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Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 17/05/08       

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FawcettMinha parceria com Flavio Colin não foi muito convencional. Pessoalmente, nós só nos conhecemos quando fui a Teresópolis, em sua casa, já com os primeiros exemplares de Fawcett impressos. Nosso contato, até então, durante a elaboração da história, foi unicamente por carta e telefone.

Desde 1994, quando comecei a editar minhas HQs em fanzines, já sonhava com o dia em que Colin desenharia um roteiro meu. Naquele ano, tive a oportunidade de assistir uma palestra sua no Comicmania, um evento de quadrinhos que aconteceu aqui no Rio de Janeiro.

Pouco antes, eu havia conhecido o Ota, quando lhe dei um exemplar do meu zine Grandes Enigmas da Humanidade, no qual havia uma história que citava as lendas a respeito do Coronel Fawcett. Na mesma hora, ele citou o Colin, como alguém que também tinha muito interesse nos relatos e lendas sobre este aventureiro, o que me surpreendeu.

Dito e feito: durante a palestra, quando Colin falava sobre a riqueza da cultura brasileira, desandou a narrar as lendas sobre Fawcett, com um entusiasmo contagiante.

Fã do Colin eu já era, fascinado pela aventura de Fawcett também, daí só restou a um fanzineiro iniciante projetar pro futuro essa parceria então ainda utópica.

De qualquer forma, descolei (nem me lembro mais com quem) o endereço do Colin, e decidi mandar-lhe alguns exemplares. Foi uma surpresa quando recebi uma carta de resposta, poucos dias depois.

Nela, Colin - de uma forma simpaticíssima - comentava as minhas histórias, elogiando o que gostou, apontando as falhas e dando-me um dos maiores incentivos que já recebi para dar prosseguimento ao meu trabalho. O que mais me surpreendeu foi a forma como ele falava de igual pra igual comigo (mesmo com o abismo gigantesco que poderia nos separar).

Página de FawcettAté hoje tenho essa postura do Colin como um exemplo de vida. Nas cartas que passamos a trocar, não havia a figura do veterano consagrado, nem do fanzineiro iniciante de 18 anos de idade. Era como um papo entre amigos, onde o mais velho passava as dicas que a sua experiência permitia.

Nosso contato foi assim até 2000, ano em que decidi montar a Nona Arte, minha editora especializada em quadrinhos e meu trabalho "perde-pão". Já tinha o roteiro de Fawcett pronto, e só imaginava-o no traço de Colin. Como já comecei minha aventura editorial totalmente descapitalizado, fiz uma proposta bem modesta pra ele quanto ao pagamento pelo seu trabalho.

Ele não se ofendeu, pois sabia das minhas condições, mas também não topou de cara. Passaram-se alguns dias, e Colin me ligou de volta, dizendo que concordava em desenhar a HQ.

Até então, meu plano era lançar a editora com a revista Subversivos - Companheiro Germano, cujas páginas já estavam sendo concluídos pelo Laudo, o desenhista que deu vida a esta edição. Fawcett, então, entraria depois, talvez com um espaço de dois meses. Por isso, disse a Colin que podia desenhar as quarenta páginas calmamente, sem pressa.

Enviei o roteiro pelo correio, e para mostrar que não havia mesmo qualquer pressão, só liguei para ele umas três semanas depois. Já estava me corroendo de curiosidade, imaginando que Colin poderia talvez já ter feito um esboço dos personagens e, quem sabe, até ter algumas páginas prontas.

Bem, eu realmente ainda não conhecia o seu método de trabalho. Quando perguntei sobre o roteiro, fiquei embasbacado quando ele me pediu desculpas pelo atraso, mas garantiu que na semana seguinte a história estaria pronta! E cumpriu sua promessa: dias depois, lá estava eu com aquelas tão sonhadas páginas na mão.

Página de FawcettFoi uma sensação muito curiosa: eu peguei para ler uma história escrita por mim (e Colin foi totalmente fiel ao roteiro), mas vi uma nova história. Uma história que eu não conhecia. O roteiro ali já era coadjuvante: a vida que aqueles desenhos deram à trama fizeram com que eu lesse uma trama praticamente desconhecida, e eu ficava, a cada página que passava, mais e mais ansioso para saber o que aconteceria depois.

Tudo bem, eu havia escrito no roteiro que no quadro seguinte "Fawcett encontrava tal personagem", mas não era mais essa a questão. A minha expectativa era ver e sentir Fawcett encontrando tal personagem, e a magia deste e de outros momentos veio do pincel de Flavio Colin.

O que digo agora, eu já dizia antes de Colin morrer: devo a ele grande parte da projeção e da boa recepção que a Nona Arte teve na mídia e entre os leitores. Foi uma honra inigualável para mim ter em meu currículo um trabalho em conjunto com ele.

Costumo dizer, meio amargamente, que esta é a vantagem de fazer parte de um meio tão desprestigiado quanto os quadrinhos: é como se eu estreasse a minha primeira peça de teatro tendo Paulo Autran como protagonista. E, falando francamente, justo seria se Colin simplesmente não tivesse tempo para desenhar Fawcett, devido a compromissos com outras editoras brasileiras e estrangeiras.

Mas as editoras nacionais não o procuravam, pois faltava ainda um ingrediente para que suas histórias fossem vendáveis: ele estar morto. Agora, vão pipocar lançamentos com o nome de Colin.

André Diniz, roteirista, editor da Nona Arte e parceiro de Colin em Fawcett.



 


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