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Online desde: 05/01/2000 |
![]() Sanchez Abuli, o criador dos maiores canalhas das HQs Numa entrevista EXCLUSIVA, realizada em parceria pela revista Canalha e o Universo HQ, um dos maiores roteiristas do quadrinho europeu fala do mercado espanhol, de sua carreira, seus personagens e, para tristeza dos leitores, confirma que Torpedo acabou
Por Sidney Gusman e Wander Antunes
O fato é que tanto no texto do encarte como nas diversas atividades de divulgação do disco, Loquillo se referia a Torpedo como "criação do meu amigo Bernet". E foi assim que Abuli soube da canção, considerando que, de uma hora para a outra seu nome, sua obra e sua pessoa simplesmente deixaram de existir.
Enquanto a justiça espanhola não se pronuncia, Abuli declarou, categórico: Torpedo acabou! Uma lástima, pois os leitores, com certeza, serão os maiores prejudicados, ficando privados das suas excelentes histórias com seu (ex) parceiro Bernet. Só nos resta lamentar! Esse talentoso escritor não poupa frases fortes ou opiniões polêmicas. Ele diz o que pensa, mesmo que isso seja tão forte quanto um direto no queixo! Seus personagens são sempre durões e cafajestes. mas com uma marca registrada: a excelente qualidade de suas histórias.
Universo HQ: Qual sua idade? Qual seu primeiro trabalho com quadrinhos? Por que resolveu trabalhar nessa área? Sanchez Abuli: Faz muito tempo que minha idade oscila entre 40 e 50 anos. Meu primeiro trabalho com quadrinhos foi em um "caderninho" chamado Hazañas Bélicas. Eu tinha 16 anos; era a pré-história dos quadrinhos. Decidi me dedicar a escrever porque meu pai ganhava a vida fazendo isso. UHQ: O senhor é filho de um romancista, poeta e roteirista de quadrinhos. Poderia nos falar da obra de seu pai? Não a conhecemos no Brasil... Abuli: Efetivamente, meu pai era novelista, poeta, e roteirista de quadrinhos, entre outras coisas. Escreveu dezenas "novelitas" (livros de bolso), roteiros, poesias e muitas coisas mais. Ele não usava o seu nome, Enrique Sánchez Pascual, somente pseudônimos: E. L. Retamosa (para o Velho Oeste), Alex Simmons (histórias de guerra), Law Space (contos futuristas). Tinha muitíssimos pseudônimos, inclusive, alemães. Meu pai escreveu muitos livros sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre o que ele era um especialista. Acredito que suas novelas foram vendidas em toda América do Sul. UHQ: Torpedo foi inicialmente desenvolvido graficamente pelo americano Alex Toth, que abandonou a série por achá-la muito violenta e amoral. Como foi o fim dessa parceria? Vocês ainda mantêm contato?
UHQ: Seu trabalho já foi censurado? Abuli: Me censuraram várias vezes. Atualmente, o editor francês de Torpedo, Glénat, se nega a publicar o último álbum de Torpedo, "El día de la mala baba", porque nele há um homossexual. UHQ: É verdade que há um desenho animado com o Torpedo? O resultado lhe pareceu a altura do trabalho desenvolvido nos quadrinhos?
UHQ: Caso fosse produzido um filme do Torpedo, qual ator o senhor gostaria de ver interpretando seu personagem? Abuli: Sempre disse que o melhor ator para representar Torpedo seria Clint Eastwood, que tem a altura, a cara o estilo de Torpedo. Talvez ele seja um pouco maior, mas com uma boa maquiagem... UHQ: As histórias de Torpedo se passam na década de 30. O senhor faz pesquisas para tornar os seus trabalhos o mais próximo da realidade da época? Abuli: Sei alguma coisa dos anos 30, por exemplo, que eles foram entre os 20 e os 40. Eu vi filmes e li livros sobre a época. No entanto, em Torpedo o rigor histórico me parece menos importante que a temática. UHQ: Quais suas fontes de referência na criação de seus personagens? Abuli: Minha referência na hora de criar personagens é imaginá-los, mas quando faço isso, sempre os vejo melhores do que são. UHQ: Em suas histórias, especialmente em Torpedo, as mulheres ocupam um papel quase sempre submisso. Qual a reação do público feminino aos seus trabalhos?
UHQ: Torpedo é uma série de quase 20 anos. Como é desenvolver um projeto por tanto tempo? Jordi Bernet costuma contribuir com idéias para roteiro, ele opinava sobre o texto ou prefere se dedicar ao desenho? Abuli: Sim, Torpedo estava para completar 20 anos... Jordi Bernet se dedicava a desenhá-los; e eu a escrevê-lo! Cada um se concentrava em seu campo. UHQ: Os quadrinhos atravessam um momento muito difícil no Brasil. Com que intensidade a crise mundial no setor chegou até a Espanha? Abuli: Na Espanha os quadrinhos também passam por uma grande crise. Por isso trabalho preferencialmente para a França.
