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Brasil, um País sem memória. Inclusive nos quadrinhos!

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Adeus, ano velho...

Por Samir Naliato (17/01/2003)

X-Men #1, Panini ComicsO ano de 2002 chegou ao fim e, quando o assunto é quadrinhos, podemos resumir em apenas uma palavra: mudança. Isso mesmo! O mercado de HQs passou por grandes modificações no ano que terminou, trazendo boas e más notícias.

Por isso, neste começo de ano, nada melhor do que uma retrospectiva, concorda?

Mal começou 2002, e a Panini Comics estreou no mercado, publicando os personagens da Marvel Comics em seis revistas mensais.

Superman#1, Editora AbrilA Editora Abril continuou com os heróis DC Comics por mais seis meses, mas, após 23 anos no mercado, resolveu colocar um ponto final nesta trajetória, cancelando todos seus títulos.

Com isso, Super-Homem, Batman & cia ficaram sem editora. Mas não por muito tempo. Após alguns meses de disputa dos títulos, a Panini herdou as publicações, tomando assim o lugar que, até dezembro de 2001, era da Abril. As primeiras edições chegaram no final do ano, e a multinacional italiana passou de seis para mais de 12 títulos, em um ano.

Dylan Dog #1, Mythos EditoraEssas alterações provocaram uma nova divisão entre as editoras brasileiras. A Panini ficou responsável pelos principais personagens Marvel e DC, enquanto a Mythos Editora ficou numa posição privilegiada, assumindo várias publicações que, até então, a Abril não permitia que fossem liberadas, como a série Túnel do Tempo, materiais clássicos e até mesmo várias obras inéditas.

Outra boa iniciativa foi a Mythos investir mais nos fumetti (quadrinhos italianos), ampliando bastante a base de publicações desse tipo de material.

Astro City #1, Pandora BooksA Pandora Books tornou-se responsável pelo Universo WildStorm, que inclui Authority, Planetary e o selo ABC, de Alan Moore. A editora também ofereceu aos leitores outras opções, com a volta de Estranhos no Paraíso e Groo, mais Sin City e as esperadas estréias de Astro City e Star Wars.

A Brainstore ficou como a principal encarregada da Vertigo, com títulos como Os Invisíveis, Transmetropolitan, Preacher e Sandman; além dos "anti-heróis" da DC, nos títulos Lobo, Hitman e Dark Heroes. A Opera Graphica também publicou alguns títulos da linha Vertigo.

Mangás e livros

Yu Yu Hakuso #2, Editora JBCOs mangás continuaram com força total. A Conrad e a JBC continuam sendo as principais editoras neste segmento, expandindo o mercado com novas revistas, como One Piece, Dr. Slump, Fushigi Yûgi, Yu Yu Hakusho, A Princesa e o Cavaleiro, Love Hina e outros.

A Panini também entrou na briga com Gundom Wing, e promete mais para 2003, enquanto a Opera Graphica lançou GUNM - Battle Angel Alita. Novos materiais também podem chegar ao Brasil pela editora.

Front #12, Via LetteraA Editora Abril tentou com Medabots, mas parece ter sido uma experiência frustrada. Preferiu concentrar suas forças em títulos voltados para o público infantil, com Disney e a linha Cartoon Network.

A Conrad também se destacou com sua divisão de livros, lançando Fritz the Cat, Mangaka - Lições de Akira Toriyamae A Última Noite de Casanovae romances, incluindo Deuses Americanos, de Neil Gaiman; e A Voz do Fogo, de Alan Moore.

Falando em romances, destaque para As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay (Editora Record), de Michael Chabon, obra vencedora do Pulitzer Award em 2001, que conta a vida de dois jovens quadrinhistas durante a Era de Ouro dos quadrinhos americanos.

