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Byrne: No começo, eu detestava a personagem. Achava a idéia completamente estúpida, pobremente concebida e executada. Foi Roger Stern quem me mostrou o quão divertida ela poderia ser, quando a usou nos Vingadores. Quando decidi tirar o Coisa durante algum tempo do Quarteto, enquanto sua própria série estava começando, perguntei ao Roger se poderia me emprestá-la. Aí descobri que a Mulher-Hulk era tão divertida de escrever e desenhar - especialmente desenhar!! - quanto de ler. Ela é simplesmente uma personagem divertida, e há pouquíssimos assim. UHQ: Como Surgiu The Last Galactus Story? Por que foi publicada na revista Epic Illustrated, ao invés de sair numa minissérie convencional?
Ele me perguntou se eu consideraria a possibilidade de fazer uma série do Surfista Prateado na revista. Eu gosto muito do Surfista, mas artisticamente ele é um dos personagens mais chatos de se desenhar! Então, sugeri uma história do Galactus, que é muito interessante de se desenhar! Archie gostou da idéia, especialmente quando sugeri algo situado num futuro distante. E começamos a partir daí. UHQ: Na época, qual era a sua expectativa para o novo universo da Marvel? E mais especificamente em relação ao seu título, Estigma?
Eu me envolvi com Estigma quase como uma piada. Howard Mackie estava cuidando de todo a linha Novo Universo - o qual todos viam como um claro sinal de que ele seria demitido logo. Então, Shooter que foi demitido, e Howard viu a oportunidade de realmente fazer algo com aqueles títulos. Ele me ofereceu Estigma, mas eu não aceitei. Então, nas semanas seguintes, cada vez que vinha falar comigo, sobre qualquer assunto, eu tinha que dizer "E não, eu não quero fazer Estigma". Mas aí descobri que, apesar de tudo, estava intrigado com o personagem. Havia coisas que eu achava que podia fazer. Pensei que seria especialmente interessante, porque todos esperavam que eu a usaria para jogar Shooter na lama. Então, eu decidi imediatamente que não faria isso! E deixei que os leitores decidissem se eu fui bem-sucedido! UHQ: Como a DC Comics entrou em contato com você para a reformulação do Super-Homem, e o que eles tinham em mente? Você tinha "carta branca" para fazer as mudanças?
Frank Miller, Steve Gerber e Elliot Maggin estavam entre aqueles que já haviam dado idéias, desde simples rascunhos até detalhados roteiros. Eu aceitei o desafio e mostrei o que acabei chamando de "Lista de Exigências Indispensáveis", com uns 15 ou 20 elementos do personagem que eu achava que precisavam ser arrumados, que assim nomeei, porque pensei que a DC nunca me deixaria (ou a qualquer outra pessoa) fazer mudanças em seu personagem principal. Para a minha grande surpresa, a DC rejeitou apenas uma das minhas "exigências indispensáveis". Então, a próxima coisa que soube foi que me escolheram para fazer a reformulação. Naquela altura, apesar de tudo ter passado por aprovação editorial, tive muita liberdade. UHQ: E qual era essa exigência que a DC rejeitou? Byrne: Eu sabia que você ia perguntar isso! UHQ: Era uma pergunta bastante óbvia!
Minha solução foi não colocar o bebê Kal-El no foguete em direção à Terra, mas sim a sua mãe, Lara, grávida. Ela chegaria, daria à luz e o bebê ganharia seus poderes aos poucos. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, como resultado, morreria. Janette Kahn (Nota do UHQ: presidente da DC) achou que isso era ir longe demais do original, e sugeriu que, já que a kryptonita era formada pelas mesmas pressões internas de Krypton que causaram a destruição do planeta, talvez ela já estivesse formada antes da explosão, e que as pessoas estariam morrendo antes mesmo de Kal ser enviado ao espaço. Eu gostei dessa versão, e terminamos por fazer assim. UHQ: Nos fale um pouco sobre a sua versão de Krypton. Quais os principais aspectos do planeta, e como isso influenciou o Super-Homem?
Com isso na cabeça, pensei em elementos de Krypton que não gostei ao longo dos anos, e um deles era a maneira com a qual o Super-Homem se referia ao planeta, na maioria das vezes, como se fosse um kryptoniano, e a Terra significasse muito pouco para ele. Como uma pessoa que nasceu em um país e cresceu em outro, sempre achei que isso era errado. Eu tenho recordações da Inglaterra, mas tinha oito anos quando sai de lá, e não tinha nenhum "patriotismo" junto de mim. Super-Homem era ainda mais jovem quando deixou Krypton. Para mim, cada vez que ele falava "Krypton perdido" ou exclamava "Grande Rao!" era como se estivesse cuspindo na cara de Martha e Jonathan Kent, as pessoas que realmente cuidaram dele, e lhe deram tudo (com exceção dos poderes) que fez dele o que era.
