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Última atualização: 17/02/12       

Opinião
 
Entre: Quadrinhos

Super-Herói sim, por que não?

Por Abs Moraes (24/01/2003)

Durante muito tempo se propagou uma linha de pensamento que dizia respeito à impossibilidade de se produzir quadrinhos de super-heróis nacionais. Alguns diziam que não tínhamos a tradição; outros, o "talento"; e alguns, que o gênero (melhor, subgênero) estava esgotado, pelo excesso de produção desse tipo de material, principalmente, pelas duas grandes editoras que monopolizam o "mercado" de quadrinhos brasileiros.

Pois bem.

Desconsiderar as possibilidades de uma HQ com um super-herói nela seria ignorar um jeito diferente de narrar uma história. Veja bem, não creio que um gibi de super-herói seja o melhor veículo para tratar de temas sérios, mas que a presença de um sujeito assim numa história não chega a ferir ninguém, principalmente se ele for só mais um elemento acrescentado no cadinho da imaginação do leitor, é inegável.

Pense a respeito: o Brasil, assim como vários outros países que se encontram numa situação de quase homogeneização cultural imposta pelos americanos, não pode utilizar-se da antropofagia proposta pelos modernistas por qual motivo?

Corpo FechadoPara mim, a idéia da antropofagia é tão válida hoje, quanto foi em 1922 e nos anos subseqüentes. Daí a assinar uma HQ by fulano de tal são outros quinhentos. Até porque, caramba, temos a língua portuguesa, que é muito mais rica em comunicar nuances que o inglês, que é perfeito para comunicar o ódio, como um ou outro roteirista de quadrinhos anglófono já disse.

Deixar de pensar numa história porque ela precisaria de um super-herói para funcionar seria tolher a imaginação de quem quer que se propusesse a produzi-la. Aliás, o bendito super-herói, ou melhor, super-humano, já existe há tempos, e freqüentou a Bíblia (Sansão), Odisséia, Eneida, Ilíada (deuses e semi-deuses olímpicos), a filosofia (Zaratustra, de Nietzche), o teatro (Homem e Super-Homem, de Bernard Shaw) e assim por diante. O subgênero é derivado da ficção científica, e não consigo enxergar grandes diferenças entre uma coisa e outra.

Afirmar que não há nada a se acrescentar aos super-heróis é mais ou menos como dizer que histórias de ficção científica (e, conseqüentemente, de super-heróis) só devem ser produzidas em inglês, que não funcionam em português...

Sansão, desenho de Bené NascimentoBom, para quem não lembra, um dos iniciadores do gênero foi alfabetizado em sua língua materna primeiro, neolatina como a nossa, o francês, e publicou nela toda sua obra: trata-se de Júlio Verne.

Devemos, então, nos fechar para as possibilidades do subgênero? Mesmo sem tentar a mão sequer uma vez? E engolir os enlatados, então, fica proibido também?

Queiramos ou não, os super-heróis fazem parte do que chamamos de nossa cultura popular (ou pop, para abreviar e americanizar) e não aparecem mais só nos quadrinhos, mas também no cinema (Corpo Fechado) e na literatura (As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay), sem ficarem nem um pouco deslocados. Por que ignorar isso? Por que não tirar proveito?

Recomendo que qualquer um que ainda tenha dúvidas a respeito leia A Insólita Família Titã, de Gian Danton e Bené Nascimento, e veja como se pode usar super-heróis de forma adequada, e sem ferir as convenções do gênero, numa HQ 100% brasileira.

Abs Moraes tem uma queda declarada pelo que chama de "subgênero" da ficção-científica, e tem tentado escrever histórias em quadrinhos relevantes utilizando-se dele há muito tempo. Você pode conferir alguns de seus trabalhos online e também no site da Nona Arte, e descobrir seu flerte com outros gêneros, como aventura, drama e erótico (mas este último foi só uma vez).



 


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