O Hobbit, DevirA Via Lettera continuou atacando em um front diferente... literalmente. Com seus lançamentos em formato álbum, materiais independentes e nacionais chegaram às livrarias e comic shops, incluindo a conclusão de Do Inferno; o lançamento Estrada para a Perdição; o belo álbum sobre futebol Dez na área, um na banheira e ninguém no gol; quatro novos volumes de Front, uma coletânea de histórias produzidas por artistas brasileiros de todo o País; e o livro Fumaça e Espelhos, de Neil Gaiman.

Com o sucesso do filme O Senhor dos Anéis, a Devir trouxe a adaptação em quadrinhos do romance O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, além de outras encadernações, como O Peregrino e Aria.

HQs Nacionais

As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora - Os Primeiros Quadrinhos Brasileiros2002 também pode ser o início do ressurgimento do quadrinho nacional, ainda que de maneira segmentada. Várias editoras lançaram materiais de artistas brasileiros, e outras pretendem dar uma chance para este nicho em 2003. A Panini já anunciou Combo Rangers, (que havia sido cancelado pela JBC).

A Opera Graphica, Editora Escala, Devir e Via Lettera foram as principais editoras neste assunto. Entretanto, a maioria dos materiais continua saindo de forma independente, seja em grandes projetos ou em fanzines.

No ano que passou foi publicado a espetacular coletânea As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora - Os Primeiros Quadrinhos Brasileiros, uma obra de resgate da memória da nona arte brasileira, feita por Athos Eichler Cardoso, com o apoio do Senado Federal.

Contos em QuadrosNo caminho de usar as HQs para falar da história de nosso País, a Editora Marques Saraiva entrou no mercado com Zumbi, a Saga de Palmares e O Segredo de Jurema.

Outra boa iniciativa foi Contos em Quadros. Enquanto o projeto de transpor para os quadrinhos os contos de Machado de Assis ainda não conseguiu entrar na sua fase final, Célia Lima (adaptação), J. Rodrigues (desenhos) e Djalma Cavalcante (organizador) lançaram a primeira do que se espera ser muitas edições adaptando contos de grandes autores da literatura. No número de estréia, Pai Contra Mãe, de Machado de Assis; O Bebê de Tarlatana Rosa, João do Rio; e Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria, António de Alcântara Machado.

Flavio ColinMas há também o lado ruim. Um dos mestres dos quadrinhos nacionais, Flavio Colin, morreu em 2002. Ele se foi quase esquecido, com poucos trabalhos para fazer. Colin vivia de aluguel com sua esposa em Teresópolis, e estava fazendo quadros e esculturas para tentar ganhar o que não conseguia com sua maior paixão: as HQs.

A ida de Flavio Colin nos deixa várias coisas para pensar. Lamentar após a partida de uma pessoa como ele não basta. Muitos outros ainda têm muito a oferecer, e, antes que tenhamos que lamentar outra perda, devemos enaltecer seus trabalhos. Jamais esquecer deles, seja em vida ou em morte.

Enquanto isso, lá fora...

Neil GaimanNos Estados Unidos, tivemos uma grande movimentação nos tribunais. A primeira foi a vitória de Neil Gaiman sobre Todd McFarlane sobre os direitos das personagens Angela, Cagliostro e Spawn Medieval. Agora, o próximo passado do autor britânico é tentar reaver Miracleman.

Já Stan Lee, co-criador do Universo Marvel, resolveu entrar com um processo contra a "Casa das Idéias", mas, nesse caso, não é para reaver o controle dos personagens, mas sim cobrando dívidas da editora.

PeanutsAinda na área dos tribunais, Joe Simon, o criador do Capitão América, ganhou o direito de continuar lutando pelo copyright do personagem.

Já os responsáveis por Peanuts querem reaver artes originais de Charles Schultz que estão no International Museum of Cartoon Art, mantido por Mort Walker, criador do Recruta Zero.

E ainda teve mais!

Pontos positivos:

Homem-Aranha, o filme- A Mythos publicou JLA: The Nail e já anunciou JLA: World War III, duas histórias muito aguardadas pelos leitores, mas ignoradas pela Editora Abril.

- A Panini assumiu as revistas DC apresentando algumas histórias puladas pela Abril. Entre elas as da Liga da Justiça e a prometida Action Comics #775.

