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Última atualização: 07/11/09       

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Colin e o quadrinho nacional brasileiro (e não é redundância!)

A Guerra dos FarraposNossos quadrinhistas são muitos, e muito bons, apesar de tudo. Você sabe, você lê e discute quadrinhos e tem noção do que "tudo" quer dizer quando se fala da produção brasileira.

É um dicionário de artistas que vai de Adão Iturrusgarai a Ziraldo. Mas é no "F" que está um dos nomes mais admirados. Flavio Colin, morto em 13 de agosto, é considerado um mestre dos quadrinhos nacionais.

E talvez seja na palavra "nacional" que esteja com mais força a sua mestria. Não se trata, óbvio, do nacionalismo tacanho, aquele que acredita nas bandeiras ululantes e na salvação da pátria. O trabalho de Colin era nacional, não nacionalista.

Olhando aqui da ponta (ou seja, do Centro de Porto Alegre, de onde escrevo, que fica em uma ponta da cidade; e a cidade fica em um estado que é ponta do Brasil), dá para se ter uma idéia desse aspecto nacional de Colin.

Estou cercado de pessoas frustradas com o tratamento que se dá à cultura sul-riograndense, porque, afinal, sempre parece que a cultura do Rio e da Bahia são as únicas genuinamente brasileiras, adotadas oficialmente e transformadas no clichê do samba-axé-Jorge-Amado. As outras não fariam parte do País. É uma impressão que as pessoas têm - por vezes, exagerada, em outras, até que compreensível e cabível.

Colin, porém, é exceção. Não é a única. Mas, nos quadrinhos brasileiros, é a maior e mais representativa. Sua obra não privilegia nem a Bahia, nem o Rio, nem São Paulo, nem o Rio Grande do Sul, nem a Amazônia, nem lugar nenhum. Ele retratou o País em arte seqüencial. Vide dois trabalhos recentes: Fawcett e Estórias Gerais. E um de quase 20 anos atrás: A Guerra dos Farrapos.

Página de Guerra dos FarraposÉ uma história a se recuperar a desse projeto, e de se pesquisar quais as suas repercussões. Em 1835, o Rio Grande do Sul e o Império entraram em guerra. Chegou a haver uma separação do estado, que se autoproclamou República Piratini (é aí que surgem essas histórias idiotas de separatismo, que, na verdade, só quem é de fora daqui acredita). Bento Gonçalves, Garibaldi e Anita são os personagens mais conhecidos dessa história, que foi adaptada para os quadrinhos pelo escritor Tabajara Ruas e então ilustrada por Colin.

Em 1985, 150 anos depois do começo da guerra, a história virou um álbum de quadrinhos, lançado pela então gloriosa coleção Quadrinhos L&PM, e mais uma revista em formatinho, papel jornal e impressa em preto-e-branco. Tinha aquele traço de Colin, com um quê de expressionismo naïf único, daqueles que a gente olha e reconhece o artista sem recorrer aos créditos.

Não sei quais foram as tiragens na época, eis outro dado a se pesquisar. Mas certo que foi enorme. A revistinha foi distribuída na rede de postos de combustíveis Ipiranga. Se bem me lembro, era uma daquelas promoções: abasteça X litros e leve um gibi da Guerra dos Farrapos para o seu filho. Só lá em casa, tinha umas três ou quatro dessas, e só uma chegou aos nossos dias.

Tenho uma vaga lembrança de a minha turma ter usado a revista como material paradidático na escola. Sei que muita gente que é mais ou menos da minha faixa etária, a dos vinte e poucos anos, leu a história do Taba e de Colin sem saber quem eram os autores, mas descobriu uma forma agradável de entender a Revolução Farroupilha.

Há poucos anos (a edição não tem data, pode?), a Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul fez mais 20 mil exemplares em formato um pouco maior, em papel jornal. A revista foi distribuída nas bibliotecas das escolas públicas, meia dúzia de exemplares foi para imprensa e autoridades. Não sei no que deu essa edição. E eis um chute que não é carregado de bairrismo, mas tem muita nostalgia: acho que essa Guerra dos Farrapos foi a maior tiragem que uma história do Colin teve.

Colin já tinha feito o Sepé, baseado na história missioneira, antes espanhola e hoje brasileira, de um índio herói que viveu entre os jesuítas que vieram para o Rio Grande do Sul. Fez também O Boi das Aspas de Ouro, baseado em uma lenda sulista - que é até hoje pouco conhecida por aqui.

Mesmo em suas histórias de terror, Colin usou o imaginário brasileiro como matéria-prima. Seu trabalho é tão relevante quanto ímpar, e é isso que vai fazer falta. Ou não: porque sua vasta produção está esparsa, quase perdida e pouco lembrada. Organizar e reeditar a obra desse artista é um trabalho necessário, que vai além da manutenção da memória dos quadrinhos brasileiros.

Uma edição caprichada das obras completas de Flavio Colin é uma forma de se tentar entender o País através da visão de um artista que viu o Brasil, sua cultura, sua história, seu inconsciente mitológico e sua alma.

Eduardo Nasi, repórter da revista Eaí? e editor da Revista Atlântida, de Porto Alegre/RS





 


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