucos leitores que acessou o Universo HQ, ainda com fundo preto, com todos os textos das notícias em bloco, na capa, e no endereço http://www.universohq.cjb.net (alguém aí lembrava disso?).
E fiz isso porque, na época, o Samir Naliato, criador do site, um leitor de Petrópolis/RJ, que eu nunca vira na vida, me convidou, por e-mail, para conhecer o site. Quando ele estava bolando o Universo HQ, já trocávamos vários e-mails em que passei dicas do que achava importante ter, em relação ao conteúdo. Eu nem o conhecia, mas sempre curti conversar (mesmo que eletronicamente) com fãs de quadrinhos.
Não demorou muito e eu já estava mandando colaborações. Enviei alguns reviews e notícias e, sempre que podia, dava toques ao Samir sobre o cuidado com a revisão do site. Na época, eu gerenciava a área de comunicação de uma empresa de transportes públicos em São Paulo e, ligado a quadrinhos, mantinha somente uma coluna mensal na revista Sci-Fi News.
Cerca de seis meses depois, o número de acessos do UHQ não parava de aumentar - e a "cobrança" por parte dos leitores, ávidos por novidades (não havia então nenhum veículo de comunicação sobre quadrinhos no Brasil), aumentava. Foi quando o Samir me convidou para transformar o site num veículo jornalístico.
Na verdade, depois do fim da Área 51, no qual era colunista, eu não estava a fim. Mas o entusiasmo com que o Samir falava do projeto me cativou. E ele ainda me daria carta branca para direcionar os rumos do UHQ.
Àquela altura, eu já nutria algum carinho pelo site, que acompanhava diariamente, e acabei topando. E, após uma reunião com o Samir em São Paulo (foi quando nos conhecemos pessoalmente), levei junto o Sérgio Codespoti, parceiro de outras empreitadas (como o Área 51), e o Marcelo Naranjo, que nunca havia escrito nada sobre HQs, mas que mostrava conhecimento do assunto e muita vontade.
Assim, topamos reformular o Universo HQ. A princípio, nós três ficamos meses "nos bastidores", sem revelar ao mercado que o site passara a ter uma equipe em seu comando. Nessa mesma época, o Jotapê Martins convidou a mim e ao Codespoti para colaborarmos no site Omelete, que nasceu pouco depois do UHQ e do qual ele foi um dos fundadores. Nós agradecemos, mas não aceitamos, por razões óbvias.
Naquele ano de 2000, lembro bem que a primeira intervenção jornalística, pra valer, do site foi quando Jerry Robinson sofreu um enfarte em São Paulo. Dia a dia, colocávamos no UHQ um acompanhamento baseado no boletim médico emitido pelo hospital. E foi aí que, pela primeira vez, aconteceu algo que, infelizmente, se repetiria bastante nessa primeira década de trabalho: nosso texto foi "chupado" pelo site de uma grande editora, sem mencionar a fonte.
Foi quando revelamos ao mercado a nova equipe do Universo HQ. Isso porque era preciso mostrar aos responsáveis pelo uso indevido do nosso texto que o site agora era feito por gente que entendia do riscado e fazia jornalismo sério. A correção foi feita horas depois, com o crédito para o UHQ.
Era o início da promessa que fiz ao Samir, ao Codespoti e ao Naranjo quando topei essa empreitada: mesmo sem ganhar grana alguma com o site, faríamos jornalismo falando de quadrinhos (e não apenas sobre este ou aquele gênero), algo que move o UHQ até hoje. E não tardou para o mercado sacar isso.
O Universo HQ, depois da reformulação visual de 2001 e já no endereço www.universohq.com, passou a ser notícia em diversas mídias. Sérgio D'Ávila, na Folha de S.Paulo, nos classificou como "gente que entende de quadrinhos falando sobre quadrinhos". Paulo Maffia, da Editora Abril, disse que o UHQ era a CNN dos quadrinhos. Fomos convidados para fazer um chat no UOL, saímos na Trip, no Jornal da Tarde, na Revista da MTV e em muitos outros veículos de comunicação.
A audiência crescia sem parar. E o conteúdo seguia a mesma toada - o site já possuía alguns colaboradores que nos ajudavam muito nesse sentido. Como todos trabalhávamos (talvez nem nós imaginássemos que o site cresceria tanto), usávamos nossas horas de folga para escrever sobre quadrinhos, a paixão que nos unia.