- Os quadrinhos brilharam no cinema. Homem-Aranha foi o maior sucesso da temporada, e teve as boas companhias de Do Inferno, Asterix & Obelix: Missão Cleópatra e um dos favoritos ao Oscar, Estrada para a Perdição. No Brasil, o personagem Gralha também se aventurou num curta-metragem.

100 Balas #9- E nem só no cinema os quadrinhos foram destaque. Na telinha o sucesso chegou com Smallville, Birds of Prey e desenhos animados, como Liga da Justiça Animated e X-Men Evolution;

- Lourenço Mutarelli completou a trilogia (de quatro partes) do Detetive Diomedes com outra grande história, em A Soma de Tudo - Parte 2.

- O CLUQ - Clube dos Quadrinhos, sob o selo Tapejara, felizmente, continuou lançando os belos álbuns de Ken Parker.

- No ano em que se comemora 25 anos desde que o primeiro filme foi lançado, as revistas em quadrinhos de Star Wars finalmente chegaram por aqui, tanto nas histórias da Dark Horse (pela Pandora), quanto nos mangás (JBC);

Vagabond #12- A excelente série 100 Balas (Opera Graphica), e Vagabond (Conrad), que é um dos melhores mangás sendo publicado atualmente no Brasil.

- A Linha Econômica, da Panini. Com revistas cada vez mais caras, a editora foi uma das poucas que procurou alternativa para revistas mais baratas. Pena que quatro meses depois já houve aumento nos preços, mas a iniciativa continua sendo muito boa.

- Era uma Vez FH, de Chico Caruso, uma coletânea de charges que conta, com muito bom humor, os oito anos de governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

- A inauguração do primeiro Museu de Artes Gráficas do Brasil.

Pontos negativos:

DC Millennium #5- Está cada vez mais difícil para os leitores brasileiros acompanharem os preços cobrados pelas editoras nacionais. Algo precisa ser feito para tornar os quadrinhos mais acessíveis economicamente, e para alguns dos abusos praticados no último ano serem banidos definitivamente.

- Como se não bastasse a tendência dos últimos anos em cobrar altos valores pelas revistas, o dólar sofreu uma disparada em 2002, obrigando as editoras a reajustarem seus preços.

- Uma pena a Brainstore ter cancelado a revista DC Millennium por causa da nova divisão de títulos da DC Comics entre as editoras brasileiras.

- Os constantes atrasos no lançamento de várias revistas.

Cavaleiro das Trevas 2- Cavaleiro das Trevas 2 acabou sendo um dos lançamentos mais decepcionantes. Frank Miller não conseguiu agradar boa parte dos leitores, ao se afastar do conceito da série original.

- Revistas com impressões ruins e erros de português. Um cuidado maior nunca é demais.

- A ausência de Bone nas livrarias e comic shops. Os fãs já estão com saudades da obra de Jeff Smith.

- A Panini ter interrompido uma saga do Capitão América sem conclusão e cortando páginas, mesmo garantido que isso não aconteceria. A fase era ruim, mas deixar uma trama pela metade é tão ruim quanto, e os leitores que estavam acompanhando deram falta.

- A Editora Abril sair do mercado. É sempre ruim ver uma editora de grande porte diminuindo o investimento nos quadrinhos. Uma pena também que este final apresentou um certo desleixo da editora, pulando várias histórias e deixando histórias incompletas.

E assim foi 2002!

Existe algum fato que você acha que mereceria destaque, mas que não está aqui? Basta mandar um e-mail com sua opinião. A próxima coluna terá um espaço para você, leitor, dizer o que mais lhe marcou em 2002.

E na próxima coluna: ... Feliz (?) Ano Novo, com o que se pode esperar para 2003 por parte das editoras e do mercado. Ou, pelo menos, o que seria bom que viesse a acontecer! Então, até lá!

Samir Naliato bem que gostaria de ter grana para comprar tudo que saiu em 2002. Mas, peraí! Você conhece alguém que conseguiu essa façanha?

 


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