Abuli: Não acredito que a diversidade temática seja a solução para a crise. O mangá, que traz esta diversidade temática, também está em crise agora. Receio que os quadrinhos tenham um desafio penoso pela frente: o mundo audiovisual, que atrai mais jovens, e o cinema, que atrai mais adultos. UHQ: Os autores brasileiros, mesmo nossos maiores expoentes não têm como se dedicar exclusivamente às histórias em quadrinhos e atuam em jornais, publicidade, televisão... O senhor se dedica exclusivamente aos quadrinhos?
UHQ: Revistas como Cimoc e Cairo deixaram de circular. Há novas revistas com propostas editoriais parecidas com as delas na Espanha? Abuli: Não há revistas, com exceção de El Jueves, que pratica um humor atual e El Vibora. E uma ou outra revista pornô. UHQ: De que forma a existência de revistas como El Víbora, Cimoc e Cairo contribuiu para o surgimento de grandes nomes dos quadrinhos espanhóis? Abuli: Revistas como 1984, Creepy, Comix International, Cimoc, Cairo... eram como terra para semear quadrinhos. Agora, esse espaço não existe ou viu-se reduzido à sua mínima expressão.
Abuli: Não saberia dizer se existe uma falta de ambição intelectual nos quadrinhos de hoje em dia. Até porque não gosto de quadrinhos intelectuais. Aprecio quadrinhos inteligentes, mas não os intelectualizados. Devo reforçar que falta interesse por parte de um público que se sente mais atraído por outras manifestações artísticas, como já disse: videogames, cinema, televisão... UHQ: Quais seus autores e obras preferidos? Na cena espanhola e mundial que novos autores têm chamado sua atenção? Abuli: Não vou citar nomes de meus autores favoritos, porque não quero que ninguém se aborreça. Eu gosto de histórias bem construídas, bem contadas, com bons diálogos ou com bons silêncios. E, se possível, com um bom final. Naturalmente, também peço que elas sejam bem desenhadas. Autores do mundo inteiro fazem histórias assim, ainda que sejam sempre os mesmos. UHQ: Atualmente, o senhor lê quadrinhos? Quais? Abuli: Leio os quadrinhos que eu traduzo, que são, em sua maioria, franceses e americanos. E um ou outro mangá, mas estes são poucos. Geralmente, ganho edições de presente, mas também sou capaz de comprar alguma, de vez em quando. UHQ: O senhor conhece os quadrinhos brasileiros? O que o senhor sabe do Brasil? Abuli: Não conheço nada dos quadrinhos brasileiros, além da revista Canalha. Do Brasil, sei que possui uma floresta fantástica e umas mulatas ainda mais fantásticas. A imagem que temos do Brasil é a de uma praia tropical, onde uma garota nua e sensual mexe as cadeiras ao ritmo de um samba, enquanto um homem, em segundo plano, a come com os olhos. E, ao fundo, o sol se põe avermelhado. UHQ: Em que países seus trabalhos foram publicados? Abuli: Creio que Torpedo foi publicado em uns 14 países. Mas poderiam ser 15, que eu não me importaria.
Abuli: Gosto de trabalhar com mais de um desenhista. Meu sistema costuma ser assim: escrevo o script e o envio ao desenhista. Para Darko traduzo para o inglês; e para Rossi escrevo em francês. UHQ: De todas as suas "crias", qual o personagem que mais gosta? Abuli: Certamente minha criação favorita é Torpedo, apesar de também ter carinho pelo Missionário, com Pastoras, e por Patapalo e seu bando de piratas, com Rossi. UHQ: Para os seus personagens, o senhor produziu tanto histórias curtas, quanto longas. Qual sua preferência? Abuli: Eu gosto das histórias longas e curtas, mas a maioria dos meus leitores parece preferir as curtas.
Abuli: Não creio que venha a trabalhar com super-heróis, porque não consigo acreditar neles. Para mim, basta - e sobra - os homens de carne e osso. UHQ: E sobre os mangás, qual sua opinião? Abuli: Eu traduzi alguns mangás interessantes, como, por exemplo, Akira, que me pareceu bom. Em linhas gerais, esse gênero não me interessa muito, mas se um dia ler uma história que me fascine, sou capaz de mudar de opinião. UHQ: O que o senhor acha dos quadrinhos que são publicados na internet? Acha possível, algum dia, os quadrinhos se desvincularem do papel? Abuli: Para mim, histórias em quadrinho é papel. Na internet podem ficar bonitos, porém, não é mesma coisa. Eu preciso tocar o papel, senti-lo. Além disso, gosto muito do seu aroma, que pode até me fazer recordar uma mulher e seus beijos.
Abuli: Meus trabalhos mais recentes: histórias eróticas para a Playboy espanhola, com Félix Veja, desenhista chileno residente em Barcelona; o segundo álbum de Patapalo com Rossi; histórias futuristas de duas garotas violentas em Saturno, com Cromwell, autor francês. E o último: Moebius me pediu que lhe escreva histórias curtas de Blueberry. Serei capaz? Mmmm... UHQ: Como é Sanchez Abuli? O autor de narrativas tão cheias de canalhas, tão violentas, tão cínicas... Abuli: Apesar de meus personagens violentos, canalhas e cínicos, sou um homem basicamente pacífico. Uma coisa é o que escrevo e outra, muito diferente, o que vivo. |
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