Aliás, uma coisa infeliz do comentário de Dick, que ficou na minha cabeça, foi que Krypton deveria aparecer na página de abertura da primeira edição da reformulação. Olhando para trás, gostaria de não ter feito isso. A primeira página seria com Clark jogando futebol americano, e não ia deixar os leitores descobrirem sobre sua origem, até ele mesmo descobrir, na última edição da minissérie Homem de Aço. Dessa maneira, eu poderia ter gerado algum "suspense" sobre o quão grande seriam as minhas mudanças em Krypton, ou ao menos deixar as pessoas pensando se eu realmente faria uma origem completamente diferente! UHQ: Você recebeu muitas críticas com a reformulação do Super-Homem? Byrne: A maioria das críticas negativas veio meses antes da primeira edição ser vista por qualquer pessoa de fora dos escritórios da DC. Na verdade, a maioria delas veio antes mesmo de eu começar a trabalhar no projeto. O mero anúncio dos planos foi o suficiente.
Entretanto, houve um fã radical do Super-Homem que continuou sua campanha de críticas contra o "meu" Super-Homem, até o dia em que faleceu, pouco mais de um ano atrás. UHQ: Comparando as duas versões de Krypton (a sua e a da Era de Prata), e as épocas em que foram feitas, o que lhe chama mais a atenção? Byrne: Houve várias versões de Krypton. Como mostrado originalmente, era um planeta habitado por uma raça de "super-homens". Todos tinham os mesmos poderes que o Super-Homem possuía quando apareceu. Realmente, na primeira vez em que vimos Jor-El (então Jor-L), ele estava "pulando sobre edifícios com um único salto" para ver Lara, que acabara de dar à luz. Com o passar dos anos, à medida que Super-Homem foi se tornando cada vez mais poderoso, os kryptonianos foram ficando mais fracos e humanos. Suspeito que os editores perceberam que estava ficando difícil explicar porque todos morreram quando Krypton explodiu, já que tinham os poderes do Super-Homem!
Alguns anos depois, especificamente quando eu já acompanhava como leitor, os editores também embarcaram no que parecia uma campanha calculada para tirar o personagem de seu status de "único sobrevivente de um planeta extinto". Uma das primeiras histórias que li introduzia Kandor (um bilhão de sobreviventes!) e, pouco depois disso, veio a Supergirl. Assim, o Super-Homem não estava sozinho nem na Terra! O principal objetivo das minhas mudanças, então, era restaurar o que achava ser um elemento importante: ele foi o único sobrevivente. Isso, juntamente com o que mencionei antes, moldou o "meu" Krypton. UHQ: Houve algo de que você tenha se arrependido de ter feito com o Super-Homem durante sua reformulação? O que ocasionou a sua saída do título? Byrne: Se tem algo que eu me arrependo é de ter omitido o Superboy. Quando foi me oferecido esse trabalho, propus fazer a reformulação dentro da continuidade, pegando o Super-Homem em um determinado ponto (onde ele estava) e, durante um ano, levá-lo para outro ponto (onde eu queria que ele estivesse). A DC insistiu em uma reformulação completa, e vislumbrei nisso o potencial para algo que não víamos há muito e muito tempo: um Super-Homem que era novo em seu trabalho, um Super-Homem que ainda estava aprendendo por onde seguir seu caminho.
Infelizmente, no último minuto, eles mudaram de idéia e insistiram que o Super-Homem estivesse pronto no final da minissérie Homem de Aço. Tempos depois, percebi que o que eles queria era um grande nome - no caso, eu - para entrar a bordo e fazer com que todos lessem as revistas do personagem, sem realmente mudar nada. Infelizmente, tudo já estava sendo trabalhado na minha cabeça, e eu estava comprometido emocional e intelectualmente com a versão não-Superboy. Se eu soubesse naquela época o que sei agora, teria mantido o Superboy e usado suas aventuras para explorar o processo de aprendizado do Super-Homem. Saí do título, porque fiquei sobrecarregado. Terminei por escrever os três títulos e desenhar dois, além de várias minisséries. Fiz algo em torno de 75 projetos relacionados com o Super-Homem, em pouco mais de dois anos. Isso seriam mais de seis anos de trabalho, se fosse uma revista mensal. Além disso, confesso, fiquei cansado das atitudes não-comprometedoras da DC. Eles aprovavam tudo que eu fazia, mas no primeiro sinal de má repercussão entre os fãs -mesmo meses antes de a reformulação começar -, voltavam atrás. Fiquei cansado daqueles jogos. ![]() Entrevista John Byrne - parte 1 | Entrevista John Byrne - parte 3 |
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