|
Beco sem saída
Por Eduardo Nasi (08/04/10)
No começo da noite de ontem, os colegas do site Omelete
divulgaram, depois de dois meses, aquilo que se convencionou chamar de
"revolução editorial" da Panini
Comics.
A expressão infeliz apareceu pela primeira vez em fevereiro, num pequeno
texto do editor Bernardo Santana, na seção de cartas de Superman #
87. A hipérbole, contudo, pegou e batizou a reforma que a casa italiana
preparou para as suas revistas. Na prática, foi só um rearranjo de um
mercado que está em crise.
Há uma matéria no site sobre as mudanças, mas, a rigor, o leitor vai pagar
mais para ler menos HQs. Mesmo que a Panini diga que
os títulos ficaram mais acessíveis em um texto assinado por seu presidente.
Trata-se de uma distorção. Isso mesmo: até no formato mais econômico,
o leitor sai perdendo com a "revolução".
As revistas de 96 páginas que ficarem com 72 sofrerão uma redução de 25%
no tamanho, mas de apenas 18% no preço.
Mas o impacto maior é nas revistas que aumentam de tamanho: um crescimento
de 50% no número de páginas representa um acréscimo de 87% no preço.
Tudo bem que os custos gráficos dependem de vários fatores, mas, na matemática
da Panini, quem perde é o bolso do leitor.
Só que tem um detalhe: não é tão certo que o leitor de super-heróis perde.
Talvez esteja ganhando. Acompanhe o raciocínio.
A Panini não costuma divulgar quanto vende. E, como é
típico das editoras que trabalham com tiragem baixa, não tem seus números
auditados. Mas jornalistas conseguem tirar informações de outros lugares.
Lojistas preocupados com seus negócios, por exemplo, dizem que as vendas
das revistas regulares de super-heróis estão caindo constante e perigosamente
- e que há cada vez menos hits nas prateleiras.
Daí, é natural que algo mude. Afinal, a editora parece estar num beco
sem saída quando se trata de Marvel e DC.
Em primeiro lugar, porque muito do material publicado é muito, muito ruim.
A qualidade de revistas como Novos Titãs, Marvel Millennium, Wolverine
e Trindade definha mês a mês. Em outras, títulos bacanas como
Demolidor e o Batman de Grant Morrison convivem com
porcarias como Supergirl e Miss Marvel.
A culpa não é da Panini. Mas o que ela pode fazer?
Para piorar a situação, aí estão os scans. Poucas horas depois
de a DC e a Marvel lançarem suas revistas
nos Estados Unidos, é possível ler tudo, de graça, baixando pela internet.
Hoje, é estupidez negar que o compartilhamento de arquivos, ainda que
ilegal, possa beneficiar os bons quadrinhos ao apresentá-los para os leitores.
O ponto é que DC e Marvel andam com
dificuldade de fazer bons quadrinhos em profusão. E aí como é que a Panini
pode convencer os leitores a pagar por histórias ruins que são publicadas
um ano depois de aparecerem na internet?
Nesse caso, o leitor já sabe que deve fugir de qualquer HQ do Fabian Nicieza
muito antes de a versão nacional chegar às bancas.
Com a chegada de iPads e outros tablets favoráveis à leitura,
a situação só tende a piorar. E tem até algo de heroico, de romântico,
nessa tentativa da editora de lutar contra o seu próprio tempo.
Por trás dessa transformação está a própria lógica do colecionismo, que
turbinou o mercado de super-heróis por muitos anos, com leitores comprando
revistas só para ter em casa.
Oras, se a HQ é ruim e já foi lida, ela tem mesmo que constar da sua preciosa
coleção? Se a revista é descartável, por que pagar por ela?
São respostas que a editora ainda não conseguiu responder.
Claro que a Panini não está isenta da crise. As escorregadas
foram várias nesse meio tempo. Durante um período, as edições vinham cheias
de erros de português, desvalorizando o próprio produto.
Depois, os planos mudavam a torto e a direito: o Shazam de Jeff
Smith (Bone) foi anunciado, cancelado, reanunciado e cancelado
de novo. Coleções abandonadas no caminho - Seton, Starman, Batman
de Neil Adams, Batman em Preto e Branco - também não foram favoráveis
à reputação da casa.
E os acertos, como a publicação integral de Gotham City contra o crime,
acabaram se tornando pequenos.
Claro que não é um mau momento para os quadrinhos em geral. Pelo contrário:
em post do Blog
do Universo HQ, elenquei recentemente os títulos que chegam
às livrarias nos próximos meses. São mais de 100. Tem muita coisa boa
- alguns da própria Panini.
Definitivamente, é um momento ótimo para ler quadrinhos no Brasil. As
livrarias estão lotadas e aquecidas. Com o perdão da irregularidade, é
bom até para ler super-heróis. Eles estão acessíveis, de graça, na internet,
pra baixar só o que tem qualidade. Só que, por conta disso tudo, lançar
quadrinhos de seres musculosos em colantes coloridos no Brasil virou um
desafio.
Como a Panini responde a ele, dentro de um modelo de
negócios que considere sustentável? Bem, a resposta só pode ser dada pela
própria casa, que sabe melhor de si mesma do que qualquer um de nós. E,
dentro desse cenário, a nova proposta da editora foi apresentada ontem.
Como bem apontou o jornalista Paulo Ramos, no Blog
dos Quadrinhos, a "revolução" não só não é revolucionária,
como também lembra fórmulas que já foram usadas no passado sem nenhum
sucesso.
No Twitter, o editor Roberto Guedes, que já trabalhou
com os títulos da casa, lembrou: as revoluções nos super-heróis vêm sendo
lideradas pelos mesmos profissionais há décadas.
É a velha história: quando se faz algo sempre da mesma forma, o máximo
que se consegue são os mesmos resultados. Para tempos muito originais
como estes, a proposta da Panini parece contida demais
e pouco criativa.
Parece até que a editora está contando com os poderes divinos de Thor
para fazer a grande virada. E talvez a Panini tenha esquecida
que Thor é apenas um super-herói dos quadrinhos.
E você, o que achou da "revolução" da Panini? Comente
este artigo no Blog
do Universo HQ.
Eduardo Nasi é jornalista e fã de quadrinhos, mas só crê em revoluções pra valer
|
|