Por Lielson Zeni ![]()

Editora: Dobra Quadrinhos - Edição especial
Autor: Yuri Moraes (roteiro e arte).
Preço: R$ 35,00
Número de páginas: 224
Data de lançamento: Outubro de 2011
Sinopse
Valentin Colzani sempre desenhou quadrinhos. Uma história que fez na adolescência, o super-herói truculento Mickey Boy, é preferida por seus amigos no lugar de seus quadrinhos existenciais.
Dentre diversos momentos de sua vida, sempre pontuados pelos desejos de ser um quadrinhista profissional e pelas frustrações da vacuidade de sua vida amorosa, Valentin encara uma vida convencional e, ao mesmo tempo, inacreditável.
Positivo/Negativo
"Essa vida é uma piada sem punchline." Eis uma das frases do álbum Garoto Mickey, de Yuri Moraes. Existem várias outras passagens do texto tão boas quanto, mas esta citação parece resumir o espírito de toda a narrativa.
O autor monta a história do personagem Valentin de modo fragmentário, com diversos saltos temporais. O leitor acompanha a adolescência questionadora, a vida adulta insatisfeita, as dúvidas pessoais metaforizadas em três animais: leão, o desejo mais primal; macaco, o racionalismo que tenta a isenção; e o sapo, deprimido, que tenta administrar os outros dois lados.
Graças ao sapo, vem fácil à memória o álbum Umbigo sem fundo, de Dash Shawn.
Todos esses pequenos quadros da existência de Valentin se somam como se fossem uma página de quadrinhos. Quadrinhos esses que o personagem tanto gosta a ponto de sonhar em trabalhar com isso.
E, novamente, a memória do leitor funciona e resgata outras histórias de personagens que queriam produzir HQs: O sonhador, Fracasso de público, Os Escapistas etc.
Bem, nenhuma delas tem muito a ver com Garoto Mickey, embora todas tratem de um tema afim.
É possível, sim, imaginar que Valentin seja uma personificação de Yuri Moraes. Mas o álbum não é uma autobiografia ou sobre um garoto que amava os gibis, como nos exemplos acima. É sobre quadrinhos.
Há experimentalismo em várias páginas, com direito a cards que resumem a história, lembrando um momento de Jimmy Corrigan. Só que o texto do verso é afetado, metido a espertinho, cheios de erros de estilo, em uma quebra de tom tamanha em relação aos bons diálogos do restante da obra, que só podem ser propositais.
Esse recurso simples tira um sarro dessas histórias com experimentação mais formal. Sem falar que parar para explicar vai contra aquilo que Arnaldo Branco, no prefácio, critica nas HQs herméticas. Mas não dá pra dizer que Garoto Mickey concorda com o prefaciador, pois, a trama é aberta o suficiente para o leitor tirar diversas leituras do trabalho de Yuri Moraes.
Ainda assim, não deixa de ser interessante o processo de escancarar o seu processo simbólico em vez de escondê-lo. Mas não é apenas esse tipo de quadrinho "experimental" que dá as caras.
A HQ dentro da HQ, Mickey Boy, é um tapinha nas costas das histórias de ação ultraviolentas que marcaram a década de 1990. E vale lembrar que o herói poderoso e destruidor lembra bastante um famoso ratinho das histórias infanto-juvenis.
O leitor encontra também uma referência às HQs autobiográficas e aos quadrinhos sobre quadrinhos. Na página 154, o sapo diz "Talvez eu devesse contar minha própria história...", ao que o macaco responde "Essas histórias biográficas são todas iguais... você vai chorar pelo vazio, falar de o quanto quis ser um grande artista, de como tudo é injusto e errado pra depois cair em seus dramas pessoais e existenciais..." - coisa que é possível encontrar no álbum. O leão sugere "Você ainda pode fazer isso de forma original...".
E a resposta do macaco é: "Como? Com metalinguagem? Usando animais no lugar dos personagens? Com realismo fantástico? Seja lá o que for, já foi feito. E digo mais: Você não vive ou viveu drama reais!"
Todos esses elementos citados foram usados por Yuri na HQ. Em um momento de autocrítica ferrenha, ele joga na sua própria cara uma advertência sobre a diferença entre pretensão e vanguarda. Se é que ela existe.
Ao dar a paulada, o autor consegue algo de que abriu mão: um espaço próprio entre as narrativas que podem ser emparelhadas à sua, a tal originalidade. E, depois disso, há uma grande virada na trama. E o leitor acompanha um Valentin que não sabe o que acontece.
Vale ressaltar que a arte de Yuri é suficiente para sua proposta, sem grandes espantos visuais por conta da beleza do traço. Mas, ao mesmo tempo, o autor emprega ótimos pontos de vista e usa com propriedade o espaço da página. Ele acerta a mão com a narrativa redondinha neste álbum.
"E o que faz uma boa história, afinal? A resposta da audiência? O quanto ela diverte determinado público? Uma estrutura complexa? A sensibilidade do autor sobre a vida, a sociedade e a humanidade?"
Com esse tipo de dúvida, o autor leva seu personagem adiante. Ele vive todas essas opções no material de Garoto Mickey - e, com ele, o leitor. É um nível muito alto de complexidade de relação entre obra e receptor, mas sem pedras no caminho. O acesso é direto, mas nem por isso mais fácil.
O senso crítico do livro é forte, sua forma de narrar proporciona uma ótima experiência de leitura. Os dramas de Valentin não são reais. Mas ganham o mundo quando o leitor "vive" naquelas páginas.
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