E quanta coisa legal conseguimos colocar online. Dezenas de entrevistas (em março de 2001, estreamos o novo visual de 2001 com Lourenço Mutarelli e Jim Starlin; e na do Neil Gaiman, fomos o único veículo a conseguir uma exclusiva, no quarto do roteirista), matérias, notícias, colunas, charges e resenhas. Alguém se lembra dos Contos do UHQ? E de quando publicamos diariamente tiras clássicas dos mestres Flavio Colin (Vizunga), Julio Shimamoto (O Gaúcho) e Renato Canini (Tibica) e também de gente que estava começando a ser conhecida, como Flávio Luiz (Rota 66), Luís Augusto (Fala Menino!) e Antonio Cedraz (Turma do Xaxado)?
É... lembrar daquele começo dá uma saudade danada.
E pensar que fazíamos duas ou três notas por dia e tínhamos, em média, quatro resenhas por semana. Como o Universo HQ cresceu nesses dez anos! Tal qual um personagem, parece que o site adquiriu vida própria (o perfil dele do Twitter que o diga!) e foi ganhando espaço nas nossas vidas e respeito no mercado.
Como não sentir orgulho quando, por exemplo, o jornalista Diego Assis, em Folha de S.Paulo e hoje no G1, diz que sempre que, quando o assunto é quadrinhos, ele só considera verdade se sai no Universo HQ? E que servimos de "pauteiros" para a grande imprensa falar deste ou daquele lançamento da nona arte.
Só que essa responsabilidade de se tornar uma referência traz uma exigência contínua de aprimoramento. Hoje, nós todos damos risadas ao ler nossos textos antigos. Questionamos a forma como analisávamos uma obra. Ainda bem que temos esse senso crítico apurado, porque se há algo de que orgulho - mesmo - é do fato de o Universo HQ ser muito bem escrito. Já reparou no tanto de edições que trazem citações a resenhas publicadas no site?
Claro que todos erramos muito (ainda bem!), mas só quem trabalha no site sabe como sou chato quando o assunto é tratar bem a língua portuguesa. Por isso, todo santo dia, o site é revisado (temos até um minimanual de redação e estilo) e, quando passam barbaridades (sim, isso acontece), exerço o papel do editor linha-dura. Não um J. Jonah Jameson, mas, às vezes, rolam umas broncas.
Aí, você me pergunta: "Espera aí! O site não dá grana, os colaboradores escrevem de graça e ainda rolam broncas do Sidão?".
Pois é, não tinha tudo pra dar errado?
Só não deu, creio, porque entre a equipe surgiu uma amizade verdadeira e muito, muito forte - e isso você lerá nos textos de quase todos os colaboradores, tenho certeza. Daquelas de pedir ajuda em casos de problemas pessoais ou apenas de sair pra dar risada numa pizza no meio da semana. E olha que alguns de nós nem se conhecem pessoalmente. Ah, as maravilhas que a internet proporciona.
Mesmo o Samir, que saiu do site há alguns anos (alguém tinha que ter juízo nessa turma e tentar ganhar dinheiro), continua sendo um amigo querido - almoçamos juntos há pouco tempo, em São Paulo. E, óbvio, não faríamos esta atualização sem um texto dele.
Aliás, aqui vale um parêntese para ilustrar essa amizade que nos une. Em 2003, quando minhas filhas nasceram, Codespoti, Naranjo e Samir me aprontaram uma surpresa: fizeram uma nota anunciando a chegada das "supergêmeas". Quando vi, não sabia se ficava bravo, por aquilo não ter nada a ver com nosso foco jornalístico, ou feliz, pela demonstração de carinho. Fiquei com a segunda, mesmo com um único leitor tendo reclamado da notícia.
Nesses dez anos, o site ultrapassou a marca de cem colaboradores - e sempre serei extremamente grato a todos eles! E outra coisa que me deixa orgulhoso demais é saber que vários deles escreveram jornalisticamente pela primeira vez no Universo HQ e, tempos depois, estavam publicando em jornais e revistas do Brasil inteiro.
Esta nossa primeira década de atividade também trouxe diversos prêmios, como, por exemplo, o octacampeonato consecutivo do HQ Mix, o mais importante reconhecimento do mercado nacional de quadrinhos. Óbvio que isso é bacana, mas não dá pra expressar em palavras o quanto é gratificante ver subir ao palco para pegar seus troféus autores sobre os quais o Brasil leu pela primeira vez no Universo HQ.
E dá pra imaginar como é viajar para diversos estados para palestrar e leitores te dizerem que o UHQ é a página inicial do navegador deles? E autores que divulgamos ainda quando eram fanzineiros e hoje têm álbuns publicados? Isso é um prêmio incomensurável.
Um prêmio que nos mostra como o trabalho que realizamos é importante para o mercado. E isso, aliado à amizade que une os integrantes do Universo HQ, nos ajuda a superar as brigas (sim, elas acontecem, como em toda família), abandonar aquela raiva que te faz querer jogar tudo pro alto e seguir em frente. Sempre! Afinal, sem hipocrisia, sabemos o quanto seria péssimo pra quem ama - e faz - quadrinhos se o UHQ deixasse de existir.
Até quem diz não gostar do nosso trabalho nos visita diariamente - ou quase. A razão? Sei lá. Eu não volto a estabelecimentos que não aprecio. E você? ;-)
Olhando pra trás, vemos quanta coisa mudou nessa década. Veio a internet rápida. O site teve três visuais diferentes. Deixamos de falar de cinema (em geral e focamos só nas adaptações de HQs). Ampliamos nosso escopo também para o desenho de humor - charge, cartum e caricatura. Passamos a ter o maior banco de resenhas do Brasil (um leitor do site me sugeriu que procurasse o Guinness Book para ver se não é o do mundo! Será?). Vimos nossa equipe ganhar muitos colaboradores e perder outros. Acompanhamos mudanças extremas no mercado, fechamentos de algumas editoras e o surgimento de outras. Peitamos veículos poderosos que usaram textos nossos textos sem solicitar autorização ou dar o crédito. Cobrimos festivais brasileiros e estrangeiros (quando pensamos que isso seria possível?). Montamos um dos mais respeitáveis róis de entrevistados desse mercado. E muito, muito mais.
Poucas coisas não mudaram nesse período: nosso amor pelos quadrinhos e algo que sempre nos pautou: a independência. Pouco depois que entrei pro Universo HQ, voltei a ter emprego fixo no mercado editorial de quadrinhos, após sete anos na área de comunicação empresarial. De lá pra cá, trabalhei na Conrad, como editor-executivo, e na Wizard, como editor free-lance; e, atualmente, estou na Mauricio de Sousa Produções, como responsável pela área de Planejamento Editorial. E em todas essas empresas, ao negociar minha contratação, deixei claro que nada ali interferiria no UHQ. Felizmente, isso foi respeitado.
E sempre deixei meus colaboradores absolutamente à vontade para "malhar" produtos nos quais eu estava envolvido na produção; o que, efetivamente, aconteceu várias vezes.
Nesse período, teve editora que quis nos patrocinar (eu nem ouvi a proposta, por achar que ficaríamos em situação delicada, caso quiséssemos criticar algum de seus lançamentos) e editor que disse achar "sacanagem" apontarmos pontos negativos nas resenhas, pois isso podia fazer as vendas caírem (mas não se lembrou de dizer se os nossos elogios faziam esses números crescerem). Chegaram até a pedir que tirássemos notícias do ar - algo que jamais fizemos.
Sim, há profissionais que não gostam de ter erros apontados, mas, mesmo estes, sabem que o fazemos porque temos um compromisso com o leitor. E só com ele. Apenas isso. Por isso, nos respeitam. E é gratificante constatar, por exemplo, que as editoras passaram a ter revisões mais cuidadosas depois de tanto apontarmos equívocos nas suas publicações.
Sabe, neste 2010, junto com os dez anos do Universo HQ, completo vinte anos escrevendo sobre quadrinhos - a estreia foi em 1990, num texto publicado nas revistas Sandman e Fantasma, da Editora Globo. E se alguns no mercado dizem que o site deve muito do que se tornou a mim; afirmo que eu devo muito mais ao UHQ.
Quando o site começou a se tornar o que é atualmente, apenas os leitores de quadrinhos conheciam meu trabalho, devido às matérias que escrevia em jornais (nem sempre de circulação nacional) e revistas. Com o UHQ, meus artigos passaram a ser lidos nas mais longínquas localidades do Brasil e até do exterior - hoje tenho textos publicados inclusive fora do País.
E o mais legal: o público se tornou mais amplo. Quadrinhos passaram a ser encarados com uma seriedade nunca antes vista no meio acadêmico. Tanto que o UHQ serve de base para muitas pesquisas sobre o assunto e, em média, concedo quatro entrevistas por mês para trabalhos de conclusão de curso, mestrado ou doutorado ligados à arte sequencial. E nas mais diversas disciplinas. Além disso, há vários livros escolares que hoje trazem trechos de artigos publicados no site.
É por essas e outras razões que sempre digo que o Universo HQ se tornou meu quarto filho. E filhos só podem ser tratados de uma maneira: com amor. Então, enquanto tiver forças, o site dando grana ou não e com todas as nossas dificuldades técnicas, estarei à frente desta equipe fantástica. Afinal, ainda temos muitas notícias e checklists para divulgar, obras para analisar (será que passaremos das cinco mil resenhas em 2010?), entrevistas para fazer, opiniões contundentes para "colunar", milhares de leitores para manter informados e, principalmente, dar aos quadrinhos o tratamento digno que eles merecem.
Sidney Gusman é jornalista e editor-chefe do Universo HQ e se orgulha demais do tanto de amigos que colecionou nesses dez anos.
Índice
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